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DISCRIMINAÇÃO II
Pais têm de passar para os seus filhos a noção de beleza negra

Nas bancas de revista, cada dia mais publicações ostentam, em suas capas, rostos de modelos negros. Nos editoriais de moda, eles são freqüentes. Embora a publicidade e as artes no geral vivam um certo boom de descoberta da beleza negra, apenas 6,7% (dados do IBGE) dos negros brasileiros obtém sucesso em atividades artísticas ou técnicas.

E o número remete a um fenômeno relativamente recente. Apenas em 1987, segundo pesquisa da Unb (Universidade de Brasília), um negro apareceu em uma peça publicitária brasileira. "Agora estão redescobrindo a beleza negra", comemora a modelo pernambucana Marta Barros. "Quando eu era criança me chamavam de chocolate na escola, com um certo tom pejorativo. Quando iniciei minha carreira é que percebi minha beleza", diz a modelo, que apenas no final da adolescência veio tomar consciência de que negritude e beleza eram atributos compatíveis. "Hoje, tenho muito orgulho da minha negritude. Me sinto linda. Só aliso os cabelos por necessidades profissionais, e logo os coloco cacheados novamente".

"Há um momento na infância em que beleza é um refencial fundamental. Para as crianças, as coisas acabam se dividindo entre feio e bonito. Se pais negros não conseguem passar a noção de beleza de seus filhos e de si próprios para as crianças, elas podem ficar com barreiras", comenta a psicanalista Roberta Freyre Magalhães. "É comum perceber isso quando as crianças não querem que os pais as deixem na escola", exemplifica.

Uma análise mais remota demonstra que o posto de trabalho que a modelo Marta Barros ocupa no meio publicitário e de moda siginfica a reversão de uma mentalidade que privou os negros do direito à beleza durante séculos. Escravizados, tratados como objetos com o aval da própria Igreja Católica que admitia que índios teriam almas mas negros não, os afro-brasileiros não teriam direitos à beleza humana. "Durante muito tempo foi um atributo exclusivo dos brancos", afirma o historiador Severino Vicente. (B.A.)

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Jornal do Commercio
Recife - 04.07.99
Domingo