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CINEMA
Filmes mostram que ódio não é brinquedo

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Dois filmes em cartaz, esta semana, representam opostos extremos. Contrastam em temática e estilo, mas atingem em cheio seus respectivos públicos. Em Sonata de Outono (Hostsonaten, Suécia/Alemanha/França, 1978, Cinema da Fundação), o sueco Ingmar Bergman propõe mais um mapeamento de sentimentos humanos que incomoda e estimula o espectador durante dias. Em A Noiva de Chucky (Bride of Chucky, EUA, 1998, multiplexes Recife e Tacaruna), o diretor Ronny Yu propõe um mapeamento do trash ao defender a tese de que o verdadeiro lixo é aquele que ri de si próprio. O filme de Bergman teve duas indicações ao Oscar e ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 1979. O de Yu, bem, o de Yu foi a maior bilheteria brasileira da semana que passou.

Primeiro, a Sonata de Bergman, provavelmente o cineasta que melhor traduz as angústias humanas no cinema. Admiradores devem saber que seus pequenos grandes filmes têm o efeito de seções de análise (muitas vezes) desagradáveis, do tipo em que o paciente sente desconforto ao ser confrontado com verdades cuidadosamente guardadas em baús da psique.

Este filme, na verdade, repete vários temas abordados em obras passadas como Persona (1966), Gritos e Sussurros (1972) e Face a Face (1976), algo que também ocorre na trajetória do seu notório admirador, Woody Allen. Mesmo assim, e como também acontece com Allen, é uma variação do que já vimos antes, mas sempre recheada de novas verdades.

Em Sonata de Outono, mãe e filha encontram-se depois de sete anos separadas.

A mãe, Charlotte (Ingrid Bergman), é uma pianista mundialmente famosa, já sexagenária e ainda no topo dos seus super poderes como artista. Uma mulher capaz de interpretar as mais delicadas nuances de Chopin ou Beethoven, mas sempre incompetente ao interpretar a própria filha, Eva (Liv Ullman), um dos personagens mais sensíveis já apresentados num filme.

Eva é como uma esponja de sentimentos, nenhuma palavra ou gesto lhe passaram despercebidos ao longo da sua vida, especialmente se estas palavras e gestos vieram da sua mãe. Ela considera-se "filha de uma mãe que nunca fica frustrada, decepcionada ou infeliz", definição que, mesmo irônica, teve efeito nocivo na sua personalidade, uma vez que Charlotte sempre agiu como um rolo compressor, passando por cima da filha e impondo-lhe doses equivocadas de felicidade e segurança.

Casada com Viktor (Halvar Bjork), um pastor passivo e observador, ela enxerga o marido como um amigo, pois é incapaz de acreditar no amor que ele tem por ela, pois sua experiência de vida leva-a a crer que o olhar de Viktor não combina com as suas palavras de afeição.

Eva tem também uma irmã, Helena (Lena Nyman), que sofre de uma doença degenerativa que afastou a sempre prática e "escapista" Charlotte rumo à sua vida profissional. É forte a cena em que Charlotte congela ao saber que a filha doente está morando com Eva e que terá de vê-la (enfrentá-la), depois de anos. Assistindo ao filme, somos constantemente lembrados que a violência no cinema não precisa ser física. Ela pode também ser ainda mais cruel se tiver origem psicológica.

Bergman descasca este Sonata de Outono aos poucos, revelando o que existe de mais cru nos relacionamentos após um início aparentemente normal, onde mãe e filha reencontram-se alegres. É esta análise gradual que pega o espectador pela garganta e o leva a uma ação, em grande parte, teatral, semelhante a Gritos e Sussurros, impressão logo aliviada pela fotografia impressionista de Sven Nkvyst, o maior tradutor visual de Bergman e fotógrafo de Celebrity, último filme de Woody Allen.

Além de um estudo fascinante sobre gente, com um final lógico e cruel (o roteiro de Bergman foi indicado ao Oscar), Sonata de Outono também apresenta dois pontos fortes: as interpretações de Ullman e Bergman. A primeira apresenta um retrato fascinante de alguém que foi moída emocionalmente pela sua sensibilidade extrema, problema que afeta muita gente ao nosso redor, sem que nem percebamos. Ullman também explicita com delicadeza a forma como Eva represou anos de mágoa e ódio da mãe, numa composição que chega a incomodar o espectador. Se Nkvyst traduziu Bergman em imagens, Ullman o representou como ser humano, na tela.

No entanto, é a interpretação de Ingrid Bergman que desperta curiosidade.

Longe de Casablanca mil anos, esta é a sua última aparição no cinema (morreu em 1982) e seu primeiro filme com Bergman, seu compatriota. Em Sonata de Outono, ela deixa de ser uma estrela hollywoodiana e atua como atriz (foi indicada ao Oscar), passando de artista esplendorosa à mãe velha e cheia de arrependimentos, não pelas coisas que fez, mas pelas coisas que deixou de fazer. O filme não é fácil, mas também não é fácil fazer um filme desse.

BONECOS - Mudando um pouco o tom, A Noiva de Chucky é uma história de amor entre dois bonecos assassinos. Até onde sei, trata-se do primeiro filme que brinda o espectador com uma cena de sexo entre dois brinquedos, ressuscitando a discussão sobre o "trash", um dos rótulos mais escorregadios da cultura pop. O filme parece sugerir que o trash é lixo reciclado com plena consciência da sua própria condição de lixo.

Este é o oxigenado capítulo 4 da série classe C Brinquedo Assassino, sobre um boneco (Chucky) que, no primeiro filme, incorporou o espírito de um assassino morto, transformando-se numa versão brinquedo do espírito ruim.

Neste quarto episódio, talvez influenciado pela onda pós-Pânico de cinismo e referências explícitas à reciclagem no cinema, há uma saudável vontade de rir de si próprio, ou seja, a platéia ri com o filme, e não do filme.

Jennifer Tilly (indicada ao Oscar por Tiros na Broadway, de Woody Allen, aqui enterrando sua carreira) é Tiffany, uma loira oxigenada com voz gasguita e namorada do falecido assassino. Ela rouba de um depósito da polícia o que sobrou do boneco Chucky, rasgado no último capítulo. No,depósito, a câmera mostra máscaras de Jason - Sexta-feira 13 - e Michael Myers - Halloween - e as garras de Freddy Kueger, iniciando as citações ao gênero horror que ainda incluem Psicose e, de forma histérica, no final, Nasce Um Monstro e Alien.

Via ritual de magia negra, Tiffany ressuscita o boneco depois de costurá-lo como um mini Frankenstein. A Noiva de Frankenstein, do diretor James Whale (biografado por Ian Mckellen no inédito Gods and Monsters), passa na TV no momento em que Chucky mata Tiffany, cujo espírito toma o corpinho anatomicamente correto de uma boneca, que não se parece com Barbie.

Chucky e Tiffany, portanto, transformam-se num mini-casal de violentos assassinos, ele costurado, ela maquiada e vestida para matar. Precisam chegar a um cemitério onde um talismã poderá devolver seus espíritos à vida.

Logo, são comparados a Bonnie & Clyde e Mick & Mallory, embora a contagem de corpos seja creditada ao casal que eles tomaram como refém, duas portas que atendem pelos nomes Katherine Heigl e Nick Stabile.

Aliás, o elenco classe Z combina com o tom de gréia do filme, que usa 90% dos personagens coadjuvantes como carne fresca para a dupla, que mata, esfola e atropela, transa sem camisinha ("mas eu já sou todo de borracha, querida...", argumenta Chucky) e fuma maconha, perante os olhares incrédulos da platéia. O tom do filme lembra as experiências de Sam Raimi nos seus três Evil Dead, mas sem a sede de sangue e tripas. A Noiva de Chucky fechou sua primeira semana, num cinema pequeno do multiplex, em Boa Viagem, com um público de quatro mil pessoas. Trash rende.



Jornal do Commercio
Recife - 03.02.99