QUARTA ESTAÇÃO
Piauí
vende patrimônio para cobrir
dívidaspor JODEVAL DUARTE
O Piauí é um
Estado com enormes contrastes:
vive grandes dificuldades de
investimentos públicos mas tem
um patrimônio notável, com boa
parte à venda, em alguns casos
sem compradores porque são maus
negócios. A conta dos bens ainda
não está completa mas já
chegou a 1.492 imóveis, entre os
quais 46 ilhas, oito hotéis,
central de abastecimento, centro
de convenções, teatro, estádio
de futebol, terminal rodoviário,
uma fazenda, um terminal
pesqueiro, terrenos e prédios,
parque de exposição, parque
gráfico. A maior parte dos bens
deverá ser vendida para formar o
Fundo de Aposentadoria e
Pensões, FAP.
Vender bens e
empresas públicas faz parte dos
compromissos assumidos em um
programa de reestruturação e
ajuste fiscal contratado com o
governo federal, mas não vai ser
fácil. O governo do Estado já
tentou vender seus hotéis e a
central de abastecimento e não
apareceu ninguém para comprar.
No primeiro caso fica fácil
entender: as dívidas que os
hotéis acumularam são
assombrosas. Técnicos do setor
de turismo explicam que seria
melhor negócio investir na
construção de novos hotéis,
melhor equipados, que adquirir os
do Estado pendurados em
obrigações.
Além dessa
dificuldade e a ausência de
interessados em comprar a central
de abastecimento, o Piauí amarga
a experiência com a venda de sua
empresa de energia elétrica, a
Cepisa. A privatização deveria
ter rendido R$ 500 milhões para
o Estado e só entraram no caixa
R$ 120 milhões. Mas o processo
é inevitável e já faz parte do
compromisso com o governo federal
a privatização da Companhia
Metropolitana de Transporte
Público, a Empresa de
Telecomunicações do Piauí, a
TV Educativa, a Companhia de
Águas e Esgotos, a Central de
Abastecimento, a Fundação
Núcleo de Tecnologia de
Confecções, a Rede de Hotéis e
Pousadas, a Empreendimentos
Turísticos e Culturais, a
Empreendimentos Hoteleiros e
Turísticos Delta do Parnaíba.
VISTORIA -
A urgência de vender bens
públicos que ou dão prejuízo
ao Estado ou em nada contribuem
para a administração, e de
órgãos que podem funcionar
muito bem nas mãos de grupos
privados, não se destina apenas
a fazer caixa. Tem a ver com o
Programa de Reestruturação, que
submete ainda mais o Estado ao
governo federal, comprometendo de
vez o sistema federativo. Assim,
terá que passar pela vistoria
periódica da Secretaria do
Tesouro Nacional, a remeter
balancetes de execução
orçamentária, de três em três
meses fazer demonstrativo de
despesa de pessoal, informar
sobre políticas salariais. É o
ajuste fiscal a que estão
atreladas transferências
federais.
Para se adequar
ao processo de transformação
cobrado pelo governo federal, o
governo do Estado vai promover,
ainda, a extinção da Companhia
Editora do Piauí, a extinção
da Secretaria Extraordinária de
Projetos, da Superintendência de
Obras Públicas, da Companhia de
Desenvolvimento do Piauí, da
Companhia de Desenvolvimento
Rodoviário e da Fundação
Estadual de Cultural e do
Desporto. Dentro das previsões
está também a extinção da
Secretaria do Trabalho e Ação
Comunitária e do Programa de
Combate à Pobreza Rural, da
Companhia de Habitação do
Piauí e a fusão da Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado
com a Fundação Centro de
Pesquisas Econômicas e Sociais.
Contrastando o
entusiasmo com que o governador
lembra que está administrando um
Estado que já foi a quarta
economia do País, o Piauí
enfrenta no dia-a-dia indicadores
sociais do lado mais pobre da
Nação. A exemplo da quebra de
safra no ano seco que passou ou
falta de sementes para o ano novo
molhado que se espera, das
dificuldades em dezembro para
pagar o 13º aos servidores ou,
na segunda quinzena de novembro,
a mobilização de excluídos por
um teto na periferia de Teresina,
a capital, onde se concentram os
expulsos da miséria extrema do
campo, vítimas da seca, e onde
estão terras em crescente
valorização pela expansão da
cidade.
A pequena
multidão de excluídos que se
formou na frente do Palácio de
Karnak, sede do governo do
Estado, no centro de Teresina,
pareceu por em xeque o prestígio
popular do governador Francisco
de Assis de Moraes Souza, o Mão
Santa (PMDB), visto pelos
opositores como um dirigente
populista. Na verdade, os
sem-teto antecipavam a cobrança
de uma das promessas de campanha
do governador, quando reconheceu
claramente o desespero dos cerca
de mil sem-teto das vilas Irmã
Dulce, Mocambinho, Monte Alegre e
Nova Jerusalém que batiam à sua
porta.
No programa de
campanha pela reeleição, lá
está: "Sabe-se que na zona
urbana do Piauí temos no mínimo
100 mil famílias vivendo sem
teto ou em precárias casas
desprovidas de infra-estrutura
adequada e decente. A meta é
atingir 100% dessa população,
construindo 100 mil casas
populares". Um compromisso
difícil de ser atendido, mas
quando o problema é muito grande
costuma-se dar como exemplo de
que no Piauí tudo é possível a
ponte Wall Ferraz sobre o rio
Poty, construída em tempo
recorde - 90 dias, alardeia o
governador - a fim de
possibilitar o acesso aos dois
shoppings centers da capital.