..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 03 de janeiro de 1999

CORAÇÃO
Falta de cuidados gera bebês cardíacos

Por FABIANA MORAES

Geralmente vistas como um mal ligado apenas a meia idade, as doenças do coração congênitas, que desenvolvem-se ainda na vida fetal, começam a preocupar médicos especialistas ligados à área pediátrica. De acordo com números da Organização Mundial de Saúde (OMS), oito em cada mil crianças nascem, anualmente, com um tipo de anomalia cardíaca. Destas, 40% morrem antes dos três meses de idade. Só em Pernambuco, nascem cerca de 3 mil bebês por ano com problemas no coração. "É um índice altíssimo, que vem sendo observado em todo o Brasil", diz a chefe do setor de Cardiologia Pediátrica da Sociedade Pernambucana de Cardiologia, Sandra Matos.

O mais preocupante quanto a incidência da doença é que ela pode ser causada tanto por herança genética quanto por falta de cuidados da própria mãe do bebê. "O excesso de fumo, a utilização de bebidas alcoólicas ou de drogas são fatores que contribuem para o desenvolvimento de cardiopatias congênitas", diz o cardiologista Jesus Liveira, que realizou em novembro de 98 a primeira cirurgia para corrigir um defeito cardíaco congênito com a utilização do cateterismo intervencionista, técnica que permite o implante de próteses em bebês sem a necessidade de cirurgias.

Segundo Liveira, os fatores externos que mais contribuem para um possível caso de doença cardíaca num feto são a idade da mãe, a consagüinidade dos pais, as associações familiares e a presença de anomalias congênitas maternas. "Estes são agentes que, através do organismo materno, podem agredir os tecidos fetais", explica o cardiologista.

As doenças ligadas ao coração são detectadas enquanto o bebê ainda está na barriga na mãe, seja por meio de uma simples ausculta feita por um obstetra ou de uma ultrassonografia mais apurada. "Estamos orientando os especialistas em ultrassonografia a observarem melhor o coração da criança", diz Sandra Matos. Outro exame que revela possíveis problemas cardíacos é o ecocardiograma fetal, uma espécie de ultrasom realizada no coração do feto. "A melhor prevenção para estes casos ainda é um pré-natal bem feito", continua a médica.

Caso o feto apresente alguma anomalia no coração, o problema pode ser corrigido com três tipos de procedimentos: para os casos mais leves, os médicos recomendam que a criança só se submeta a uma cirurgia após alguns anos; nos casos onde a criança apresenta arritmia, o tratamento é realizado dentro da barriga, com remédios que são aplicados via cordão umbilical. Já as crianças que apresentam tumores ou obstruções sérias precisam ser operadas logo após o nascimento. "Ás vezes é necessário que a criança vá logo para a sala de cirurgia, pois um tumor muito grande prejudica o batimento do coração", explica Sandra Matos, que é autora do livro O Coração Fetal.

DE BICICLETA - Os sintomas mais comuns nos bebês com defeitos cardíacos são o cansaço rápido, a respiração mais curta e até mesmo a coloração (nos casos mais sérios, as crianças chegam a ficar arroxeadas quando o coração apresenta alguma anormalidade). Outro aviso que pode ser facilmente percebido pela mãe do bebê é quando durante a amamentação a criança cansa rápido, mamando em "goles" mais curtos.

A estudante Iara Maria Chaves, a primeira paciente portadora de cardiopatia congênita em todo o Norte e Nordeste a se submeter a um implante de prótese com a utilização do cateterismo intervencionista, sofria muito por não poder levar uma vida normal. "Cansava por qualquer motivo, não podia fazer nenhum esforço, como andar de bicicleta, por exemplo".

Iara, agora com 22 anos, possuía desde bebê um defeito de comunicação interatrial, que dificultava a separação do sangue venoso do sangue arterial. Após o implante da prótese, que fechou uma abertura numa das paredes do coração, a estudante voltou a ter uma vida normal e finalmente pode realizar as atividades que desejava. "Uma criança com problema cardíaco não leva uma vida comum. Na escola, sempre tinha que ser dispensada das aulas de educação física. Agora, posso nadar, correr e até voltei a andar de bicicleta", comemora.


     

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