LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO II
E a televisão vai para o banco dos réus

A televisão pode sentar no banco dos reús. Em breve um caso deve ganhar repercussão em alguns jornais do país e chamar a atenção de famílias mais preocupadas sobre a influência televisa no comportamento das crianças e adolescentes. Que as crianças gostam de reproduzir o comportamento do super-herói da moda, já se sabe. Que gostam de copiar as roupas e atitudes da apresentadora do momento ou de reproduzir passos e gestos erotizados das dançarinas da temporada, também. O que ainda não se pode afirmar é se a televisão pode ser responsabilizada por casos mais extremos, como o que aconteceu no Recife, no final do mês passado.

A pernambucana D.S., 3 anos, presenciou uma inusitada cena na televisão. Enquanto seu pai, o comerciante e pregador evangélico Fernando dos Santos, 33, estava no terraço, a menina assistiu a um quadro do Programa do Ratinho em que uma exótica tailandesa fumava e escrevia com uma caneta esferográfica. Nada extraordinário, não estivesse a mulher usando o instrumento na vagina. Como espécie de reflexo imediato, a menina tentou imitar o que viu na telinha. Três dias depois, o evangélico flagrou a garota no banheiro com uma caneta também introduzida na vagina.

O resultado temporário é que o pai entrou com uma petição no Ministério Público de Pernambuco solicitando que a produção do programa seja processada por danos morais e materiais à garota. "Um exame de corpo delito deve provar se houve ou não rompimento do hímem com o incidente", diz o pai. A promotora de Justiça da Infância e Juventude do Ministério Público, Theresa Cláudia de Moura Souto, encaminhou a petição junto a uma cópia da fita com o programa para o MP de São Paulo.

PROCESSO - Se considerada procedente a petição, o programa e o próprio apresentador Carlos Massa podem ser processados. Este caso, responsabilizando ou não a TV pelo comportamento da criança, suscita uma pergunta. É a televisão, imóvel no canto da sala, a responsável pela deseducação e introdução de comportamentos perversos em crianças e adolescentes? E o que as famílias podem fazer para se defender de informações que possam vir a ser apresentadas pelos sinais eletrônicos?

Nos Estados Unidos, depois de muito estardalhaço da indústria cinematrográfica, o Presidente Bill Clinton solicitou um estudo sobre a influência do cinema e sua relação em crimes cometidos por alguns jovens. Isso pode deixar claro, de uma vez por todas, que um produto de mídia tem o poder de introjetar valores e atitudes no seu público. Acima do Equador, isso pode render uma classificação etária mais rígida de acesso aos filmes e conseqüentemente baixar os índices de faturamento dos estúdios americanos, por reduzir número de adolescentes das filas dos blockbusters que são lançados. No Brasil, não há tipo algum de controle da programação na televisão que, ao invés do cinema, está completamente acessível. O único controle de qualidade até o momento é o V-Chip, um dispositivo que permite a algumas famílias com melhor condição financeira barrarem a recepção dos sinais de programas considerados inadequados em casa.

"Os pais estão cada vez mais ausentes. Quem educa as crianças é o colégio e a televisão. E esta não pode manipular as informações que são passadas às crianças da maneira como faz", aponta a psicoterapêuta Albânia de Carli. "O Brasil é o único país do mundo onde se vê, aos domingos, crianças seminuas em programas de aditório fazendo coreografias de conotações eróticas", complementa.

RATO GIGOLÔ - Como o único tipo de controle externo da qualidade da televisão é a atenção dos pais, nem os programas infantis têm escapado dos olhares mais atentos. "Outro dia, minha filha estava vendo um desenho aparentemente inofensivo. Eu fui acompanhar e não acreditei no que eu vi no enredo: um ratinho como um gigolô obrigava uma ratinha a vender maçãs e lhe dar o dinheiro. Depois, houve uma briga entre dois ratinhos pela mesma rata que acabava matando um deles. Que valores minha filha pode aprender desse tipo de desenho?", pergunta Telma Maria Monteiro Rocha, 25, mãe de Ariel, 3.

Novelas, na presença de Ariel, é algo completamente proibido. Não por censura mas por precaução da mãe diante do que ela considera exagero em algumas cenas. "Num minuto em que eu saí da sala, minha filha estava na frente de uma cena de estupro em plena novela das seis. Outro dia ela tentou beijar um amiguinho de quatro anos e me chamou de namorada porque estava vendo isso, todo dia, na Malhação", conta Telma. "Falta sim um controle de qualidade na programação. Mesmo que se escolha os horários e programas, muita coisa ruim acaba entrando em casa porque o aparelho fica ligado num horário que a gente imagina ser leve. Muitas mães, por comodidade, deixam a criança o dia inteiro na frente da TV e depois acabam não sabendo que tipo de filho criou. É como uma babá eletrônica", compara.

"Segundo os especialistas, a televisão não pode ser considerada a única responsável por um determinado comportamento. Mas pode ser um desencadeador. "Se a criança está numa fase de manipulação genital muito grande, o que ocorre na infância, e vê uma coisa relativa na TV, pode manifestar uma curiosidade precoce que não teria ainda", diz a psicoterapêuta Albânia de Carli. "É preciso que as famílias estejam atentas ao que as crianças assistem para que as distorções que a televisão passa não sejam tomadas como padrão. Não é exatamente proibir que se assista, mas fornecer informações corretas e desfazer as distorções". (B.A)

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 01.08.99
Domingo