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Pobreza e 3º setor

O assunto do dia é acabar com a miséria em nosso país de muitos milhões de miseráveis. Já abordamos o tema e, logo depois, o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, falou longamente à imprensa sobre como pretende fazer seu projeto de lei nesse sentido. Infelizmente, seriam criados novos impostos e aumentadas as alíquotas de outros. O que nos faz recordar a CPMF, criada para, supostamente, resolver os problemas da área de saúde. Confessadamente, o governo desvia arrecadação oriunda da CPMF para outras áreas; e os graves problemas de saúde continuam sem solução no país.

Temos insistido na parte que cabe à sociedade na solução desses e de outros problemas. Um tipo de organização da sociedade é o das chamadas ONGs, abordado recentemente em reportagem deste jornal. A designação de `organização não governamental' pode passar a idéia de que as atividades dessas organizações teriam que ser atribuição dos poderes públicos e só excepcionalmente assumidas pela sociedade. Daí alguns preferirem designá-las como organizações ou entidades independentes ou do 3º setor (instituições privadas com finalidade pública). Com o recuo amplo do Estado, não somente em relação a atividades e atribuições que não são suas (como indústria e outras), mas também na área social e outras que lhe competem essencialmente, a ação e o papel das ONGs só têm crescido, nos últimos anos, juntamente com seu prestígio.

Nesse campo do combate à pobreza, à miséria, ONGs e outras entidades do 3º setor têm mostrado que é possível alcançar resultados excelentes sem desperdiçar dinheiro, como ocorre fatalmente com órgãos estatais, dirigidos por políticos que confundem administração com partido e eleições. Há poucos dias, falávamos sobre o trabalho exercido pela Pastoral da Criança, da Igreja Católica, na assistência a milhões de crianças e mães em todo o Brasil, com gasto módico per capita. Em outros setores, o trabalho das ONGs tem sido ativo e com bons, e mesmo excelentes, resultados. Evidente que há as exceções de ONGs, digamos, `de resultados', no sentido pejorativo que se dá a essa expressão. O que não atinge seu sentido. Apenas, é preciso ver bem com quem se está tratando, na hora de o governo, o empresário, qualquer cidadão, botar a mão no bolso para dar sua ajuda.

Defesa do meio ambiente, das minorias em geral, valorização da mulher, educação etc. são outros tantos campos de atuação das ONGs. Aqui no Nordeste, até a questão da seca e do abastecimento d'água está na alça de mira delas. Trabalhando geralmente em espaços geograficamente limitados e com poucos recursos financeiros, contam sobretudo com o entusiasmo da juventude e com trabalho voluntário. Em São Paulo, jovens cansados da violência e da ausência de solução para esse problema, por parte do Estado, criaram, em 1997, uma ONG chamada Instituto Sou da Paz, que faz um bom trabalho de informação, divulgação e conscientização, através de palestras e debates nas escolas, incluindo a questão do desarmamento.

Jovens suburbanos das grandes cidades estão canalizando a insatisfação de rappers, galeras e similares para um trabalho construtivo por instrução, trabalho e lazer. Eles estão descobrindo que é possível fazer alguma coisa para melhorar a qualidade de vida em seus bairros e que já não é mais hora de se ficar de braços cruzados, esperando ações dos poderes públicos, que não chegam. Esses e outros grupos de pessoas já descobriram também que não basta boa vontade para atingir seus objetivos; que organização e profissionalismo são de suma importância.

Pesquisa ainda não divulgada oficialmente mostra que 56% das empresas no Brasil investem em programas de cunho social, comunitário, e na promoção do voluntariado entre seus funcionários. As que não têm seus próprios programas investem em organizações como ONGs e outras criadas pela sociedade. O que pode significar uma fonte de financiamento para tais entidades.


Jornal do Commercio
Recife - 03.08.99
Terça-feira