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LIVROS II
L&PM aposta na geração beat

Disciplinadas por uma didática literária, as editoras de bolso costumam dividir suas coleções por temas específicos. No caso da L&PM Pocket, um dos mais recentes assuntos a ganhar facção própria é a Beat Generation. E é justamente sob essa catalogação que chega às livrarias o mais novo lançamento da editora: O Primeiro Terço, de Neal Cassady. O livro, que é mais uma das raridades que, hoje, só podem ser encontradas em formato bolso, trata-se de uma autobiografia do pai da chamada geração beat, o mesmo que influenciou o escritor Jack Kerouac a escrever a "bíblia" da década de 50, On The Road.

Escrito com a intenção de narrar o primeiro terço da vida do autor (Cassady morreu de overdose antes de começar as outras duas partes), o livro foi todo escrito entre surtos literários que flutuavam na proporção apenas do teor de álcool e drogas circulando em suas veias. Adepto de uma marginalidade fundada nos "princípios" da contracultura que iria aparecer nas décadas de 60 e 70, Cassady retrata sua infância em frases que exigem uma respiração trabalhada do leitor. A pobreza de sua família, a precoce descoberta da criminalidade, os primeiros indícios de sexualidade desenvolvida, tudo isso é abordado numa velocidade tão rápida quanto a aceleração dos carros furtados que Cassady, mais tarde, viria a dirigir.

A infância desse "herói do oeste" é escrita de uma forma bastante livre e espontânea, sem maiores pretensões de se tornar um clássico da literatura. Os fatos mais triviais são justamente os grandes momentos do livro. Como no episódio em que o menino perde seu livro predileto, emprestado da biblioteca, e o acha depois entre as vísceras de um gato morto pelos seus amigos de colégio. "E assim, meu troféu conspurcado foi recuperado, e foram ressuscitados os prazeres tão ruinosamente assassinados desde que ele tinha se perdido". Neal Cassady prezava, antes de mais nada, pela sua Liberdade de poder saber, pelo Direito de poder ler e escrever.

O livro traz ainda um prólogo com um breve e rudimentar histórico da família Cassady e, particularmente, do pai de Neal Cassady. Porém, um dos maiores atrativos de O Primeiro Terço está mesmo em suas últimas páginas, em que se encontram algumas correspondências entre o autor e o amigo Jack Kerouac. É possivelmente nessas cartas e fragmentos que se acha o maior trunfo dessa edição: o fluxo de consciência bêbada (no bom e no mal sentido) de Neal. Fatores que fizeram dele o maior símbolo da geração beat, uma geração possuída pelo espírito pé na estrada, cabeça ao vento, uma garrafa de cerveja ao lado e, no porta-luvas, manuscritos de aventuras experimentadas até o último ponto da estrada.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.08.99
Terça-feira