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ESCULTURA
Brennand é censurado e renuncia a projeto

O projeto Eu vi o Mundo... Ele Começava no Recife, que prevê a criação de um parque de esculturas no molhe do cais do porto, em comemoração aos 500 anos do descobrimento do Brasil, não terá mais a participação do artista plástico Francisco Brennand. Magoado com a censura imposta à peça que criou para o arrecife, o artista enviou carta aberta ao prefeito do Recife, Roberto Magalhães, e ao comitê organizador do projeto comunicando sua renúncia, "em caráter irrevogável".

"Não sei quem censurou meu trabalho. Sugeriram um projeto alternativo, mas não tenho idade para isso. Não freqüento salão de esculturas para ser julgado por A ou B", declara. A escultura vetada é uma torre cilíndrica de concreto revestida com cerâmica, rodeada de bronze e com a cúpula iluminada. "A torre se assemelha a um foguete interplanetário e em nada lembra um falo. É um monumento que passa modernidade e fulgor", define. Brennand ressalta que, embora sua arte seja orgânica, com elementos de pesada carga sexual, a peça em questão não tinha essa conotação.

"Disseram que a peça não era adequada a uma praça pública. O que essa gente está pensando? Estão agindo como se eu fosse louco ou irresponsável. Como um energúmeno qualquer vai me censurar?". Segundo Brennand, o projeto alternativo que tem todo seu respeito. "Mas não é meu e não vou colocar meu nome no trabalho dos outros". O artista acrescenta que nenhum material de cerâmica sairá da sua oficina para esse projeto.

Ganhador do Prêmio Gabriela Mistral, a maior premiação concedida às artes nas Américas, Francisco Brennand disse que foi convidado para fazer todas as esculturas do molhe contra sua vontade. "Na época, falei que, como o projeto era muito vasto, outros artistas poderiam ter sido chamados para participar. Não tinha sentido ser um artista só". Ele explica que renunciou ao projeto todo, que compreende 20 esculturas monumentais. "Que garantias eu teria para as outras peças?".

O artista foi informado da censura pelo arquiteto Reginaldo Esteves, um dos membros do comitê, que passou seis meses trabalhando com ele na criação da torre, monumento central que seria instalado no molhe. Brennand disse que vai perder tudo o que gastou na obra, pois não pedirá ressarcimento. "Foi um desfecho desagradável. Entreguei o assunto à comissão para escolherem novos escultores".

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Jornal do Commercio
Recife - 03.08.99
Terça-feira