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DISCRIMINAÇÃO III Apartheid disfarçado no mercado de trabalho A estudante Zoumarroud, 23, a pequena Beatriz, 5, e o aluno de computação João dos Parezeres, 22, têm, além da condição racial, um outro aspecto em comum. Eles fazem parte de um seleto grupo de negros brasileiros cujas famílias tiveram condições de prepará-los para ingressar e ocupar bons cargos no mercado de trabalho. São todos de uma minoria de origem étnica negra que têm acesso a estudos que lhes capacitarão para a vida profissional. Antes de ser apenas um adjetivo, as estatísticas sociais demonstram o porquê deles serem tratados como minoria. Segundo pesquisas do IBGE, 60% dos afro-brasileiros são analfabetos. Antes de conhecer mais alguns números da realidade que ainda pretere os negros, é interessante retomar as histórias de nossos personagens: Zoumarroud foi a única negra nas salas de aula em que estudou. Beatriz, embora com a pele mais clara, também. E João é o único em sua turma da Universidade Católica de Pernambuco. Depois de formados, eles farão parte de dados, que, numa rápida amostragem, comprovam como o trabalho no Brasil ainda é segmentado segundo a cor da pele de sua mão-de-obra. No geral, os negros estão ligados a atividades braçais, mal-remuneradas e que exigem pouco preparo intelectual. Segundo o IBGE, 43,4% dos brasileiros negros estão em atividades extrativistas e agropecuárias, ou como mão-de-obra na indústria ou na construção civil. Pode não parecer à primeira vista, mas ao lutar para que seu filho obtenha uma bolsa de estudos no colégio particular em que trabalha, a faxineira que mora na periferia está ganhando pontos para que o pequeno não aumente essas listas. Pode parecer menos ainda, mas a faxineira está lutando também para reverter um processo histórico que marginalizou os negros no Brasil. Alforriados, os negros egressos do período escravagista não tinham preparo para encarar o mercado. O resultado é conhecido: os negros ocuparam os cortiços. E estes rapidamente se converteram em embriões das favelas que permeiam, hoje, as periferias do Brasil. "A libertação dos escravos ainda não aconteceu", afirma o historiador pernambucano Severino Vicente. "Isso só vai acontecer com a educação do povo. Mas a política de ensino no Brasil ainda é excludente, pois as escolas públicas possuem poucas vagas, difícil acesso e má qualidade". O historiador lembra que, no momento da libertação dos escravos, há mais de cem anos, todos os negros eram analfabetos. Daí o alto número de negros na lista do analfabetismo nacional. Outro aspecto também tornaria o poder político brasileiro uma espécie de trunfo da população branca. Apenas um século após a libertação dos negros, com a atual Constituição, os analfabetos tiveram direito de votar. O raciocínio é simples: os negros não tiveram acesso à alfabetização e analfabetos não votavam. Conclusão óbvia: negros não teriam direito à participação política. Na prática, funcionou como um apartheid um pouco menos explícito que o sul-africano. Os indicadores do IBGE revelam que apenas 6,7% dos negros estão em cargos administrativos e 1% deles têm condições de se estabelecer como empregador. Para atingir o topo da pirâmide social, é preciso vencer uma barreira que, segundo dados, faz com que os brancos tenham quatro vezes mais chances de concluir um curso superior do que os negros. Zoumarroud, Beatriz e João não sabem, mas estão, cada um à sua vez, ultrapassando essa barreira. (B.A.) |
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