- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999

ARTIGO
(In)viabilizando o semi-árido

por CLÓVIS GUIMARÃES FILHO*

Avaliando a presente situação do semi-árido pernambucano, confirma-se, mais uma vez - excluída, em termos, a área irrigada - a total ineficácia dos programas de desenvolvimento rural nele implantados na última década. Como é que em uma região, propaladamente inviável milhares de agricultores sem crédito, sem assistência técnica, sem capacitação, sem organização e sem uma política de preços e mercados para os seus produtos, enfim, sem políticas adequadas de apoio, teimam, há tantos anos, em sobreviver? Por certo, alguma coisa, ainda não devidamente identificada e valorizada, essa região deve ter.

Os programas até agora levados a cabo pecaram por ignorar o ambiente econômico e sócio-institucional adverso, a lógica interna de funcionamento das unidades produtivas beneficiárias, bem como a sua heterogeneidade. Os programas concebidos foram assistencialistas e extremamente setorizados, tratando apenas de componentes isolados, quase todos limitando a problemática do segmento à questão tecnológica e, evidentemente, valorizando a tecnologia "de produto", em detrimento da tecnologia "de processo", de mais fácil adoção.

Exemplos bem característicos foram os programas de "melhoramento genético" de caprinos, com farta e inconseqüente distribuição de reprodutores "melhorados", sem as ações simultâneas de melhoria das condições de alimentação e sanidade, necessárias à expressão do seu potencial. Resultados? Um processo gradual de extinção dos ecotipos nativos, valioso material genético selecionado pela natureza durante 400 anos e significativo aumento de custos na suplementação dos animais durante as secas.

Resultados análogos têm ocorrido com outros programas, como os de capacitação de produtores, por exemplo. Massificados e não concebidos dentro do contexto de uma realidade especializada resultam, em sua imensa maioria, em milhares de "produtores capacitados", nas estatísticas, e em pouco ou nenhum impacto, no meio real. Exemplos similares são numerosos. Com raras exceções, de pouco ou nada adiantam programas de capacitação, de vermifugação, de inseminação ou de qualquer outra coisa, que não sejam para atender uma demanda dentro de uma realidade local ou micro-regional, cientificamente identificada e validada de maneira participativa pelo produtor.

O semi-árido pernambucano possui uma grande diversidade, não pode continuar a ser tratado como uma região única. Urgem programas efetivos de desenvolvimento, enfocando a noção de sistemas agro-alimentares localizados, um conjunto de organizações de produção e de serviços rurais associadas por suas características e seu funcionamento a um espaço ou território específico. É preciso parar de imitar o que os outros fazem. Como competir com os franceses em um mundo globalizado se vamos partir para produzir queijos "boursin"?

Não seria mais eficaz trabalharmos a qualidade dos nossos queijos de coalho ou de manteiga? Ou produzirmos um "cabrito da caatinga", com seu reduzido colesterol e sabor único, fruto do consumo das espécies típicas da nossa tão agredida e ainda desconhecida caatinga? Que outras regiões, no mercado desses produtos, competiriam conosco? É exatamente assim que os franceses trabalham em seu país.

Somente o sertão pernambucano tem mais de 3 milhões de hectares de sequeiro que poderiam se tornar competitivos, se devidamente conhecidos os seus sistemas de produção e estratégias dos produtores e identificadas as opções de mercado e de valorização dos seus produtos. A pesquisa já disponibilizou um acervo de tecnologias e metodologias mais que suficientes para fundamentar um processo inicial nesse sentido.

A concepção equivocada dos programas de desenvolvimento impede a plena apropriação desse acervo pelo segmento rural do semi-árido, confirmando que o problema de desenvolvimento do semi-árido foi sempre muito mais gerencial e organizativo que tecnológico.

* Clóvis Guimarães Filho é pesquisador do Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-árido (Embrapa)




   

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