-- - - - - - - -- - - - - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de janeiro de 1999

ESTIAGEM

Seca dizima gado em Calumbi e cria "cemitério de carcaças"

por GIOVANNI SÁ
Especial para o JC

CALUMBI - A seca que castiga o Agreste e Sertão há mais de um ano fez surgir em Calumbi, município do Sertão do Pajeú a 440 quilômetros do Recife com dois mil moradores, um cemitério de carcaças de gado. O "cemitério da seca", como está sendo chamado, fica às margens da estrada vicinal que liga a cidade ao Sítio Camaleão. A população começou a prestar atenção no local há três meses por conta da grande quantidade de animais mortos. Hoje existem mais de 50 esqueletos de bovinos, que morreram em função da falta de água e pasto na região. Os pequenos pecuaristas que ainda residem na área estimam que 60% do rebanho de 300 cabeças foi dizimado pela estiagem.

Para manter a criação os produtores estão tendo que comprar ração, o que demanda altos investimentos e pouco retorno financeiro. O preço de cada cabeça de gado, que antes variava entre R$ 600,00 e R$ 700,00 caiu para R$ 120, devido a perda de peso dos animais. O "cemitério da seca" fica a poucos metros da propriedade de Daniel Mariano, 77 anos, que já foi um dos mais bem sucedidos criadores de gado da região e hoje diz viver sem esperanças. Do rebanho de 80 cabeças de gado que restou até o início do ano passado, ele perdeu 36 animais.

"Eu só não vivo em situação pior porque recebe ajuda de um vizinho", contou, ao ressaltar que em toda a sua vida esta é a pior seca. "Nem mesmo a de 32 foi tão forte como agora", lamenta. Nos últimos dois meses, ele usou 60 sacas de milho para alimentar o rebanho e agora está comprando duas cargas de bagaço de cana por semana. "É triste ver os bichos morrendo aos poucos", disse.

No Sítio Cajazeiras, também na zona rural de Calumbi, a morte do rebanho se alastra como uma praga. Os criadores afirmam que se as chuvas não chegarem até março, o restante do rebanho será exterminado. O surgimento do "cemitério da seca" acabou unindo políticos dos mais variados partidos em torno de um projeto que nunca saiu do papel. A construção da Barragem Jurema, idealizada na década de 70, que resolveria o problema d'água no município.

"Desde a época do ex-governador Nilo Coelho que vários técnicos passaram e realizaram projetos para construção da barragem, mas nada foi feito", reclamou o secretário de Agricultura de Calumbi, Edílson Cordeiro, que com diversos vereadores locais vai pleitear a realização da obra junto aos governos estadual e federal.


     

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