- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Hungria, a minha utopia

Ganhei, de Natal, "Puskas, uma lenda do futebol". Foi presente de meu filho, Armando Augusto, que conhece, como ninguém, o meu entusiasmo pela Seleção Húngara do quadrilátero de ouro Bozsik, Hidegkuti, Kocsis e Puskas. Vi-a jogar o Mundial de 54, na Suíça. Não perdia nem treino. Era levado por Janos Lengyel, jornalista húngaro que trabalhava no Brasil e que tinha total acesso à concentração magiar. É como digo na orelha do livro recém-lançado no Brasil pela DBA: "A canhota de Puskas valia por duas. Era prodigiosa, na precisão e na potência do chute." No livro que escrevi na companhia de Jô Soares e Roberto Muylaert, relembro lances inesquecíveis da Copa de 54. Era minha primeira missão profissional, pra valer, fora do Brasil. E foi a seleção húngara de Puskas que me conquistou pras delícias do futebol-arte. Com essa majestosa equipe, descobri que o futebol é a minha segunda pátria amada.

Desde cedo, afeiçoei-me à seleção da Hungria. Vê-la jogar, mesmo em dia de treino, era um prazer. Puskas, roliço porém agilíssimo, dominava a cena. Tinha uma canhota assombrosa. Precisa e potente. Acertava sucessivos voleios, encaixando, sempre a bola no ângulo superior das traves de Grosics. Uma coisa intrigava os catedráticos do futebol: invariavelmente, a Seleção Húngara começava qualquer jogo fazendo dois gols, logo de cara. Fosse contra quem fosse. Vinha sendo assim, fazia dois anos. No torneio olímpico como nos amistosos pré-Copa.

Fui tirar a limpo, no dia do jogo Hungria x Uruguai, nas semifinais, no estádio de Lausanne. Janos e eu fomos ao vestiário húngaro. Fiquei de queixo caído. Não havia um só jogador parado. Todos uniformizados e se aquecendo intensamente. Parecia uma sessão de ginástica aeróbica dos dias de hoje. Estava ali o segredo: a equipe húngara já entrava no campo em ponto de bala. O adversário ainda estava ligando os motores e eles já podiam correr, a mil por hora. O Uruguai está em campo como campeão do mundo. Traz um currículo de três vitórias: 2x0 na Tchecoslováquia. Deu de 7x0 na Escócia e de 4x2 na Inglaterra.

Como será hoje contra a Hungria, que chega às semifinais depois de esquartejar três vítimas: 9x0 na Coréia do Sul, 8x3 na Alemanha e 4x2 no Brasil? O escore das duas seleções, até aqui, ultrapassa a conta de um campeonato inteiro: o Uruguai fez treze gols e tomou dois. A Hungria fez 21 e tomou cinco. Total: 34 a sete. Uma avalanche de gols que só exaltava o poderio das duas seleções. E explica a enchente de público. É gente que não acaba mais. Um rosto na multidão como que ilumina todo o estádio. É ela a princesa italiana que o meu amigo, brasileiro e milionário, trouxe de Roma para tornar a temporada esportiva bem mais romântica. Afinal, nem só de futebol é feita a vida de um conquistador "latin lover"...

Os reis da Copa estão entrando em campo. Em fila indiana. Ombro a ombro. De um lado, a Celeste, de Obdúlio e Schiaffino: do outro, a camisa grená, sangue-de-boi, de Puskas e Boszik. Em dez minutos de jogo, cumpre-se o infalível ritual: a Hungria já vence de 2x0, com gols de Czibor e Hidegkuti. Pelo visto, teremos, aqui, mais um massacre húngaro. Os uruguaios estão meio grogues. Mas, a bem da verdade, não parecem mortos. Dito e feito. A reação uruguaia arrebata a multidão. De um escore ingrato, os campeões mundiais chegam a um empate épico, no segundo tempo. E levam o jogo a trinta minutos de prorrogação. Na prorrogação, a Seleção Húngara faz 2x0 em dez minutos.

Dias depois, no finalzinho do jogo decisivo da Copa, ninguém acreditava no que estava acontecendo. A seleção da Alemanha, encurralada, resistia à pressão húngara. Era um cerco irrespirável. Os lenhadores da Baviera tinham emergido de um 2x0 fulminante, no começo do jogo, pra um escore de 3x2, a dez minutos do encerramento. E a bola não entrava. O goleiro Turek, da Alemanha, estava com o diabo no corpo. Pegava até pensamento.

Nunca esqueci o ar de desânimo de Puskas, o major-galopante da grande seleção. Ele deixou o campo, morto de cansaço e puxando de uma perna. Não devia ter jogado. A lesão de quinze dias atrás não estava curada de todo. No vestiário, antes da partida, o técnico Giula Mandi rolava a bola. Puskas comandava o gesto de chutar. Sinal de que doía o tornozelo. Mandi foi ao chefe da delegação, Gustav Sebes, e contou que Puskas não estava legal. O chefe respondeu com um olhar de soberba: "Puskas não pode ficar no banco. Hoje, vamos ganhar a Copa e ninguém mais que ele merece receber a taça..."

A taça acabaria nas mãos do capitão Fritz Walter, certamente, o único e solitário craque, craque mesmo, da Seleção Alemã. Dois meses depois do Mundial, a imprensa européia descobria que metade do time campeão adoecera de icterícia. Naquele tempo, ainda não havia exame de doping. Mas, certamente, já havia doping. Só assim, alguma equipe poderia derrotar o prodígio húngaro. Amarga a herança que me ficou do Mundial de 54, na Suíça. Menos mal que, volta e meia, eu tenho uma gostosa saudade da princesa italiana do meu amigo ricaço. Chamava-se Gina. Era linda. Cantava muito bem. Sua canção preferida era a napolitana "Anima e Cuore".

Correspondências para "Na Grande Área": Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br e-mail: xapuri@armandonogueira.com.br

 
 

 

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes