- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999

CINEMA
Boleiros é um filme à altura do futebol nacional

por Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

Boleiros, de Ugo Giorgetti, desmente o consenso de que o futebol é mal retratado pelo cinema brasileiro. Com as excessões de praxe, como Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade, ou Os Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, o esporte mais popular do país realmente não tem tido melhor sorte nas telas, principalmente na forma de ficção. Um paradoxo. Parece que o futebol é tão bom em campo que, representado, fica melhor no modelo documental que no ficcional. De fato, o que fazer com uma jogada de Pelé senão simplesmente reproduzi-la em um filme chamado "Isto É Pelé"?

Aparentemente havia escapado aos cineastas o fato de que o futebol é menos um jogo que um grande espaço dramático. Uma partida é como se fosse uma fatia de vida, em que talento, vontade, fibra, mas também uma boa dose de acaso podem decidir entre a vitória e a derrota, entre o paraíso e o inferno. Por isso provavelmente, e também por envolver tantas variáveis que se torna virtualmente imprevisível, encante tanto as pessoas.

Giorgetti é bem consciente de que o futebol ultrapassa a si mesmo, tornando-se muito mais do que um jogo. Por isso seu filme é menos sobre o esporte e mais sobre a memória do futebol. Isso explica o fato de o filme começar e terminar numa mesa de bar, local onde "boleiros" - gente ligada ao futebol mas, agora, aposentada - recordam casos entre uma rodada e outra de cerveja. O recurso serve para alinhavar as diferentes histórias de que se compõe o filme.

A primeira dessas histórias é a de um juiz ladrão, vivido por um Otávio Augusto em brilhante atuação como sempre. A segunda narrativa mostra um dos interlocutores contando o que aconteceu com o garoto mais promissor da sua escolinha de futebol. A outra é a do ex-jogador da seleção que vendeu seus troféus para sobreviver. Há também a do craque que vai ser negociado com a Itália, mas é detido numa batida policial porque é negro e dirige um carro importado. Na quinta história, o jogador contundido procura ajuda de um pai de santo, e, na última, o craque malandro tenta driblar o técnico para escapar da concentração e transar com uma dondoca na véspera do clássico decisivo.

Protótipos são situações ideais, típicas, costuma lembrar Giorgetti. De fato, dezenas de histórias semelhantes são ouvidas no mundo do futebol. Como se o diretor tivesse feito uma espécie de pesquisa de campo e procurado abarcar um campo mítico possível da experiência futebolística do país por seus casos exemplares. A própria origem do projeto mostra uma primeira vocação documental.

Giorgetti frequentava o Elias, um bar do Parque Antártica, em frente ao campo do Palmeiras, em São Paulo, e costumava ouvir os ex-jogadores contarem suas histórias. Veio daí a idéia do filme. O bar que se vê é uma réplica do verdadeiro Elias, famoso pela cerveja gelada e pela qualidade do carpaccio que serve. E também pela presença constante de jogadores e palmeirenses históricos, os chamados "corneteiros", gente com cargo ou influência no clube. Consta que muito jogador foi contratado e despedido naquelas mesas de bar.

No entanto, Giorgetti separa, "higienicamente", seus boleiros dos cartolas. Não há espaço para os dirigentes em sua saga. O filme é todo dos "heróis" da bola, como o cineasta carinhosamente chama os jogadores. Pertence a eles o espaço dramático e cômico tecido pelos casos. De maneira similar a todo filme elaborado a partir de episódios, alguns são melhores que os outros. De longe, o mais memorável é o de Paulinho Majestade, o cobra do passado que vende os troféus. De uma dignidade de arrepiar, principalmente quando se sabe que é baseado num caso real. Há os que são divertidos, um ou outro serve como reflexão.

Mas, visto assim, em fragmentos, Boleiros pode parecer menor do que de fato é. Giorgetti, à sua maneira discreta, montou um projeto mais amplo do que se julga à primeira vista. Como baseou seus episódios em histórias exemplares, vai fundo naquilo que seria uma certa essência do futebol, ou pelo menos de como ela encontra sua representação no imaginário popular brasileiro. Assim, o esporte é visto com uma das poucas vias de ascensão social rápida para as classes baixas.

Ao mesmo tempo, mostra-se incapaz de, numa sociedade preconceituosa, apagar o estigma de origem. O jogador de sucesso é detido porque sua presença no automóvel caro produz uma dissonância de expectativa e conta mais que sua fama. O craque em potencial não escapa ao seu destino, porque é, antes de tudo, menino pobre e marginalizado. Fosse um enxadrista promissor, um branquinho e de óculos redondos, nada lhe aconteceria.

Boleiros é, assim, uma radiografia do Brasil, com seus vícios e virtudes, seus conceitos e preconceitos. Tempo - É, acima de tudo, reflexão sobre o tempo que passa. Os ex- atletas, reunidos em torno de uma mesa, falam do que foram, do tempo da fama e de como, de fato, nenhum deles estava muito preparado para o anonimato. São seres de carreira profissional curta, que resolvem tudo em dez, 12 anos. Ciclo perverso que vai do apogeu à decadência com muita rapidez. Nesse sentido, pela exiguidade de sua vida "útil", os jogadores são metáfora daquilo que acontece com qualquer um dos mortais comnuns. Essa sub-trama faz com que nos identifiquemos com essa gente tão especial. Eles expõem, como ninguém, a síntese de potência e fragilidade de que é feito um ser humano.

Não admira que mesmo as pessoas sem grande interesse pelo futebol se tenham emocionado tanto com Boleiros.


     

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