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CRISE CAMBIAL Feira do Paraguai com os dias contados por RICARDO
PERRIER CARUARU - A Feira dos Importados, ou do Paraguai, que, ao lado da Sulanca garante a sobrevivência de uma importante parcela de trabalhadores da economia informal deste município, pode estar com os dias contados. Pelo menos esta é a previsão sombria da maior parte dos feirantes cadastrados pela prefeitura. A desvalorização do real causou uma redução de 90% nas vendas durante o mês de janeiro. Preocupados, muitos feirantes já pensam em mudar de ramo, por não encontrarem vantagem em negociar produtos importados diante da oscilação do câmbio. Ocupando há dez anos uma área de 8.000 metros quadrados no estacionamento de lotações do Parque 18 de Maio, a Feira do Paraguai, como se tornou mais conhecida, conta hoje com mil barracas cadastradas pela prefeitura. A estimativa é de que dela sobrevivam direta e indiretamente pelo menos três mil pessoas, apenas na cidade. Quando o real se equivalia ao dólar, a média de vendas das barracas por cada feira alcançava R$ 1.000,00, valor que chegava a duplicar em algumas feiras do mês de dezembro, quando tradicionalmente se registram as maiores vendas durante o ano. De acordo com os feirantes, atualmente a maioria das mercadorias encontradas na feira corresponde à sobra de estoque das compras para o final de ano. Diante do aumento do dólar, a categoria considera inviável buscar produtos no Paraguai, diante do alto custo de viagem e a pequena margem de lucro que teria em relação aos produtos similares da indústria nacional. "A tendência é falir, pois a margem de lucro diminuiu, não chegando a 15% no valor de cada produto. Se eu negociasse com produtos nacionais, essa margem subiria para 30%", lamentou C.D.F., 31, morador do loteamento Sol Poente, que negocia com material escolar, aproveitando o período de retorno às aulas. O vendedor de CD, J.A.J., 22, que já negociou com brinquedos, relógios e produtos eletrônicos, explicou que sua mercadoria ainda é uma das poucas que consegue ter saída, diante do alto preço oferecido pelas lojas. No Paraguai cada unidade, independentemente do artista, sai a US$ 1,80, US$ 2,10 e US$ 2,20, no caso dos lançamentos. Mesmo com a alta do dólar, o preço final ao consumidor aumentou de R$ 5,00 para R$ 6,00, no caso dos CDs mais baratos, o que acabou causando uma retração menor nas vendas, chegando a 20% desde o início da crise. SÍMBOLO - A incerteza diante do futuro, de quanto tempo ainda poderão negociar com mercadorias importadas do Paraguai, só não é maior do que o medo que cada feirante tem em se identificar. N.E.J, 38, disse que, antes da crise, chegava a comprar produtos em grosso, não dando descanso para o "laranja" - indivíduo responsável pela compra no Paraguai. "Assim que ele (o laranja) voltava da viagem eu renovava o pedido de novas mercadorias, para atender a demanda que era grande. Agora para sobreviver tive que diminuir minha margem de lucro e reduzir os pedidos", explicou, admitindo a possibilidade de mudar de ramo após o Carnaval. Se durante os bons tempos do Plano Real o presidente FHC elegeu o frango como o símbolo da melhoria do padrão de vida das camadas mais pobres da população, os artigos eletrônicos representam hoje o símbolo da decadência no comércio de produtos importados. Nas bancas das feiras do Paraguai sobram aparelhos de som, radiogravadores e ventiladores à espera de comprador. "O preço é quase o mesmo da loja, onde encontramos produtos de marcas conhecidas e ainda com a vantagem de ter a garantia dos fabricantes, por isso considero normal essa queda no movimento na feira dos importados", ressaltou o estudante Ricardo Henrique Pereira da Silva, 19, morador do bairro Maurício de Nassau. Desesperados com a queda nas vendas, alguns feirantes já pensam em mudar de função no mercado de produtos importados. "Do jeito que está, é preferível que cada comerciante assuma o papel de laranja, mesmo assim correndo o risco de ter prejuízo, pois desde a desvalorização do real, até mesmo para os laranjas o mercado está parado", desabafou J.A.C, 42. Em seu caso, ele garante que a venda dos produtos eletrônicos tornou-se inviável. Para quem negocia com relógio, as vendas registraram uma queda de 80%, desde a desvalorização da moeda. Um reflexo da crise pode ser sentido em relação ao trabalho dos "marreteiros", como são conhecidos os ambulantes que revendem relógios por conta própria. "Antes da crise eles pagavam no ato do pedido, agora esse comércio funciona por consignação, onde a confiança no cliente é o que conta para evitar surpresas desagradáveis", explicou R.D.S. Ele garantiu que o prejuízo do setor foi ainda maior, pois geralmente a venda era feita em grosso, sempre aos comerciantes que atuam nas feiras livres dos municípios vizinhos, que sumiram do mercado, desde a desvalorização da moeda. |
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