LG_jc.gif (3670 bytes)

EDUCAÇÃO II
Punição pode ser pura violência

Das proibições de não assistir o programa favorito na televisão ou sair para brincar na rua, aos puxões de orelha, chineladas e surras de cinturão, as crianças ainda se deparam com os temidos castigos, ainda executados por muitas famílias. Quando exageradas, as punições chegam a machucar seriamente e os danos físicos e psicológicos deixam seqüelas, muitas vezes irreparáveis.

"Quando um pai ou uma mãe bate violentamente numa criança é a prova da sua própria incompetência, porque não é capaz de conversar e entender o filho", afirma a psicóloga Guiomar Marques de Melo, acrescentando que apesar de ser o castigo mais utilizado, as surras, que acabam induzindo a mais violência, levando muitas vezes ao espancamento, não resolvem o problema da desobediência.

Apesar de nunca ter chegado aos extremos, a doméstica Maria Pereira de Carvalho, 29, não consegue convecer de outra forma suas filhas Cristiane, 8, e Tatiane, 7, a fazerem o que ela quer. "Peço várias vezes para elas me obedecerem, mas elas não atendem, fingindo que não escutam. A paciência falta logo e o sangue ferve. Só escutam de verdade quando levanto o chinelo e dou umas boas palmadas".

Maria sabe que bater não resolve o problema, mas acredita que essa é a forma mais eficaz de impor limites a uma criança. "Se eu for deixar as coisas acontecerem sem repreendê-las, elas vão acabar querendo mandar em mim", diz. Ela confessa que às vezes fica com pena e acha que exagerou na dose, mas não volta atrás. Seu maior medo é deixar as garotas na rua se envolvendo com a vizinhança de Engenho Maranguape, onde o contato com as drogas é algo constante.

"Nas situações de risco, os pais se vêem ameaçados e tendem a agir com mais severidade, nas questões dos castigos e cuidados excessivos", explica Guiomar. Geralmente nestes casos, os pais tentam livrar os filhos da violência, mas acabam sujeitando-os a outro tipo de violência, a domiciliar. As conseqüências disso, são as mais variadas possíveis. "A criança, vítima de espancamento no lar, começa a ver o mundo muito hostil, tendendo a se tornar um adulto violento, igual ao que seus pais foram".

Dados da Delagacia de Polícia da Criança e do Adolescente (DPCA), revelam que apenas durante os meses de janeiro à abril deste ano, segundo o movimento na DPCA, cerca de 22% dos casos de violência contra as crianças foram praticados dentro da própria casa. Ao todo são 322 crianças vítimas de abusos, sendo 69,9%, enquadrado em violência física, 12,4% em violência sexual, 11,8% em violência psicológica (ameaças e castigos) e 5,9% em negligência. O pior de tudo é saber quem são os agressores. Em primeiro lugar vem o pai da criança (44,7%) e em segundo, a mãe (24,5%).

"Os índices são considerados altos, mas não refletem o que acontece na realidade. Até chegar à denúncia, a criança passa anos sofrendo com os maltratos. As penas para quem comete a violência domiciliar contra a criança ou adolescente variam de três meses a um ano, em caso de violência física, e podem chegar até 10 anos, em casos de violência sexual. A Secretaria de Segurança Pública dispõe à população o Disk Denúncia (147), mas as denúncias também podem ser feitas diretamente na DPCA.

Serviço:

Delegacia de Polícia da Criança e do Adolescente - 222 6015/231 1622

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 01.08.99
Domingo