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DISCRIMINAÇÃO
Quando o preconceito chega à família

por BRUNO ALBERTIM

O ator e educador Sílvio Pinto teve um sério problema com a educação da mais nova de seus dois filhos. Quando completou 5 anos de idade, a pequena Ana Beatriz começou a sofrer de aflições porque não tinha a pele ou os cabelos parecidos com os de sua boneca, a mundialmente consumida Barbie. No colégio em que estuda, cujo alunado é basicamente de classe média e alta, ela é a única menina negra de uma sala onde prodominam cabelos e peles claros. "Ela me perguntava porque não era branca e chegava a me pedir para mudar de cor", diz. Beatriz não desconfia mas ela é vítima de um certo processo de embranquecimento cultural que domina a mentalidade brasileira. "Todos os referenciais de beleza e comportamento são brancos, é como se os negros não tivessem direito à beleza e identidade", constata o pai de Beatriz, que também ensina no colégio onde a filha estuda.

Por mais que se queira colocar uma pedra definitiva na conversa quando o assunto é racismo, sugerindo uma suposta democracia racial brasileira, os indicadores sociais mostram que o Brasil é um país preconceituoso, sim. De acordo com números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) o Brasil possui a 63ª posição no ranking mundial de qualidade de vida. Mas se fossem osbservados apenas os negros e mestiços brasileiros, que representam a 2ª maior população negra do mundo (a primeira está na Nigéria), o Brasil ocuparia o 120º lugar.

Os dados demonstram que o Brasil não é apenas um país onde cerca de 70 milhões de cidadãos vivem em meio a preceitos racistas. É, também, um lugar onde a sociedade vive de forma "apartizada". Não um apartheid legalizado, como o que perdurou na África do Sul, mas uma apartização sútil e disfarçada. Difícil de identificar e, portanto, de combater. Um número da FASE (Federação para Assistência Social e Educacional de São Paulo) constitui um exemplo significativo: apenas 18% dos negros têm chance de ingressar numa faculdade. Para os brancos, a possibilidade aumenta para 43%.

É longe dos dados estatísticos, entretanto, onde o racismo se manifesta e causa seus pequenos estragos cotidianos. Além dos problemas tradicionais na criação de uma criança, famílias negras têm de aprender a lidar com uma dificuldade extra: administrar o preconceito de que seus filhos são alvo. A tarefa não é fácil. Os pais não têm como discutir questões abstratas demais para a cabeça de crianças, como discriminação e negritude. Mas também não podem deixar que os pequenos cresçam com a auto-estima baixa ou estigmatizados por serem diferentes em seus grupos sociais. "Eu não podia discutir assuntos tão complexos com a minha filha. A minha tática foi outra. Procurava mostrar para ela que cada beleza tem o seu contexto", conta Sílvio Pinto.

PIADA - Tição, chocolate, pretume, poço de pixe, pelé, suco de pneu, mussum, buiú... Esses são alguns dos apelidos que a inocência cruel das crianças costuma direcionar a seus colegas de cor de pele mais escura. E é através das piadas que o preconceito consegue se reproduzir com leveza e eficiência.

"Nos intervalos, tem sempre um menino que conta uma piada racista. Quando é só picardia e os negros da sala rebatem na mesma moeda, tudo bem. Mas quando se criam constrangimentos, eu corto a brincadeira", diz o professor Sílvio.

"As piadas servem para reproduzir uma visão que denota séculos de escravidão: os negros continuam como elementos de chacota para os outros grupos", analisa a atropóloga Josineide Menezes.

A estudante Zoumarroud Dias Vieira, 23, que estudou em colégio particular, cansou de ouvir piadas na infância. E mais: teve o racismo como tabu para estabelecer algumas amizades importantes. "Minha melhor amiga vivia me chamando para ir ao clube com ela e, na hora de ir, seu pai sempre dizia que não dava. Até que a própria mulher dele cansou disso e disse à minha mãe que era por racismo". Situações como essa confirmam que negros brasileiros sempre têm uma ou outra história de racismo para contar.

É o caso do estudante João dos Prazeres, 22. Ele lembra de uma vez, na praia, em que teve de se defender de um arsenal de "piadas de preto" que um recém conhecido começou a desfiar. "O cara me chamou logo de suco de pneu", conta ele, que afirma nunca ter tido problemas psicológicos por questões raciais. "Minha família me educou muito bem para que eu não alimentasse essas bobagens na minha cabeça".

Contra a afirmação da criança negra como indivíduo pleno, um entrave costuma partir dos próprios pais. É quando o indivíduo que representa o papel social de dominado adquire o discurso do dominador. Em bom português: o negro acha que é inferior e concorda com a discriminação. "Isso fica evidente com negros de pele um pouco mais clara que não se assumem como negros, querendo estar próximo do ideal branco. Quer dizer: não se aceitam", atesta a psicanalista Roberta Freyre Magalhães.

"Vai ser muito mais difícil para uma criança negra vencer as pressões sociais quando os próprios pais têm, internalizadas, frustrações advindas do preconceito racial", diz a psicanalista, sugerindo que tratar o racismo da maneira mais leve e natural é o melhor caminho para livrar as crianças do peso do assunto. "Não se pode exigir posturas de adulto em uma criança", coloca.

Foi assim que a questão foi diluída na casada estudante Zoumarroud, que apesar das manifestações de preconceitos, nunca se deixou impressionar. Seu pai, de cabelos crespos e pele bastente escura, conta: "para mim, a negritude nunca foi problema. E sim, orgulho. Talvez por isso meus filhos nunca tenham trazido para casa problemas relativos à cor da pele", diz o artista plástico Petrúcio Vieira.

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Jornal do Commercio
Recife - 04.07.99
Domingo