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ENTREVISTA/ Belchior
O discurso `pop confidente' de Belchior

por JOSÉ TELES

A carreira do cearense Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (Sobral, 1946), nome acertadamente abreviado para Belchior, começou em meados dos anos 60, em Fortaleza. Em 1970 ele venceu, no Rio, o então importante Festival Universitário da MPB, com Na Hora do Almoço. A vitória lhe abriu as portas para gravar um compacto, em 1971, na Copacabana. No ano seguinte, Roberto Carlos gravou Mucuripe (parceria dele com Fagner). Em 1974, Belchior chegou ao primeiro LP, pela Chantecler.

Não se sabe portanto, onde a BMG foi contabilizar os anos de estrada de Belchior para que o CD, Auto-Retrato, lançado esta semana, seja definido como uma retrospecto dos seus vinte anos de carreira. Se a gravadora errou no varejo, acertou no atacado. Belchior, meio esquecido pela mídia nos anos 90, foi um dos mais instigantes compositores surgidos logo depois do tropicalismo. As 25 canções deste disco trazem de volta à vitrine a música de um autor que sempre teve algo a dizer e que por algum tempo foi uma espécie de porta-voz de uma geração, traduzindo-lhe os medos, as angústias e as perplexidades.

Por telefone, de São Paulo, Belchior, concedeu entrevista ao Jornal do Commercio, em que falou do disco novo, da carreira, de sua pouco conhecida faceta de artista plástico e até do poeta Dante Alighieri - e do seu ousado projeto em traduzir o clássico literário Divina Comédia, aproveitando o italiano aprendido com os padres, no colégio em que estudou em Fortaleza.

JORNAL DO COM- MERCIO - Você tem freqüentado pouco a mídia, o que dá impressão que o artista está parado. O que tem feito nestes anos?

BELCHIOR - Continuo compondo muito e fazendo uma média de 15 shows por mês. Tenho feito apresentações pelos Estados Unidos, pela América Latina, gravei um disco para o mercado latino, El Dorado. Para o bem e para o mal, há esta apreciação subjetiva do artista. Uns acham que ele deve mudar, fazer-se contemporâneo, outros que deve manter a coerência artística.

JC - Você falou que tem muita música inédita, então por que um disco com regravações?

BELCHIOR - Tenho composições suficientes, tantas quantas forem necessárias para fazer um álbum novo. Agora este CD, é parte de um projeto bem sucedido que já teve Zé Ramalho, Fagner, Geraldo Azevedo. O acordo com a BMG é para apenas este disco, com probabilidade de outro pela frente.

JC - A primeira coisa que chama atenção neste álbum são os desenhos que ilustram a capa e o encarte, todos assinados por você. Eles foram feitos especialmente para este trabalho, ou já existiam antes?

BELCHIOR - Alguns já estavam prontos, outros fiz especialmente para o disco. São cerca de 25 desenhos, farei uma exposição com eles, acompanhando os shows deste CD.

JC - Você pinta apenas por diletantismo ou pensa em encarar a coisa profissionalmente?

BELCHIOR - Pinto, antes de tudo, porque me dá prazer. Não se trata, vamos dizer, de uma terapia ocupacional. Eu estudo, levo muito a sério a pintura, mesmo não tendo feito ainda exposições, apenas ilustrei capas de discos meus.

JC - Estes desenhos lembram um pouco os que Bob Dylan fez para o álbum Self Portrait, em 70...

BELCHIOR - Realmente, parecem, mas tem muito músico que também desenha bem: John Lennon, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Raul Seixas, Ron Wood, Capiba, mas não me pergunte porque isto acontece com eles.

JC - Algumas das canções deste disco são verdadeiros clássicos da MPB, e suas gravações podem ser consideradas versões definitivas, como foi regravá-las? Alguma teria ficado melhor do que a original?

BELCHIOR - Regravei como se elas fossem inéditas, com o mesmo pique da primeira gravação, querendo causar o mesmo impacto, porém usando uma linguagem de hoje. Não penso na comparação, porque pra mim foi com se tivesse entrado pela primeira fez no estúdio com estas músicas.

JC - O disco é dividido em duas partes: Pequeno Perfil de um Cidadão Comum e Pequeno mapa do Tempo, por sinal títulos de músicas suas, daria pra explicar esta divisão?

BELCHIOR - Os dois formam uma espécie de autobiografia, retrato de corpo e alma do artista. As canções do primeiro são minha visão do mundo, meu ponto de vista, o universo individual. A segunda é uma introspecção, uma visão lírica interior.

JC - Foi difícil chegar ao repertório final do disco?

BELCHIOR - Pelo contrário, foi até muito fácil. Escolhi algumas músicas mais representativas da minha carreira, com outras poucos conhecidas, que o pessoal quer muito ouvir mas não tem em CDs.

JC - No disco tem uma música, 500 anos, que ficou bem atual, embora ela não seja inédita. Como aconteceu esta música?

BELCHIOR - Fiz há quatro anos, na Espanha. Saiu no disco Baihunos, lançado pela Movieplay. Agora eu regravei com uma versão que eu mesmo fiz.

JC - Você além de compor e pintar, também sempre gostou muito de escrever, fez textos para o Pasquim, para outros jornais.

BELCHIOR - Continuo sempre escrevendo. Agora mesmo tô trabalhando numa tradução de A Divina Comédia, de Dante. Não é encomenda de nenhuma editora, é por prazer mesmo.

JC - Você surgiu numa geração que teve relativa facilidade de acontecer. Pessoas como Elis Regina procuravam, gravavam, compositores novos. Hoje as rádios e TV limitaram seu universo musical. Neste seus mais de 25 anos de carreira, como você compararia as duas épocas?

BELCHIOR - Havia o interesse em lançamentos de novos artistas, sem a obrigação do sucesso imediato. Havia intérpretes, como a própria Elis, abrindo espaços para os novos, a televisão era mais acessível. Tinham os festivais, que facilitaram muito para o surgimento de uma porção de artistas. Mas apesar de tudo, atualmente tem um pessoal que está dando continuidade ao que fizemos. Estes grupos do mangue, por exemplo, prosseguem o que foi iniciado pela nossa geração. Eles não fazem uma música apenas por modismo, mas trabalham para ficar na história da música popular brasileira.

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Jornal do Commercio
Recife - 05.10.99
Terça-feira