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LIVROS
A literatura que cabe no bolso

por CAROL ALMEIDA

No Brasil, sempre existiu uma larga avenida separando a produção literária das máquinas de impressão das editoras. No entanto, dos últimos três anos para cá, a sinalização desse trânsito de interesses mercadológicos vem dando um sinal verde para os habituais leitores e mesmo para aqueles que quase nunca tinham acesso a esse universo: a produção dos chamados livros de bolso ganhou um impulso a mais no volume de consumo literário. Prova disso aconteceu neste último mês de julho quando o livro Dançar Tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras como a melhor ficção de 1999. Tudo normal, não fosse este livro editado apenas em formato bolso.

Bem mais "em conta" do que os livros em formato padrão, esses pequenos notáveis livros de bolso vêm arrematando uma cada vez maior fatia do mercado de ficção literária. Existem hoje, pelo menos, três grandes editoras brasileiras que investem forte nesse setor: a Ediouro, Paz e Terra e a L&PM Pocket. Todas elas possuem coleções especiais que publicam, no geral, grandes clássicos da literatura nacional e internacional. Os preços variam sempre entre R$ 3,00 e R$ 11,00. Comparados ao custo de um livro em formato padrão, tais edições chegam a ser 200% mais baratas.

Nascidos dentro do contexto da indústria cultural, os livros de bolso, tradução para o termo original, pocket books, surgiu inicialmente no Brasil com o intuito de divulgar ciências e textos técnicos. Coleções como a Primeiros Passos, da editora Braziliense, apareceram para suprir a falta de sínteses sobre temas em voga no período, tais como Pós-modernismo e Reforma Agrária oui introdução a áreas específicas como Cinema e Informática. Na década de 80, veio a coleção Para Gostar de Ler, que, apesar de ser editada em formato convencional, era vendida a preços populares e contava com um leque de escritores do porte de Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade.

No mercado de livros de bolso há mais de meio século, a Ediouro foi a pioneira, no Brasil, na produção desses volumes. "Na época em que esses livros começaram a ser publicados, houve uma certa depreciação por parte dos leitores que preferiam edições de luxo", conta o editor assistente da Ediouro, Ricardo Benevides. Deve-se levar em conta também que, há 50 anos, muitos desses livros menores eram publicados em compilações, ou seja, não se comprava pela obra completa, mas sim por um resumo dela.

A situação agora é bem diferente. Inseridas dentro de um mercado competitivo, as editoras prezam cada vez mais por dois itens qualitativos que pesam bastante no conteúdo dos livros: publicação do texto integral e tradutores. Estes últimos, aliás, têm sido até agora um dos maiores empecilhos para que os livros de bolso possam realmente se equiparar às edições maiores. Quando as editoras não compram os textos já traduzidos, elas têm que recorrer ao trabalho de tradutores que, muitas vezes, precisam correr contra o tempo. O resultado pode sair assim abaixo do nível esperado.

Problemas à parte, a publicação desses livros tem se fixado, até agora, como uma das maneiras mais fáceis do público em geral adquirir clássicos da literatura a preços populares. Autores como Machado de Assis, Luiz Fernando Veríssimo (entre os nacionais), William Shakespeare e Sir Arthur Conan Doyle (entre os estrangeiros) estão entre os mais editados no formato bolso. "Com a chegada dessas edições, eu pude comprar alguns livros que já havia procurado antes e não tinha encontrado", afirma Rodrigo Alcântara, estudante que acumula uma mini coleção de livros de bolso em sua casa.

A também estudante Carolina Leão assegura que uma das maiores vantagens das edições de bolso é a exclusividade de algumas obras. "Nunca consegui encontrar livros de Katherine Mansfield nas edições convencionais, somente em bolso mesmo", garante Carolina. "Nossa proposta é oferecer, além dos grandes clássicos, uma seleção de livros que, muito dificilmente será encontrada no formato padrão", explica Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM Pocket. A coleção de livros de bolso desta editora já soma mais de 200 títulos, entre eles, alguns exclusivos como é o caso de Um Espinho de Marfim, de Marina Colassanti e O Primeiro Terço de Neal Cassidy.

A L&PM Pocket, como o próprio nome já indica (pocket = bolso), surgiu, há dois anos, com a proposta de produzir uma coleção com os mesmos padrões das edições de bolso internacionais. "É bastante comum encontrar esses livrinhos nas livrarias dos Estados Unidos e da Europa. Existe uma cultura de leitura nesses países, as pessoas compram livros a preço bem baratos", fala Ivan. O próprio escritor Sérgio Faraco, que ganhou o prêmio ficção da A.B.L., já foi editado pela L&PM e por outras editoras de bolso. Ele acredita que existem grandes vantagens nesse tipo de formato: "Livros convencionais são hoje artigos supérfluos. Enquanto isso, um livro de bolso pode custar o mesmo preço de uma cerveja".

Preços de títulos pesquisados em uma mesma livraria do Recife

Livro - Autor - Preço em formato de bolso - Preço em formato convencional
O Príncipe - Maquiavel - R$ 3,00 - R$ 21,50
Romeu e Julieta - William Shakespeare - R$ 5,50 - R$ 24,00
O Mandarim - Eça de Queiroz - R$ 4,50 - R$ 13,00
Drácula - Bram Stoker - R$ 8,20 - R$ 24,00
O Manifesto Comunista - Karl Marx - R$ 3,00 - R$ 22,00
Orgias - Luiz Fernando Veríssimo - R$ 6,00 - R$ 17,00

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Jornal do Commercio
Recife - 03.08.99
Terça-feira