COMPORTAMENTO
Greve
ameaça parar a Internet. Será?por HERCÍLIA GALINDO
hercilia@jc.com.br
A próxima
quarta-feira é dia de greve na
Internet. O anúncio, que mais
parece com um spam, está
chegando nas caixas-postais de
quase todos os usuários de
e-mail do país e criando
polêmica entre os internautas. O
protesto de origem desconhecida
refere-se aos valores cobrados
pelos provedores nacionais de
acesso à Internet, que chegam a
ultrapassar R$ 25,00 por tempo
limitado. As discussões
esquentam diante da possibilidade
da paralização. Em um ponto a
maioria concorda: a idéia não
deve pegar.
Os internautas
são os primeiros a apostar que a
Rede não vai estar menos
congestionada no próximo dia 13.
"Não vou aderir",
afirma o universitário Rafael
Muniz. Segundo ele, que assume
não viver sem checar a caixa
postal ou realizar pesquisas para
trabalhos da universidade, a
idéia poderia até ter mais
"peso" se fosse melhor
elaborada. "Já existe
alguma negociação real para
baixar o preço dos serviços
prestados pelos provedores de
acesso nacionais? Acho que não.
Então, de que me adianta
participar de um protesto
desarticulado?", questiona.
"Não
estou sabendo de nada!", diz
a administradora de empresas
Maria Tereza Cruz. Ela afirma
não ter recebido a famosa
mensagem de "convocação
para o protesto".
"Nenhum dos internautas que
conheço está a par do assunto.
Pelo menos não me disseram nada.
Mesmo se soubesse, não
participaria", afirma.
Segundo Tereza Cruz, não vale a
pena aderir a um movimento onde
todos saem perdendo: usuários,
que deixam de ter acesso ao
conteúdo da rede, e provedores,
que perdem com a ausência de
seus clientes.
Contrariando a
maioria, Roberto Mendes, analista
de sistemas, diz ser a favor da
greve e que vai participar do
movimento em busca de menores
taxas de acesso. "Se todos
chegarem a um consenso e se
unirem em busca de um objetivo de
interesse geral, resultados
positivos virão mais cedo ou
mais tarde", aposta. Afinal,
"um dia sem navegar não
deve trazer prejuízos tão
devastadores assim".
"Não sou
contra um eventual movimento
grevista, apoiá-lo-ei, se houver
um. Só acho que é necessário
cautela antes de se organizar
qualquer greve. Começar pela
greve, ao contrário de outros
lugares, pode ser
desmoralizante", pondera
Silvio Meira, professor do
Departamento de Informática da
Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE) e presidente da
Sociedade Brasileira de
Computação.
Para ele, um
movimento onde não há nenhuma
negociação com a Anatel;
nenhuma ação no âmbito do
comitê gestor; da Abranet, que
representa os provedores; nem uma
ação concreta nas teles para
baixar o preço da infraestrutura
que os provedores usam, está
fadado ao esquecimento.
PROVEDORES -
Representantes dos provedores de
acesso afirmam que o movimento é
infundado e que não deveria
gerar tanta polêmica. Segundo
Aisa Pereira, diretora do
provedor de acesso Cyberland, os
serviços prestados no Brasil,
que giram em torno de R$ 25,00
não estão tão distantes dos
oferecidos no exterior, algo em
torno de U$ 20,00. "Além
disso, não obtemos lucros
exorbitantes. Quase tudo é
investido na empresa, já que a
indústria de hardwares e
softwares não pára de evoluir.
Quem não se atualiza se torna
defasado em apenas três
meses", explica.
Aisa defende a
diminuição dos preços dos
backbones pela MCI Communications
Corporation - controladora da
Embratel desde leilão em julho
do ano passado. Se não, para que
veio a privatização? Uma linha
de 2 Mb nos estados Unidos custa
cerca de U$ 3 mil. No Brasil, a
mesma linha chega a R$ 30 mil.
"Não
acredito que esse movimento
pegue, os assinantes da Cyberland
estão a par da história e ainda
não de manifestaram. Mas, se
algo contribuir para que
aconteça, pelo menos poderemos
acessar a sempre tão
congestionada Internet com
tranqüilidade e fazer downloads
rápidamente", brinca.
MOVIMENTOS -
A Internet está deixando de ser
local de "inocentes passeios
virtuais". A popularização
da Rede está transformando-a
também em local de protesto, com
movimentos organizados. No
primeiro semestre de 98, os
professores das universidades
federais manifestaram seu
protesto contra a defasagem
salarial também na Rede.
Em setembro de
98, os internautas espanhóis
iniciaram um "surf out"
(greve de usuários). A idéia do
protesto ocorreu em função do
plano da Telefônica da Espanha
de aumentar a tarifa das chamadas
locais em 126%. O mais conhecido
movimento brasileiro, sem autor
divulgado, está sendo aguardado
para a próxima quarta-feira, 13
(que não cai em uma
sexta-feira). Mesmo que a idéia
não vingue, uma coisa é certa:
já deu muito o que falar.