![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
GOVERNO Mal interpretada ou não, a frase de Bresser acaba em polêmica por HUGO PORDEUS Mal-entendido ou puro preconceito? O ministro de Ciência e Tecnologia, Luiz Carlos Bresser Pereira, passou as duas últimas semanas explicando uma frase dita em entrevista ao Jornal da Ciência, publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "Se você quer investir em ciência no Nordeste, está colocando o capim na frente dos bois. Vai jogar dinheiro fora", teria afirmado Bresser. A declaração causou uma forte reação dos cientistas nordestinos. O ministro desmentiu o jornal, alegando transcrição distorcida. Segundo ele, a expressão foi "colocar o carro na frente dos bois", utilizada para argumentar que o financiamento em pesquisa no Nordeste era proporcional à potencialidade da região. "Se a pesquisa nos estados mais pobres é de menor qualidade, é inevitável que isso aconteça", disse, referindo-se ao fato de 80% dos projetos científicos - financiados pelo governo - serem do Sudeste. "O problema é saber como a gente muda isso. Não faz sentido financiar pesquisa que não seja de boa qualidade. Não é concedendo bolsas de pesquisa, tirando dos competentes e dando para os incompetentes", tentou consertar na mesma entrevista. O remendo foi pior do que o soneto e acabou revoltando ainda mais os pesquisadores nordestinos. O secretário de Ciência, Tecnologia e Meio-Ambiente de Pernambuco, Cláudio Marinho, procura minimizar o impacto da declaração desastrada de Bresser: "Já houve por parte do ministro um pedido de desculpas enviado aos cientistas (ver matéria abaixo) e acho coerente que esta retratação seja aceita. Pode ser a oportunidade para reafirmarmos nossa competência", acredita. Para o professor de Lingüística da UFPE Luiz Antônio Marcuschi, conselheiro da Facepe e secretário nacional da SBPC, o ministro possui uma mentalidade preconceituosa. "Ele desrespeitou o povo nordestino e seus cientistas, além de mostrar sua falta de preparo para o cargo que ocupa", exalta-se. Marcuschi sugere que Bresser peça demissão por falta de preparo ético. Em artigo no jornal online Clipping Virtual, o professor do Departamento de Comunicação Social da UFPE Paulo Cunha também rechaçou a atitude do ministro de Ciência e Tecnologia que, com suas declarações, estaria reforçando "o mito de que o Nordeste e seus habitantes são um peso para um Brasil pretensamente progressista, geograficamente representado por São Paulo e suas adjacências". Com um aumento de 10% no número de bolsas financiadas pelo CNPq - órgão de apoio à pesquisa do governo federal do qual Bresser é presidente -, o Nordeste detém 15% da produção nacional em Ciência e Tecnologia do Brasil. Por outro lado, embora tenha 28,5% da população brasileira, recebe apenas 14% das bolsas de pesquisa. Em uma das notas divulgadas pela assessoria do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), Bresser diz que o sistema de avaliação de qualidade dos projetos - feito pelos próprios cientistas - é o único responsável pela distribuição das bolsas. |
|