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ARTIGO
Lembranças
de Lisboa
por JOSÉ
MÁRIO RODRIGUES
O novo e o
antigo convivem em Lisboa com
muita harmonia. O que é novo é
extremamente moderno, futurista
até. O que é velho é do tempo
do ronca. Ora é um bonde que se
toma para ir a Alfama ou ao
Chiado, em que o motorneiro é
também cobrador; ora é um
moderno metrô em que se compra a
passagem em caixas automáticos.
Apesar da
presença moura e romana na
arquitetura, a atmosfera de
Lisboa tem mais a ver com a da
América do Sul do que com o
resto da Europa, particularmente
com o Brasil, no humor, no mau
humor, na leseira também e no
mau gosto de estender roupas nas
varandas. A gente é induzido a
achar bonitos e líricos os
varais da Alfama, do Chiado. Se
fosse por aqui, acharíamos algo
decadente, coisa de país
subdesenvolvido. Felizmente,
entre nós, esse hábito não é
cultivado nos bairros de classe
média, mas apenas em alguns
bairros populares.
Da mesma forma
que não temos por aqui vasos de
plantas nas janelas, tão comuns
às varandas das casas
portuguesas dos bairros antigos,
que fazem o viajante parar diante
de sobrados que são verdadeiros
jardins suspensos.
Falei em
viajante e não em turista, pois
segundo Saramago - primeiro
Prêmio Nobel de Literatura da
língua portuguesa - "viajar
é descobrir, o resto é simples
encontrar".
Começamos a
conhecer Lisboa pela exposição
itinerante sobre Portugal
Islâmico que estava no Mosteiro
dos Jerônimos, onde funciona,
também, o Museu Arqueológico e
Etnológico. O Portugal
descoberto nas escavações pelos
estudiosos das civilizações
antigas. Escavações que ainda
estão sendo feitas na Igreja da
Sé de Lisboa. E continuamos
subindo e descendo as ladeiras do
bairro alto, o Terreiro do Paço,
o Rossio, o Museu dos Coches, a
Torre de Belém, a Fundação
Gulbenkian, o Cais do Sodré e
outros lugares.
Não se deve
ver uma cidade apressadamente.
Tem que se demorar um pouco mais,
sentar nas praças para escolher
o próximo local a ser visitado,
se perder nas esquinas e procurar
o caminho por si mesmo, sem ajuda
de ninguém. Nessa procura a
gente encontra mais. Não é
preciso ver tudo. Não se vê
tudo em lugar nenhum. É preciso
ver bem o que se quer olhar.
Não me
esquecerei, por exemplo, "na
vida de minhas retinas tão
fatigadas", para usar um
verso de Drummond, a Rua das
Pedras Verdes onde todas as
noites jantava com o professor
Roberto Pimentel, num pequeno
restaurante de uma família de
moças bonitas e que sabem a
dosagem dos temperos. A gente
guarda na lembrança a paisagem,
mas não esquece do cheiro ne do
gosto das coisas.
Não dá para
esquecer também uma senhora de
idade, bem vestida, no fim da
tarde, no mirante da Alfama, que
diante da visão panorâmica da
cidade, cantava um fado com letra
de louvação a Portugal. A
princípio, pensei que se tratava
de uma doida ou de alguém que
usa desse expediente para
conseguir algum trocado. Nada
disso. Era algo espontâneo. Não
estamos acostumados a
demonstrações de
espontaneidade. A herança
bacharelesca de nossa cultura
entortou o nosso modo de ser e de
se portar nos lugares. Qualquer
coisa que fuja ao que
consideramos normal, é doidice.
A senhora portuguesa terminou o
fado, as luzes se acenderam e o
Tejo ficou prateado com o reflexo
da lua.
* José
Mário Rodrigues é escritor
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