ARTIGO
(In)viabilizando
o semi-áridopor CLÓVIS
GUIMARÃES FILHO*
Avaliando a
presente situação do
semi-árido pernambucano,
confirma-se, mais uma vez -
excluída, em termos, a área
irrigada - a total ineficácia
dos programas de desenvolvimento
rural nele implantados na última
década. Como é que em uma
região, propaladamente inviável
milhares de agricultores sem
crédito, sem assistência
técnica, sem capacitação, sem
organização e sem uma política
de preços e mercados para os
seus produtos, enfim, sem
políticas adequadas de apoio,
teimam, há tantos anos, em
sobreviver? Por certo, alguma
coisa, ainda não devidamente
identificada e valorizada, essa
região deve ter.
Os programas
até agora levados a cabo pecaram
por ignorar o ambiente econômico
e sócio-institucional adverso, a
lógica interna de funcionamento
das unidades produtivas
beneficiárias, bem como a sua
heterogeneidade. Os programas
concebidos foram
assistencialistas e extremamente
setorizados, tratando apenas de
componentes isolados, quase todos
limitando a problemática do
segmento à questão tecnológica
e, evidentemente, valorizando a
tecnologia "de
produto", em detrimento da
tecnologia "de
processo", de mais fácil
adoção.
Exemplos bem
característicos foram os
programas de "melhoramento
genético" de caprinos, com
farta e inconseqüente
distribuição de reprodutores
"melhorados", sem as
ações simultâneas de melhoria
das condições de alimentação
e sanidade, necessárias à
expressão do seu potencial.
Resultados? Um processo gradual
de extinção dos ecotipos
nativos, valioso material
genético selecionado pela
natureza durante 400 anos e
significativo aumento de custos
na suplementação dos animais
durante as secas.
Resultados
análogos têm ocorrido com
outros programas, como os de
capacitação de produtores, por
exemplo. Massificados e não
concebidos dentro do contexto de
uma realidade especializada
resultam, em sua imensa maioria,
em milhares de "produtores
capacitados", nas
estatísticas, e em pouco ou
nenhum impacto, no meio real.
Exemplos similares são
numerosos. Com raras exceções,
de pouco ou nada adiantam
programas de capacitação, de
vermifugação, de inseminação
ou de qualquer outra coisa, que
não sejam para atender uma
demanda dentro de uma realidade
local ou micro-regional,
cientificamente identificada e
validada de maneira participativa
pelo produtor.
O semi-árido
pernambucano possui uma grande
diversidade, não pode continuar
a ser tratado como uma região
única. Urgem programas efetivos
de desenvolvimento, enfocando a
noção de sistemas
agro-alimentares localizados, um
conjunto de organizações de
produção e de serviços rurais
associadas por suas
características e seu
funcionamento a um espaço ou
território específico. É
preciso parar de imitar o que os
outros fazem. Como competir com
os franceses em um mundo
globalizado se vamos partir para
produzir queijos
"boursin"?
Não seria mais
eficaz trabalharmos a qualidade
dos nossos queijos de coalho ou
de manteiga? Ou produzirmos um
"cabrito da caatinga",
com seu reduzido colesterol e
sabor único, fruto do consumo
das espécies típicas da nossa
tão agredida e ainda
desconhecida caatinga? Que outras
regiões, no mercado desses
produtos, competiriam conosco? É
exatamente assim que os franceses
trabalham em seu país.
Somente o
sertão pernambucano tem mais de
3 milhões de hectares de
sequeiro que poderiam se tornar
competitivos, se devidamente
conhecidos os seus sistemas de
produção e estratégias dos
produtores e identificadas as
opções de mercado e de
valorização dos seus produtos.
A pesquisa já disponibilizou um
acervo de tecnologias e
metodologias mais que suficientes
para fundamentar um processo
inicial nesse sentido.
A concepção
equivocada dos programas de
desenvolvimento impede a plena
apropriação desse acervo pelo
segmento rural do semi-árido,
confirmando que o problema de
desenvolvimento do semi-árido
foi sempre muito mais gerencial e
organizativo que tecnológico.
* Clóvis
Guimarães Filho é pesquisador
do Centro de Pesquisa
Agropecuária do Trópico
Semi-árido (Embrapa)