CINEMA
Boleiros
é um filme à altura do futebol
nacionalpor Luiz Zanin
Oricchio
Agência Estado
Boleiros, de
Ugo Giorgetti, desmente o
consenso de que o futebol é mal
retratado pelo cinema brasileiro.
Com as excessões de praxe, como
Garrincha, Alegria do Povo, de
Joaquim Pedro de Andrade, ou Os
Subterrâneos do Futebol, de
Maurice Capovilla, o esporte mais
popular do país realmente não
tem tido melhor sorte nas telas,
principalmente na forma de
ficção. Um paradoxo. Parece que
o futebol é tão bom em campo
que, representado, fica melhor no
modelo documental que no
ficcional. De fato, o que fazer
com uma jogada de Pelé senão
simplesmente reproduzi-la em um
filme chamado "Isto É
Pelé"?
Aparentemente
havia escapado aos cineastas o
fato de que o futebol é menos um
jogo que um grande espaço
dramático. Uma partida é como
se fosse uma fatia de vida, em
que talento, vontade, fibra, mas
também uma boa dose de acaso
podem decidir entre a vitória e
a derrota, entre o paraíso e o
inferno. Por isso provavelmente,
e também por envolver tantas
variáveis que se torna
virtualmente imprevisível,
encante tanto as pessoas.
Giorgetti é
bem consciente de que o futebol
ultrapassa a si mesmo,
tornando-se muito mais do que um
jogo. Por isso seu filme é menos
sobre o esporte e mais sobre a
memória do futebol. Isso explica
o fato de o filme começar e
terminar numa mesa de bar, local
onde "boleiros" - gente
ligada ao futebol mas, agora,
aposentada - recordam casos entre
uma rodada e outra de cerveja. O
recurso serve para alinhavar as
diferentes histórias de que se
compõe o filme.
A primeira
dessas histórias é a de um juiz
ladrão, vivido por um Otávio
Augusto em brilhante atuação
como sempre. A segunda narrativa
mostra um dos interlocutores
contando o que aconteceu com o
garoto mais promissor da sua
escolinha de futebol. A outra é
a do ex-jogador da seleção que
vendeu seus troféus para
sobreviver. Há também a do
craque que vai ser negociado com
a Itália, mas é detido numa
batida policial porque é negro e
dirige um carro importado. Na
quinta história, o jogador
contundido procura ajuda de um
pai de santo, e, na última, o
craque malandro tenta driblar o
técnico para escapar da
concentração e transar com uma
dondoca na véspera do clássico
decisivo.
Protótipos
são situações ideais,
típicas, costuma lembrar
Giorgetti. De fato, dezenas de
histórias semelhantes são
ouvidas no mundo do futebol. Como
se o diretor tivesse feito uma
espécie de pesquisa de campo e
procurado abarcar um campo
mítico possível da experiência
futebolística do país por seus
casos exemplares. A própria
origem do projeto mostra uma
primeira vocação documental.
Giorgetti
frequentava o Elias, um bar do
Parque Antártica, em frente ao
campo do Palmeiras, em São
Paulo, e costumava ouvir os
ex-jogadores contarem suas
histórias. Veio daí a idéia do
filme. O bar que se vê é uma
réplica do verdadeiro Elias,
famoso pela cerveja gelada e pela
qualidade do carpaccio que serve.
E também pela presença
constante de jogadores e
palmeirenses históricos, os
chamados "corneteiros",
gente com cargo ou influência no
clube. Consta que muito jogador
foi contratado e despedido
naquelas mesas de bar.
No entanto,
Giorgetti separa,
"higienicamente", seus
boleiros dos cartolas. Não há
espaço para os dirigentes em sua
saga. O filme é todo dos
"heróis" da bola, como
o cineasta carinhosamente chama
os jogadores. Pertence a eles o
espaço dramático e cômico
tecido pelos casos. De maneira
similar a todo filme elaborado a
partir de episódios, alguns são
melhores que os outros. De longe,
o mais memorável é o de
Paulinho Majestade, o cobra do
passado que vende os troféus. De
uma dignidade de arrepiar,
principalmente quando se sabe que
é baseado num caso real. Há os
que são divertidos, um ou outro
serve como reflexão.
Mas, visto
assim, em fragmentos, Boleiros
pode parecer menor do que de fato
é. Giorgetti, à sua maneira
discreta, montou um projeto mais
amplo do que se julga à primeira
vista. Como baseou seus
episódios em histórias
exemplares, vai fundo naquilo que
seria uma certa essência do
futebol, ou pelo menos de como
ela encontra sua representação
no imaginário popular
brasileiro. Assim, o esporte é
visto com uma das poucas vias de
ascensão social rápida para as
classes baixas.
Ao mesmo tempo,
mostra-se incapaz de, numa
sociedade preconceituosa, apagar
o estigma de origem. O jogador de
sucesso é detido porque sua
presença no automóvel caro
produz uma dissonância de
expectativa e conta mais que sua
fama. O craque em potencial não
escapa ao seu destino, porque é,
antes de tudo, menino pobre e
marginalizado. Fosse um
enxadrista promissor, um
branquinho e de óculos redondos,
nada lhe aconteceria.
Boleiros é,
assim, uma radiografia do Brasil,
com seus vícios e virtudes, seus
conceitos e preconceitos. Tempo -
É, acima de tudo, reflexão
sobre o tempo que passa. Os ex-
atletas, reunidos em torno de uma
mesa, falam do que foram, do
tempo da fama e de como, de fato,
nenhum deles estava muito
preparado para o anonimato. São
seres de carreira profissional
curta, que resolvem tudo em dez,
12 anos. Ciclo perverso que vai
do apogeu à decadência com
muita rapidez. Nesse sentido,
pela exiguidade de sua vida
"útil", os jogadores
são metáfora daquilo que
acontece com qualquer um dos
mortais comnuns. Essa sub-trama
faz com que nos identifiquemos
com essa gente tão especial.
Eles expõem, como ninguém, a
síntese de potência e
fragilidade de que é feito um
ser humano.
Não admira que
mesmo as pessoas sem grande
interesse pelo futebol se tenham
emocionado tanto com Boleiros.