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Derrota social por FÁTIMA QUINTAS* A real começa a se esfacelar e o Brasil se encharca na dubiedade de atitudes. Ora isto, ora aquilo... Ninguém sabe por onde caminhar. Os deputados eleitos recentemente se embelezam para assumir o posto. Brasília se adorna com novidades na tentativa de encobrir a grande crise que afunda o país. FHC e o real têm a sua pior avaliação em São Paulo. O desvario econômico reduziu a popularidade do Presidente, empurrando-o para o seu nível mais baixo desde que ele assumiu o cargo pela primeira vez, em 1995. O povo se sente traído. A estabilidade do real, tão decantada durante a campanha da reeleição, afinal era mero regalo de uma noite de verão. Bastou aguardar alguns dias para deflagrar-se o estouro da boiada. Não me canso de perguntar: O que é o poder? O que faz com que homens mudem o comportamento e se transformem em pessoas desconhecidas contanto que as glórias de um status elevado permaneçam a referendar os seus passos? Ainda que as respostas me venham de uma forma estonteada não aceito as supostas argumentações. E insisto em indagar. Acho que todos se questionam. Não sou só eu a única a explicitar perplexidade. O Brasil está cheio de interjeições. De que valem os sussurros de alerta num calendário social extremamente ortodoxo em indefinições? É hora de dizer basta. Quem dirá? Os boatos se avolumam numa progressão geométrica. Não é de admirar. Um poder sem credibilidade acaba por gerar especulações desfavoráveis. Qual a segurança de um povo num país que já confiscou poupança, arruinou aposentados, desrespeitou cotidianamente a cidadania... Falar em direitos adquiridos equivale a contar uma boa piada numa mesa de bar repleta de sonhos frustrados. Pena que a vida passe a carta dia e que a irreversibilidade do tempo confira um sentimento forte de desencanto. Acreditar em quê? A sociedade brasileira se divide entre ricos e pobres, mais pobres que ricos, esses uma elite numericamente pouco significativa, porém sociologicamente avassaladora. A classe média não sobreviveu ensanduichada por entre os pólos da miséria e da riqueza. O sacrifício é imenso e não tem retorno. Velhos, crianças abandonadas, analfabetos, estiagem no semi-árido. São tantos os flagelos que não vale a pena elencá-los. Seria uma lista a mais na tabela dos fracassos. Qual a sedução de um poder tão transitório? A História, com letra maiúscula, não tem muito a contar. Poucos, pouquissímos são os que preservam a austeridade em favor do coletivo. A cultura da vantagem supera qualquer predominância de valores éticos. É uma pena. É uma pena que o poder destrua mentes, aniquilando um código de honra que deveria fazer parte da humanidade. Onde andarão os homens neste país campeão de derrotas sociais? Ninguém se comove diante do choro da criança, o bastante é lucrar de alguma forma com a iniqüilidade instalada. Não consigo assistir a débâcle de uma nação sem que isto me toque no fundo da alma. Mais ainda quando esta nação represente todo o meu patriotismo. Vejo-me dilacerada por dentro; tenho forças, todavia, para segurar rosas. E seguro-as num apelo aos que se tornaram insensíveis. Estou só no deserto que escolhi para refletir o meu silêncio. Trago uma caneta na mão e palavras que me servem para dizer alguma coisa. Talvez seja muito. Muito mais do que eu imagino. Será que eu tenho a liberdade de pensar ou os limites da minha capacidade se esvaíram na correnteza das dúvidas que me impelem a lágrimas? Carrego nos olhos o quadro da fome e me desespero. Não. Não posso acreditar que esta humanidade despreze os seus próprios homens em nome de um efêmero poder. Saio por aí à procura de semelhantes, gente igual a mim, dotada da mesma dose de esperança que um dia menina me ensinaram a cultivar. É preciso amar, com entusiasmo, a rosa que eu seguro na certeza de percorrer o mundo atrás dos homens. Hei de encontrá-los. Então serei feliz. Deixarei no meio da estrada as emoções que me fizeram escrever esta crônica e voltarei refeita com as mãos a transbordar ramalhetes. Alimento a consciência de que não está longe o meu pálido querer. Que a visão profética corresponda a uma realidade próxima e não se dilua no púlpito da soberania. * Fátima Quintas é antropóloga da FJN |
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