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MÚSICA
Carlos Fernando nas asas do frevo

por JANAÍNA LIMA

Dar asas à imaginação e modernizar um dos ritmos mais ricos e esquecidos do país. Com esse propósito, o compositor e produtor musical Carlos Fernando lançou, há 18 anos, o projeto Asas da América, reunindo artistas consagrados da MPB, num mesmo disco, cantando frevo. "O primeiro disco, lançado pela CBS, gerou elogios, mas também muitas críticas. Várias pessoas não aceitaram as inovações nos arranjos e na melodia", lembra Carlos Fernando.

Asas da América prosseguiu e hoje é um dos poucos projetos, juntamente com o Recifrevoé, que vêm alimentando o mercado fonográfico com discos de frevo. Ao comemorar a maioridade e o sucesso do projeto, a Polydisc incluiu na série História do Carnaval, o CD 20 Super Sucessos do Asas da América. A coletânea reúne músicas retiradas dos oito discos lançados pela coleção e marca o retorno da série após quatro anos de jejum. "Não participei da escolha das músicas, mas gostei muito do resultado", diz o produtor.

Quase todas as músicas são antigas conhecidas do público e levam a assinatura de Carlos Fernando, em parcerias com Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Ivinho. A exceção fica por conta de Bay Bay Baby, de autoria de Nelson Ferreira, e Valores do Passado, do compositor Edgard Moraes. Os destaques ficam para Siri na Lata (hino do bloco carnavalesco), A Mulher do Dia, Aquela Rosa, O Homem da Meia Noite, Sou Eu o Teu Amor (em versão antológica, unindo as vozes de Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil) e Tempo Folião.

Para interpretá-las, nomes de peso como: Caetano Veloso, Alceu Valença, Zé Ramalho, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Fagner, Flaviola, Elba Ramalho, Chico Buarque, Marco Polo, As Frenéticas, Terezinha de Jesus e Amelinha. "Alguns desses frevos têm uma ligaçao forte com a minha vida. Sou Eu Teu Amor, por exemplo, é uma homenagem a um bloco lá de Caruaru, onde nasci. A agremiação era dirigida por Cacho de Coco, personagem famoso da cidade. Já Aquela Rosa recebeu uma homenagem dos integrantes do Bloco das Ilusões durante o desfile da agremiação no Carnaval do ano passado", conta Carlos Fernando.

O terceiro volume do Recifrevoé, lançado no início deste ano é a mais recente produção de Carlos Fernando. O CD reúne as músicas vencedoras do concurso realizado pela Fundação de Cultura Cidade Recife, no ano de 1998, e uma seleção de dez frevos de conhecidos compositores pernambucanos.

CARREIRA - Carlos Fernando entrou na profissão de músico meio por acaso. Apesar de ter iniciado a carreira pelo teatro, ele costuma dizer que já nasceu interessado em música. "Comecei fazendo teatro em Caruaru, por volta dos 18 anos, com Luiz Mendonça. Depois, vim para Recife e participei do MCP (Movimento de Cultura Popular), ainda com Luiz. Com o golpe, o MCP acabou e ficou aquele marasmo cultural em todo o país", conta o artista.

A idéia da profissionalização só veio quando iniciou a parceria com Geraldo Azevedo, no início da década de 60. "Era uma época efervescente. Vários artistas como Marcelo e Toinho, do Quinteto Violado, Teca Calazans, Naná Vasconcelos, Jomard Muniz de Britto, entre outros, faziam parte da cena cultural. Comecei como assistente de produção do primeiro disco de Alceu e Geraldo, gravado em 74", conta.

Antes disso, porém, veio a primeira música: Aquela Rosa. A canção conquistou o primeiro lugar no Festival de Música Popular do Nordeste, promovido pela Revista Manchete e TV Jornal do Commercio. "Jomard (Muniz de Britto) já havia me falado de uma cara lá de Petrolina que vinha fazendo umas músicas e tal... Então numa festa ele me apresentou a Geraldo. Na época, ele queria fazer arquitetura. Pouco tempo depois escrevi uma peça, chamada A Chegada de Lampião no Inferno, baseada no cordel de José Pacheco; mostrei a Geraldo e ele falou que tinha achado parecido com letra de música e perguntou porque eu não escrevia uma letra. Acabei escrevendo e depois mostrei a ele, que musicou", explica Carlos Fernando.

A música foi gravada por Teca Calazans, num compacto pela gravadora Rozemblit, selo Mocambo. Naná Vasconcelos, Gemerino e Marcelo (Quinteto Violado) participaram da gravação. Até hoje, Aquela Rosa é considerada um dos melhores trabalhos da dupla. A canção fala de um Carnaval imaginnário no Recife, no qual as pessoas, que brincavam nos corsos, jogavam rosas umas para as outras. "Na verdade, o que a gente jogava era pitomba, que tem safra sempre na época do Carnaval. O que eu fiz foi substituir os caroços pelas rosas", diz.

Ao mesmo tempo em que inaugurou a parceria entre Carlos Fernando e Geraldo Azevedo, Aquela Rosa, funcionou como uma espécie de alavanca na carreira de ambos. "Eliana Pittman participou do festival e acabou convidando Geraldo para participar da banda dela. Então, ele foi embora para o Rio com Eliana", afirma o compositor. Depois, foi a vez do próprio Carlos Fernando fazer as malas e ir morar na Cidade Maravilhosa. Afinal, até bem pouco tempo, a região Nordeste não estava para peixe nenhum. Melhorou um pouco depois da vinda do Mangue Beat, mas o eixo Rio-São Paulo ainda continua fimcionando como o caminho das pedras para os artistas.

"Conheci Alceu em 69. Trocamos músicas e ficamos amigos. Em 74 fomos morar no Rio. Lá, Geraldo conheceu Alceu e ficamos trabalhando juntos. Trabalhei como assistente de produção no primeiro disco que eles fizeram em dupla", detalha Carlos Fernando. O próximo passo foi a criação da série Asas da América, em 1981. "Eu sonhava em fazer o frevo voar, sair da Pracinha do Diário e voar pelo mundo todo", ressalta o compositor.

SÉRIE - Carlos Fernando concretizou seu sonho. Em 18 anos de vida, o projeto já rendeu oito discos. O repertório dos trabalhos é bem variado e inclui desde frevos inéditos a grandes sucessos do Carnaval. "No primeiro trabalho fizemos os hinos do Siri na Lata, do Eu Acho é Pouco, do Clube da Farra. Outro momento inesquecível é Caetano Veloso cantando o hino do Batutas de São José", relembra o produtor.

As parcerias em todos os trabalhos são inúmeras. Além de Geraldo e Alceu, Lenine, Don Tronxo e Rubinho Valença já assinaram composições com Carlos Fernando. "Só não consegui ainda fazer uma música com J. Michiles. Gostaria muito de trabalhar com ele", assinala o artista.

OUTRAS PALAVRAS - Mas Carlos Fernando não compõe apenas frevo. No currículo deste pernambucano de Caruaru, encontram-se trilhas sonoras de programas de TV, novelas, peças de teatro e até um filme. "Nunca consegui gravar direito os nomes, mas uma das que não me esqueço é o Arraial dos Tucanos, que fazia parte da trilha sonora de O Sítio do Pica-Pau Amarelo", aponta Carlos Fernando, que também assinou músicas para as novelas Saramandaia e Sinhazinha Flor e para Pátria Amada, filme da diretora Tizuka Yamazaki.

Carlos Fernando acumula no currículo ainda um disco de frevos lançado pela Sudene, um do Galo da Madrugada, outro da Federação Carnavalesca de Pernambuco e a Antologia do Frevo, produzido pela Prefeitura da Cidade do Recife; além de três Recifrevoé.

A lista das produções assinadas por Carlos Fernando promete aumentar ainda mais. "Talvez faça a produção do primeiro disco do bloco Siri Na Lata. Não seria um disco só de frevo, teria maracatu e caboclinho, também", adianta o compositor.

Pelo menos mais dois trabalhos já estão nos planos do compositor: o próximo CD do Asas da América e o próximo Recifrevoé. "Ainda existem vários frevos que aguardam para serem gravados e muitos cantores para participar do projeto que pode até ser interrompido, mas nunca encerrado", declara Carlos Fernando.



Jornal do Commercio
Recife - 04.02.99