CORAÇÃO
Falta
de cuidados gera bebês
cardíacosPor FABIANA MORAES
Geralmente
vistas como um mal ligado apenas
a meia idade, as doenças do
coração congênitas, que
desenvolvem-se ainda na vida
fetal, começam a preocupar
médicos especialistas ligados à
área pediátrica. De acordo com
números da Organização Mundial
de Saúde (OMS), oito em cada mil
crianças nascem, anualmente, com
um tipo de anomalia cardíaca.
Destas, 40% morrem antes dos
três meses de idade. Só em
Pernambuco, nascem cerca de 3 mil
bebês por ano com problemas no
coração. "É um índice
altíssimo, que vem sendo
observado em todo o Brasil",
diz a chefe do setor de
Cardiologia Pediátrica da
Sociedade Pernambucana de
Cardiologia, Sandra Matos.
O mais
preocupante quanto a incidência
da doença é que ela pode ser
causada tanto por herança
genética quanto por falta de
cuidados da própria mãe do
bebê. "O excesso de fumo, a
utilização de bebidas
alcoólicas ou de drogas são
fatores que contribuem para o
desenvolvimento de cardiopatias
congênitas", diz o
cardiologista Jesus Liveira, que
realizou em novembro de 98 a
primeira cirurgia para corrigir
um defeito cardíaco congênito
com a utilização do cateterismo
intervencionista, técnica que
permite o implante de próteses
em bebês sem a necessidade de
cirurgias.
Segundo
Liveira, os fatores externos que
mais contribuem para um possível
caso de doença cardíaca num
feto são a idade da mãe, a
consagüinidade dos pais, as
associações familiares e a
presença de anomalias
congênitas maternas. "Estes
são agentes que, através do
organismo materno, podem agredir
os tecidos fetais", explica
o cardiologista.
As doenças
ligadas ao coração são
detectadas enquanto o bebê ainda
está na barriga na mãe, seja
por meio de uma simples ausculta
feita por um obstetra ou de uma
ultrassonografia mais apurada.
"Estamos orientando os
especialistas em ultrassonografia
a observarem melhor o coração
da criança", diz Sandra
Matos. Outro exame que revela
possíveis problemas cardíacos
é o ecocardiograma fetal, uma
espécie de ultrasom realizada no
coração do feto. "A melhor
prevenção para estes casos
ainda é um pré-natal bem
feito", continua a médica.
Caso o feto
apresente alguma anomalia no
coração, o problema pode ser
corrigido com três tipos de
procedimentos: para os casos mais
leves, os médicos recomendam que
a criança só se submeta a uma
cirurgia após alguns anos; nos
casos onde a criança apresenta
arritmia, o tratamento é
realizado dentro da barriga, com
remédios que são aplicados via
cordão umbilical. Já as
crianças que apresentam tumores
ou obstruções sérias precisam
ser operadas logo após o
nascimento. "Ás vezes é
necessário que a criança vá
logo para a sala de cirurgia,
pois um tumor muito grande
prejudica o batimento do
coração", explica Sandra
Matos, que é autora do livro O
Coração Fetal.
DE BICICLETA
- Os sintomas mais comuns nos
bebês com defeitos cardíacos
são o cansaço rápido, a
respiração mais curta e até
mesmo a coloração (nos casos
mais sérios, as crianças chegam
a ficar arroxeadas quando o
coração apresenta alguma
anormalidade). Outro aviso que
pode ser facilmente percebido
pela mãe do bebê é quando
durante a amamentação a
criança cansa rápido, mamando
em "goles" mais curtos.
A estudante
Iara Maria Chaves, a primeira
paciente portadora de cardiopatia
congênita em todo o Norte e
Nordeste a se submeter a um
implante de prótese com a
utilização do cateterismo
intervencionista, sofria muito
por não poder levar uma vida
normal. "Cansava por
qualquer motivo, não podia fazer
nenhum esforço, como andar de
bicicleta, por exemplo".
Iara, agora com
22 anos, possuía desde bebê um
defeito de comunicação
interatrial, que dificultava a
separação do sangue venoso do
sangue arterial. Após o implante
da prótese, que fechou uma
abertura numa das paredes do
coração, a estudante voltou a
ter uma vida normal e finalmente
pode realizar as atividades que
desejava. "Uma criança com
problema cardíaco não leva uma
vida comum. Na escola, sempre
tinha que ser dispensada das
aulas de educação física.
Agora, posso nadar, correr e até
voltei a andar de
bicicleta", comemora.