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NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Mulheres, dentro!

O repórter norte-americano Larry Rother, do "New York Times", me pergunta por que será que o futebol feminino não tem prestígio no Brasil? A resposta me ocorre, transparente como água de fonte: somos o país do futebol mas, antes, sempre fomos uma praça forte do machismo. O futebol chegou ao Brasil como "o velho e violento esporte bretão". A partir do conceito, nasceria o preconceito: se é violento, então, é esporte pra macho. Mulheres, fora! Não que se pretendesse menosprezá-las. A intenção talvez fosse até preservá-las como objeto de desejo.

Fiel à máxima secular, o futebol brasileiro, por um lado, inibia a mulher de jogar bola e, por outro, consolidava a fama, cada vez mais constrangedora, de ter um futebol jogado com rara violência; e com um agravante: violência inteiramente injustificável porque seus jogadores têm, com a bola, uma habilidade que nenhum outro jamais teve.

Hoje, o futebol feminino é uma grata presença nos campos daqui e lá de fora. No peito e na raça, as moças atropelaram a discriminação e aí estão a Sissi, a Rosely, a Kátia, a Pretinha, a encantar os estádios do mundo inteiro.

Então, volta a me perguntar o jornalista Larry Rother, - "Por que os estádios vivem tão vazios, ninguém vai ver jogo de mulher?" Na minha opinião, respondo, o futebol feminino ainda é vítima de uma comparação que lhe é amplamente desfavorável. Não dá pra confrontar as duas versões do jogo. O brasileiro está acostumado com o luxuoso futebol dos homens. As moças ainda terão muito que gramar até que cheguem a conquistar uma fatia do público que se formou à luz de sucessivas gerações de craques canonizados pela paixão popular.

Mas, ninguém tenha a menor dúvida: a mulher ainda há de chegar lá. Como chegou, ao longo do século, na maioria dos esportes olímpicos, com e sem bola. A Fifa está dando uma força total ao futebol feminino. No mundo todo, já se investe um bom dinheiro no futebol profissional de mulher. Alemanha, Noruega, Itália, França, China e, mais pra cá, Estados Unidos, todos esses países estão tocando projetos de grande porte pra fazer do futebol feminino uma das atrações dos espetáculos de massa no século vinte e um.

O machismo não perde por esperar

LANTEJOULAS E PONTAPÉS - As duas primeiras partidas do Brasil, na Copa América, me deixaram as seguintes impressões: contra a Venezuela, que não pertence à religião do futebol, a Seleção fez sete gols, espalhou lantejoulas pelo campo; contra o México, oscilou entre o razoavel, no primeiro tempo, e o sofrível, no segundo.

Estou escrevendo sem ter visto o jogo contra o Chile. Espero que Wanderley Luxemburgo tenha repreendido seus jogadores pelo despropósito das faltas cometidas nos dois primeiros jogos. Rivaldo deu um carrinho que não o recomenda como o craque que É. O volante Émerson, que tem seu valor, revelou-se um destemperado. Cafu provocou um cartão amarelo contra um rival que jamais mereceu uma falta pesada.

OS PÊNALTIS DA COMPAIXÃO - "O grandalhão Palermo, da Argentina, acaba de entrar, pela porta dos fundos, no Livro dos Recordes, com os três pênaltis mal chutados contra a Colômbia, na Copa América. O primeiro estalou na trave, o segundo passou acima do travessão e o terceiro, o goleiro espalmou. Foi um exemplo inglório de variações sobre o mesmo tema. A Argentina acabaria derrotada por 3 a 0.

O jogador errar um pênalti desaponta, todo mundo, mas é do jogo. Errar dois pênaltis ainda faz parte do jogo, mas já é de estranhar. Errar três, no mesmo jogo, passa a ser de tal modo extravagante que, em vez de provocar indignação, provoca justamente o sentimento oposto ao da ira, que é a compaixão, sinônimo de piedade cristã.

No terceiro pênalti, ao ver o desamparo daquela criatura, entregue à sua desdita, sem que ninguém o consolasse com um afago sequer, pensei nos caprichos da vida e tive medo.

RÁPIDAS E RASTEIRAS - Vinte e sete federações, mais 22 clubes, eis o tamanho da unanimidade que reelegeu Ricardo Teixeira, na CBF. Há casos em que a aclamação pega tão mal que, pra disfarçar, os cartolas bem podiam ter dosado a comédia com um ou dois votos contra. Se não aliviasse as consciências, quem sabe, teria salvo as aparências. ***** Pete Sampras fez com Agassi, na final, o que o dito Agassi fez com Guga, nas quartas. Não restou grama sobre grama, em Wimbledon. ***** Patrícia Medrado, comentando a final feminina, fez uma observação interessante: Lindsay Davenport é uma jogadora fora-de-série, mas a mídia não lhe dá a mínima bola. Tem razão. A imprensa prefere falar muito, e sempre, das pernas sensuais da Kournikova, do charme da Martina Hingis, da exuberência carnal da Venus Williams. ***** O Atlético Mineiro celebra um título de campeão que pode estar assinalando um novo tempo na sua vida. O Atlético está ingressando, corpo e alma, na era do futebol-empresa; e como é uma força popular avassaladora, sai da frente que o Galo vai cantar o novo século! ***** Uma coincidência que mortifica ainda mais o atacante Palermo, perdedor de trâs pênaltis, na Copa América: Gardel cantava um tango cujo primeiro verso diz assim: "Maldito seas, Palermo!" Palermo, no caso, é o hipódromo de Buenos Aires, onde o cantor perdia fortunas.

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Jornal do Commercio
Recife - 07.07.99
Quarta-feira