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AÇÃO VIII
Campanhas conseguem reduzir cesáreas

As discussões em torno do trabalho das parteiras intensificam-se neste final de século porque é cada vez maior a mobilização da sociedade em defesa dos partos normais. Pela primeira vez em 30 anos o Brasil conseguiu baixar seu alto índice de cesarianas e, assim, deixar de ocupar o primeiro lugar no ranking de países que realizam o maior número de partos cirúrgicos. Em 1998, o percentual de cesarianas feitas em hospitais públicos caiu de 36% para 28% (deixando cada vez mais longe os vergonhosos tempos em que chegou a 80%).

A redução deve-se às insistentes campanhas sobre os benefícios do parto normal lançadas pelo governo e pelas organizações não-governamentais e, principalmente, à pressão do Ministério da Saúde, que limitou a 40% o número de cesarianas pagas com o dinheiro público e igualou o valor pago por partos normais e por partos cirúrgicos através do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o limite ideal de cesarianas é de 15%, o que significa que, apesar de estarmos no caminho certo, ainda temos muito o que trilhar para atingir o índice máximo recomendado pela instituição. Embora pesquisas do Ministério da Saúde indiquem que a cesariana traz até sete vezes mais riscos à parturiente e a seu bebê, continua alto o número de mulheres e de médicos que optam pelo parto cirúrgico.

A moda ganhou corpo nos anos 70, quando ter um filho através de cesariana era sinônimo de modernidade, praticidade e intelectualidade. As dores do parto normal eram coisa de um passado selvagem que havia sido apagado pelo hábil bisturi do obstetra. Nada mais chique do que escolher a data e a hora do nascimento, fazer um mapa-astral perfeito. Tão prático que podia ser marcado na agenda.

Quase três décadas depois, o parto cirúrgico soa bem menos atraente, mas ainda leva à mesa de operação milhares de brasileiras, principalmente nas maternidades particulares. Neste segmento, as razões para a prática podem ser resumidas em dois pontos: praticidade, e, claro, dinheiro.

É famoso o procedimento médico de indicar cesarianas simplesmente para manter a agenda organizada e o final de semana livre. Membro da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de Pernambuco (Segope), o médico Raimundo Feitosa admite que muitos especialistas realizam partos cirúrgicos por comodidade. "Muitos destes médicos trabalham em dois ou três lugares, logo não conseguem passar 12 horas 'partejando' uma mulher. Outros preferem marcar porque assim reúnem sua equipe, o anestesista, o enfermeiro. No caso de um parto normal, seria muito difícil conseguir isso", explica.

Os hospitais particulares, por sua vez, têm interesses financeiros envolvidos. Para receber uma mulher que optou por um parto normal, cobram em média R$ 1.800,00. Já uma mãe que se submete a uma cesariana precisa desembolsar cerca de R$ 2.800,00. Nos dois casos, as despesas com o médico não estão incluídas.

"Segundo Feitosa, outro fator de peso é o fato das próprias mães optarem pelas cesarianas, mesmo com as explicações médicas a respeito do maior risco de infecção (as mulheres cesariadas correm risco de desenvolverem infecção puerperal, uma ferida séria no útero, no local do corte) ou mesmo de trombose.

A situação preocupa, mas, a exemplo do que se vê nos hospitais públicos, está mudando. "As mulheres começam a perceber que não é mais chique ter filho por cesariana. É como a opção de fumar ou não: se antes era charme, hoje é visto como vício. O parto normal, tido como opção de quem não tinha dinheiro, está sendo adotado pelas mulheres mais informadas", diz Suely Carvalho, presidente da ONG Cais do Parto.

"Ela também revela que não só as próprias mães, mas alguns hospitais particulares já estão começando a defender o parto normal como opção principal. "O Albert Sabin está formando grupos de mães para discutir estas questões, o que é importante, embora insuficiente", diz.

Suely lembra que essa mudança de postura é resultado, em parte, das comissões formadas pelo Ministério da Saúde para tentar reduzir o número de partos cirúrgicos nas maternidades particulares de 80% para 20%. O trabalho faz parte do programa Maternidade Segura, que vai conceder às clínicas que diminuírem o percentual de cirurgias um selo de qualidade e um diploma de excelência. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 09.05.99
Domingo