-- - - -- - - -- - - -- - - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999


ARTIGO

Lembranças de Lisboa

por JOSÉ MÁRIO RODRIGUES

O novo e o antigo convivem em Lisboa com muita harmonia. O que é novo é extremamente moderno, futurista até. O que é velho é do tempo do ronca. Ora é um bonde que se toma para ir a Alfama ou ao Chiado, em que o motorneiro é também cobrador; ora é um moderno metrô em que se compra a passagem em caixas automáticos.

Apesar da presença moura e romana na arquitetura, a atmosfera de Lisboa tem mais a ver com a da América do Sul do que com o resto da Europa, particularmente com o Brasil, no humor, no mau humor, na leseira também e no mau gosto de estender roupas nas varandas. A gente é induzido a achar bonitos e líricos os varais da Alfama, do Chiado. Se fosse por aqui, acharíamos algo decadente, coisa de país subdesenvolvido. Felizmente, entre nós, esse hábito não é cultivado nos bairros de classe média, mas apenas em alguns bairros populares.

Da mesma forma que não temos por aqui vasos de plantas nas janelas, tão comuns às varandas das casas portuguesas dos bairros antigos, que fazem o viajante parar diante de sobrados que são verdadeiros jardins suspensos.

Falei em viajante e não em turista, pois segundo Saramago - primeiro Prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa - "viajar é descobrir, o resto é simples encontrar".

Começamos a conhecer Lisboa pela exposição itinerante sobre Portugal Islâmico que estava no Mosteiro dos Jerônimos, onde funciona, também, o Museu Arqueológico e Etnológico. O Portugal descoberto nas escavações pelos estudiosos das civilizações antigas. Escavações que ainda estão sendo feitas na Igreja da Sé de Lisboa. E continuamos subindo e descendo as ladeiras do bairro alto, o Terreiro do Paço, o Rossio, o Museu dos Coches, a Torre de Belém, a Fundação Gulbenkian, o Cais do Sodré e outros lugares.

Não se deve ver uma cidade apressadamente. Tem que se demorar um pouco mais, sentar nas praças para escolher o próximo local a ser visitado, se perder nas esquinas e procurar o caminho por si mesmo, sem ajuda de ninguém. Nessa procura a gente encontra mais. Não é preciso ver tudo. Não se vê tudo em lugar nenhum. É preciso ver bem o que se quer olhar.

Não me esquecerei, por exemplo, "na vida de minhas retinas tão fatigadas", para usar um verso de Drummond, a Rua das Pedras Verdes onde todas as noites jantava com o professor Roberto Pimentel, num pequeno restaurante de uma família de moças bonitas e que sabem a dosagem dos temperos. A gente guarda na lembrança a paisagem, mas não esquece do cheiro ne do gosto das coisas.

Não dá para esquecer também uma senhora de idade, bem vestida, no fim da tarde, no mirante da Alfama, que diante da visão panorâmica da cidade, cantava um fado com letra de louvação a Portugal. A princípio, pensei que se tratava de uma doida ou de alguém que usa desse expediente para conseguir algum trocado. Nada disso. Era algo espontâneo. Não estamos acostumados a demonstrações de espontaneidade. A herança bacharelesca de nossa cultura entortou o nosso modo de ser e de se portar nos lugares. Qualquer coisa que fuja ao que consideramos normal, é doidice. A senhora portuguesa terminou o fado, as luzes se acenderam e o Tejo ficou prateado com o reflexo da lua.

* José Mário Rodrigues é escritor

 
 

 

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