SHOWS
Gretchen
não perde o reboladopor SCHNEIDER
CARPEGGIANI
A década de 90
tem sido bem estranha em questão
de estilo. Quando se achou que
já se havia atingido todos os
excessos e que nada mais poderia
ser inventado,
"descobriu-se" uma
fórmula para continuar inovando:
recriar o passado. Os nossos
vizinhos dos anos 70, que
passaram a década inteira sendo
tachados de principal fonte de
breguice e de exageros
imperdoáveis, tornaram-se, de
uma hora para outra, o
"último grito da
moda". Desse período quase
tudo foi reaproveitado; da
música disco, à estética punk,
aos seus vários ídolos, que
aparentemente presos no limbo do
esquecimento, voltaram às
paradas de sucesso. ABBA, Sex
Pistols, Carpenters todos eles
tiveram os seus 5 minutos de
sucesso, nos últimos anos,
ancorados pelo rótulo
"cult". Sem esquecer de
Gretchen, a primeira "musa
do bumbum" e rainha das
músicas baseadas em
onomatopéias - A Mêlo do
Piripiri e Freak Le Bumbum são
apenas alguns exemplos.
Recife, que
este ano já recebeu os
"cult" Billy Paul e a
banda-de-um-homem-só, mais
conhecida como Supertramp, recebe
esta semana o revival de
Gretchen, que faz duas
apresentações, na próxima
sexta. Essa volta de Gretchen,
que passou os anos 80 como
atração constante do programa
Qual é a Música, de Silvio
Santos, basicamente começou
quando Marisa Monte resolveu
incluir um trecho da canção
Conga La Conga, na sua turnê
Mais.
De lá para
cá, as antigas músicas da
cantora apareceram em comerciais
de TV e tornaram-se hits em
boates gays. A volta de Gretchen
culminou com o lançamento, este
ano, da coletânea 20 Super
Sucessos - alguns deles
aparecendo pela primeira vez em
CD. "Muita gente fala em
volta, mas nunca parei de fazer
shows. Tenho um público que
quase independe da minha
constante presença na mídia.
Gretchen sempre é casa
cheia", comentou a cantora.
Gretchen, mesmo
tendo aquela simpatia
profissional, fala pouco ao
telefone e parece já ter as
respostas prontas para a maioria
das perguntas. Além disso, a
conversa foi constantemente
interrompida por vozes de
crianças. "Apesar de
basicamente ter sido vista como
um símbolo sexual, nunca abri
mão de ser mãe quantas vezes eu
quis. Sou uma mulher livre para
fazer o que quiser",
comentou.
A carreira de
Gretchen começou em 76,
participando de um grupo de baile
que cantava músicas em vários
idiomas - "cantava até
mesmo em hebraico". Depois
participou das Melindrosas e
começou a trabalhar com o
empresário argentino Mister Sam,
o homem que basicamente criou a
Gretchen. O passo inicial foi
criar uma série de músicas, com
um ritmo latino e batidas disco,
e com as famosas letras
basicamente construídas em cima
de onomatopéias. O primeiro
sucesso foi o compacto Dance With
Me.
Como as letras
das músicas não queriam dizer
nada e o ritmo delas não tinha
nada de especial, o mito Gretchen
foi construído em cima do
figurino - ou da falta dele - e
do rebolado da cantora, algo
quase inédito naqueles anos
pré-Madonna e pré-Carla Perez.
"Muita gente comentou que o
fato de ter me tornado a
"rainha do bumbum" e o
modo como eu dançava terem sido
artifícios pensados. Mas aquelas
roupas eram as que a minha mãe
fazia para mim. Tudo comigo
aconteceu naturalmente".
"Sofri uma
série de problemas com a
censura. Várias vezes fui
impedida de participar de
programas de televisão. Muita
gente ligava o que eu fazia à
pornografia. Naqueles anos
basicamente só eu fazia
apresentações daquela
forma", comenta. Mesmo com a
censura marcando todos os passos
- ou rebolados - da cantora, o
seu público era basicamente
formado de crianças, algo
parecido com o que aconteceu com
Carla Perez. Sobre a nova musa da
estética "bumbum",
Gretchen opina: "Nunca a
encontrei pessoalmente. Acho que
ela não deveria ter saído do É
o Tchan, onde chegou ao sucesso.
Agora dizem que ela vai começar
uma carreira como cantora, mas
não vai ser uma coisa natural,
como aconteceu comigo, pois
sempre fui cantora e
dançarina".
Como a maioria
dos artistas da década de 70, a
carreira de Gretchen ficou quase
inteiramente fora da mídia nos
anos 80. Nesse período, a
cantora atirou musicalmente para
todos os lados nessas últimas
duas décadas. Cantou dance
music, lambada, baladas e até
música religiosa. "Ainda
tenho uma ligação muito forte
com a religião, pois sou
evangélica. Mas sei separar a
religião do meu trabalho",
afirma.
Serviço
Shows de
Gretchen
Sexta-feira
Praia de Itamaracá, na Praça da
Igrejinha, a partir das 23h.
Aberto ao público. Boate Doktor
Froid, a partir das 2h Ingresso:
R$ 10,00