- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999

SHOWS
Gretchen não perde o rebolado

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

A década de 90 tem sido bem estranha em questão de estilo. Quando se achou que já se havia atingido todos os excessos e que nada mais poderia ser inventado, "descobriu-se" uma fórmula para continuar inovando: recriar o passado. Os nossos vizinhos dos anos 70, que passaram a década inteira sendo tachados de principal fonte de breguice e de exageros imperdoáveis, tornaram-se, de uma hora para outra, o "último grito da moda". Desse período quase tudo foi reaproveitado; da música disco, à estética punk, aos seus vários ídolos, que aparentemente presos no limbo do esquecimento, voltaram às paradas de sucesso. ABBA, Sex Pistols, Carpenters todos eles tiveram os seus 5 minutos de sucesso, nos últimos anos, ancorados pelo rótulo "cult". Sem esquecer de Gretchen, a primeira "musa do bumbum" e rainha das músicas baseadas em onomatopéias - A Mêlo do Piripiri e Freak Le Bumbum são apenas alguns exemplos.

Recife, que este ano já recebeu os "cult" Billy Paul e a banda-de-um-homem-só, mais conhecida como Supertramp, recebe esta semana o revival de Gretchen, que faz duas apresentações, na próxima sexta. Essa volta de Gretchen, que passou os anos 80 como atração constante do programa Qual é a Música, de Silvio Santos, basicamente começou quando Marisa Monte resolveu incluir um trecho da canção Conga La Conga, na sua turnê Mais.

De lá para cá, as antigas músicas da cantora apareceram em comerciais de TV e tornaram-se hits em boates gays. A volta de Gretchen culminou com o lançamento, este ano, da coletânea 20 Super Sucessos - alguns deles aparecendo pela primeira vez em CD. "Muita gente fala em volta, mas nunca parei de fazer shows. Tenho um público que quase independe da minha constante presença na mídia. Gretchen sempre é casa cheia", comentou a cantora.

Gretchen, mesmo tendo aquela simpatia profissional, fala pouco ao telefone e parece já ter as respostas prontas para a maioria das perguntas. Além disso, a conversa foi constantemente interrompida por vozes de crianças. "Apesar de basicamente ter sido vista como um símbolo sexual, nunca abri mão de ser mãe quantas vezes eu quis. Sou uma mulher livre para fazer o que quiser", comentou.

A carreira de Gretchen começou em 76, participando de um grupo de baile que cantava músicas em vários idiomas - "cantava até mesmo em hebraico". Depois participou das Melindrosas e começou a trabalhar com o empresário argentino Mister Sam, o homem que basicamente criou a Gretchen. O passo inicial foi criar uma série de músicas, com um ritmo latino e batidas disco, e com as famosas letras basicamente construídas em cima de onomatopéias. O primeiro sucesso foi o compacto Dance With Me.

Como as letras das músicas não queriam dizer nada e o ritmo delas não tinha nada de especial, o mito Gretchen foi construído em cima do figurino - ou da falta dele - e do rebolado da cantora, algo quase inédito naqueles anos pré-Madonna e pré-Carla Perez. "Muita gente comentou que o fato de ter me tornado a "rainha do bumbum" e o modo como eu dançava terem sido artifícios pensados. Mas aquelas roupas eram as que a minha mãe fazia para mim. Tudo comigo aconteceu naturalmente".

"Sofri uma série de problemas com a censura. Várias vezes fui impedida de participar de programas de televisão. Muita gente ligava o que eu fazia à pornografia. Naqueles anos basicamente só eu fazia apresentações daquela forma", comenta. Mesmo com a censura marcando todos os passos - ou rebolados - da cantora, o seu público era basicamente formado de crianças, algo parecido com o que aconteceu com Carla Perez. Sobre a nova musa da estética "bumbum", Gretchen opina: "Nunca a encontrei pessoalmente. Acho que ela não deveria ter saído do É o Tchan, onde chegou ao sucesso. Agora dizem que ela vai começar uma carreira como cantora, mas não vai ser uma coisa natural, como aconteceu comigo, pois sempre fui cantora e dançarina".

Como a maioria dos artistas da década de 70, a carreira de Gretchen ficou quase inteiramente fora da mídia nos anos 80. Nesse período, a cantora atirou musicalmente para todos os lados nessas últimas duas décadas. Cantou dance music, lambada, baladas e até música religiosa. "Ainda tenho uma ligação muito forte com a religião, pois sou evangélica. Mas sei separar a religião do meu trabalho", afirma.

Serviço

Shows de Gretchen
Sexta-feira
Praia de Itamaracá, na Praça da Igrejinha, a partir das 23h. Aberto ao público. Boate Doktor Froid, a partir das 2h Ingresso: R$ 10,00


     

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