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EDUCAÇÃO
Conversas, castigos ou palmadas?

Espernear, bater o pé, fazer birra. Quando muito, choram, gritam e chegam a chutar os próprios pais. Algumas crianças são assim, indiscutivelmente maravilhosas, mas osso duro de roer quando o assunto é educação. Outras não, são obedientes, fazem as tarefas escolares e raramente levantam a voz para alguém. Anjinhos ou capetas, o que será que realmente pesa na hora de impor limites? a recomendada conversa ou os famosos castigos e palmadas?

A comerciante Suelda Câmara, 29, já perdeu as contas do número de vezes em que seu filho Rodrigo de cinco anos, aprontou e fez escândalos ."Quando eu e meu marido levavamos ele ao shopping, era um tormento. Ele chorava e esperneava, pedindo para comprar tudo o que via e sempre voltávamos para casa mortos de vergonha", relembra. Para Suelda, a pior fase foi quando ele tinha três anos e não conseguia entender as reclamações, já que ambos, pai e mãe, sempre preferiram conversar do que punir com castigos.

De acordo com a psicóloga Guiomar Marques de Melo, especialista em Psicologia da Personalidade, Suelda está indo pelo caminho certo. Mesmo que aparentemente mais difícil, segundo a psicóloga, o diálogo é sempre a melhor opção na hora de educar os filhos. "Conhecê-los bem é o primeiro passo para colocá-los, digamos, nos eixos". A partir daí, um longo processo de paciência e conversas intermináveis devem perdurar até que a criança se habitue com as regras do lar. "A força do diálogo é um exercício da democracia. No caso das crianças, nem sempre torna-se fácil argumentar e contra-argumentar, mas o resultado é o melhor possível", garante.

"Na casa da funcionária pública Verônica Maria Matoso, 35, as conversas com seus filhos Jéssica, 6, e Lucas, 3, estão sempre em dia. "Tento explicar tudo a eles. Converso e não guardo segredos sobre qualquer assunto, mas também faço questão que eles aprendam as normas da casa". Verônica diz que muitas vezes é necessário cortar algumas coisas que os filhos gostam para que eles entendam que, se fizerem algo de errado, não terão direito a mimos como passeios nos finais de semana. "Eles costumam reagir bem e acabam obedecendo sempre, caso contrário, cumpro com o que eu disse".

Quando necessário, Verônica já chegou a dar as famosas palmadinhas, mas revela que se elas ficarem constantes, as crianças tornam-se mais rebeldes e gritam mais, perdendo todo o respeito adquirido através do diálogo. "Pago para não bater, prefiro chamá-los a atenção e colocar de castigo, refletindo sobre o que fizeram. Com o tempo eles acabam entendendo".

AUSÊNCIA - Por trabalharem os dois horários, de segunda à sábado, os pais de Rodrigo deixam-no em um hotelzinho, onde fica até à noite quando vão buscá-lo. A exemplo de muitas famílias, onde pai e mãe se ausentam para trabalhar, deixando os filhos com babás ou nos citados hotéis, Rodrigo é uma criança carente e hiperativa. Nessas situações é comum que os pais tentem suprir a ausência durante o dia, perdoando todos os erros cometidos pela criança. Não raramente, trazem presentes, com a intenção de deixá-los mais felizes. O que eles não sabem é que dessa forma, estão contribuindo para que a criança se torne dona da situação.

"Os pais não podem estar passando a mão o tempo todo na cabeça dos filhos. Eles se acostumam e vão crescer sem limites, achando que podem tudo e que nunca serão punidos. Pais condescendentes demais acabam negligenciando a educação", explica Guiomar. Mesmo mantendo o diálogo aberto, Suelda admite que, apesar de fazer o máximo que pode, não está conseguindo acompanhar todo o desenvolvimento do filho."Tudo o que ele aprende é na escola ou no hotelzinho. Em relação aos estudos, a atenção é mínima", admite.

Apesar de tanto diálogo e compreensão, Rodrigo não obedece os pais. "Acho que é uma forma dele chamar nossa atenção, mas posso garantir que ele evoluiu bastante e já consegue refletir nas coisas que fez de errado". Os avós recomendam a uma fórmula que dizem infalível: as famosas palmadinhas. A mãe, no entanto, garante que a prática não resolve, e revela sofrer mais que a própria criança, com dor na consciência. "Meu maior receio é que meu filho tenha medo de mim. Eu e meu marido sempre conversamos sobre a educação de Rodrigo e o mais importante para nós é sermos seu amigo, mesmo que demore um tempo maior para ele entender o que é certo e o que é errado".

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Jornal do Commercio
Recife - 01.08.99
Domingo