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COMPORTAMENTO De olho na TV por FABIANA MORAES E BRUNO ALBERTIM Na casa da secretária Marilene Santos, 46 anos, o único momento do dia em que toda sua família consegue se reunir para conversar é na hora do jantar. Além dos cinco integrantes do clã, composto por dois filhos adultos, marido e avó, outra figura importante faz parte do ritual diário: uma pequena televisão portátil, que permanece ligada enquanto a família janta. "Usamos as informações da televisão para conversar nesse momento, quando trocamos idéias e ficamos sabendo o que cada um pensa sobre determinado assunto. Ela acaba sendo motivo de união da família", diz Marilene, que foi criada numa casa onde era absolutamente proibido assistir televisão durante as refeições. O comportamento da família reflete uma prática pouco comum entre os membros de uma mesma casa: a reunião crítica em volta de um aparelho de tv, geralmente colocado como ditador de informações para um público desprovido de opinião. Na casa da secretária, a TV funciona como um elemento de interação do grupo, ao contrário da realidade de várias famílias, onde a TV chega a servir como uma desculpa para que não haja nenhuma conversa. "A televisão pode ser um bom pretexto para que todos numa casa se reúnam e não precisem trocar uma palavra, mas, ao mesmo tempo, pode unir uma família em torno de uma discussão", diz a professora universitária Salette Tauk, que realiza estudos sobre percepção de mídia e suas conseqüências. A dualidade gerada pelo aparelho é, antes de tudo, um reflexo da condição familiar deste final de milênio. Satanizada ou glorificada, a TV é muitas vezes vista como a responsável pela danação de toda uma família, por sua educação e mesmo separação ou dispersão. "Na verdade, a responsável pela diáspora familiar é a própria modernidade, da qual a televisão faz apenas parte", diz o sociólogo Dacier Barros, professor do mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Barros vê, atualmente, a construção de um novo perfil familiar, que, mais tarde, será refletido pela televisão em forma de série ou novela. "A TV apenas vem mostrando as tendências sociais. Os pais e mães, por exemplo, não são mais vistos como patriarcas ditadores, e a TV está ligada a essa nova visão do poder", diz. O aparelho é, com certeza, um ponto importante nas relações familiares, como mostra a família Santos. Além da pequena TV da cozinha, eles ainda possuem mais três televisões espalhadas pelos quartos dos filhos, do casal e da avó. Segundo Marilene, esta foi a única forma para que as discussões entre eles chegassem ao fim. "Quando existia apenas um aparelho na sala, cada um queria ver uma coisa diferente, a reunião acabava em briga", conta a secretária, comentando que a televisão é levada até o quintal de sua casa quando são promovidos churrascos para toda família. "Ela não sai do nosso lado, quando acordamos ligamos a tv para ficar a par das notícias", diz. No lar da família Longman, a tela tem uma relevância bastante diferente da TV da casa dos Santos, apesar de a casa possuir o mesmo número de aparelhos (quatro). "Ver televisão nunca foi nossa atividade principal", diz a contadora Célia Longman, 47 anos, que atualmente, além dos jornais, acompanha apenas a novela global das 19h. Os cinco filhos de Célia, com idades entre 22 e 26 anos, foram acostumados a nunca realizarem uma refeição perante a tv, lei que perdura até os dias de hoje. "Me importo muito com os horários de refeições, pois são os momentos em que conseguimos juntar toda a família", diz o economista Romero Longman, 50 anos, que vê a TV como o elemento educador de massa mais importante da atualidade. "Mas o que importa mesmo é a atuação dos pais. Uma TV, sozinha, não consegue desestruturar uma família se ela for saudável", comenta. CINCO TV'S, UM CORAÇÃO - O psicoterapeuta familiar Alexandre Nunes compartilha da opinião do economista, e acrescenta: a TV não pode ser vista como um elemento isolado na mudança de comportamento de um clã. "É necessário, sempre, o senso crítico para que um simples programa não sirva como referência para uma família", diz o terapeuta. Nunes, porém, acredita que a televisão pode claramente servir como uma espécie de aglutinador dentro de uma casa, um verdadeiro ponto de encontro familiar. "Os programas interativos, por exemplo, podem gerar várias discussões nesse universo, já que as pessoas são levadas a opinar", exemplifica. O professor Dacier Barros crê que, quando consegue articular os interesses comuns de uma família, a televisão possui um grande poder aglutinador. "Em casos de grande comoção nacional, como um jogo da Seleção Brasileira ou mesmo numa tragédia, a casa pode possuir cinco televisões, mas as pessoas da casa vão se reunir em torno de apenas uma", diz. (F.M.) |
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