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CARNAVAL
Novo percurso não tira o brilho das Virgens

por JOMERI PONTES

Antiguidade é posto e tradição é tradição. Fazendo-se valer do dito popular, as Virgens do Bairro Novo, de Olinda, mantiveram a escrita de arrastar, há 46 anos, uma incalculável multidão pelas ruas de Olinda, ontem, na abertura oficial do Carnaval da cidade. Ah, não importa se mudaram o percurso, se o patrocinador é apenas um solitário escudeiro, se a estrutura não é profissional. O que conta é a espontaneidade, a criatividade, a irreverência, a descontração, o escracho e a participação do povo no desfile do bloco. E isso, indiscutivelmente, as "moças" do Bairro Novo têm, e de sobra. Sensuais, na idade da loba, com tantos anos de avenida? "Claro! Afrodite, meu bem, se contorceria no túmulo ou morreria de inveja se descesse à Terra e visse tamanha expressão de liberdade", dizia uma ousada - e abusadíssima, é claro - virgem.

E foi assim, nesse clima de redundante euforia que as Virgens do Bairro Novo foram chegando para mais um desfile. Elas escracharam com suas cores, tecidos e designs variadíssimos de um guarda-roupa pra lá de criativo, com brilho para todo lado e performance teatral no asfalto de causar inveja a quem apenas se limita a repetir manjadas coreografias. "As Virgens são isso. Uma explosão de espontaneidade. Em que outro bloco você vê algo assim?", indagava, eufórica, Babalu, uma "quase-virgem", pois nunca desfilou oficialmente pela agremiação, mas se coloca como uma "defensora" das coisas de Olinda, "incluindo as Virgens do Bairro Novo, obviamente", dizia, orgulhosa.

De fato, com exceção de uma alusão ao escândalo sexual do milênio, envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e a estagiária da Casa Branca, Monica Lewinsky, teve de tudo, mas de tudo mesmo, no 46º desfile das "meninas" do Bairro Novo. Desde as críticas sociais, com as sobreviventes da fome e da seca nordestinas, a expansão da prostituição via disk-sexo e a lavadeira que não tem água da Compesa em casa até às espertalhonas "tiazinhas".

Não faltaram, também, aquelas que queriam apenas debochar mesmo, como o hilário grupo "Anus douradus", a "tiazona", com seus 165 quilos; as "quengaceiras do universo", o grupo "É o tchan de Olinda", a cachorra, a vaca, as noivas, as diabas, a cinderela, a Carmem Miranda e tantas outras que iam surgindo e botando pra funcionar a imaginação da multidão presente. O resto, bom, o resto foi folia só. Afinal, em Olinda, não precisa muito para se fazer um autêntico, puro, genuíno e grande Carnaval.

CONCURSO - Passava das 17h quando o desfile das meninas foi chegando ao seu apogeu. São Pedro bem que tentou, mas a chuva não conseguiu apagar o fogo de nenhuma das debochadas. Pelo contrário, serviu como uma injeção de ânimo para quem já estava "desmontando" após horas sob o sol. Em frente ao Mercado Eufrásio Barbosa, os trios elétricos encerravam suas apresentações. Os foliões, ao invés de tomarem o rumo de casa, voltavam para o local de início do desfile, buscando mais música.

Como exceção e regra nem sempre andam juntas, predominou a segunda. As virgens quase cinqüentonas, mais uma vez, escracharam na avenida com, digamos assim, um pouco de desorganização. Ansiosas, as "meninas" do Bairro Novo chegaram ao final do desfile reclamando da demora na divulgação das fantasias vencedoras. Resultado que só saiu no início da noite.

Colaborou Thales Cabral

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Jornal do Commercio
Recife - 08.02.99