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A vida nos mercados é uma feira por LEONARDO SPINELLI Entrar num mercado público da cidade é viajar no tempo. "É como voltar ao passado, ou como ver o tempo estagnado", analisa o professor universitário Cláudio Lísias, ao cortar o cabelo na barbearia de Eduardo Andrade, que trabalha no Mercado da Encruzilhada há mais de 30 anos, sempre assim, cortando cabelo e jogando conversa fora com os clientes. São as pessoas que dão luz aos mercados, com suas conversas sobre o cotidiano, que se fundem numa massa uníssona: histórias fantásticas, casos banais. É o lugar dos amigos. "Sempre encontro com os meus companheiros aqui, para beber e conversar", diz o funcionário público Jamaci Leite, ao lado dos `cumpadres' de longas datas. Jamaci fala do estabelecimento do comerciante português Manuel José Alves, o Bragantino, também no Mercado da Encruzilhada. Apesar de relativamente novo no local (são 10 anos em funcionamento), o restaurante do português Manuel Alves, é o ponto de encontro dos antigos boêmios, que hoje trocaram as noites pelos encontros de sábado de manhã. Clientes famosos, o português tem, como o prefeito Roberto Magalhães, vereadores e profissionais liberais. "O segredo é o atendimento e a boa cozinha, que mistura a feijoada brasileira com o bacalhau lusitano", afirma o proprietário, como se fosse fácil definir o segredo do sucesso. Nas conversas com os comerciantes, um observador mais atento pode notar semelhanças engraçadas. É fácil encontrar nestes lugares doutores sem diploma, calejados pelos conhecimentos empíricos da vida. O vendedor de peixe Fernando José Alves é um economista de mão cheia. Naquilo que lhe diz respeito, fala com bastante desenvoltura. "O peixe fresco está caro atualmente porque a oferta é pouca e a procura está grande", explica. Segundo ele, o tempo chuvoso e os ventos fortes atrapalham o ofício dos pescadores, que muitas vezes deixam de ir em alto mar, por falta de condições climáticas. Médicos também não faltam nos boxes. "Aqui temos remédios para todas as doenças, menos para a Aids", afirma Márcio Tavares, filho de dona Ceça Tavares, dona de seis quiosques especializados em ervas medicinais e assuntos correlatos (como produtos para umbanda e cachaças de pau-dentro, as famosas garrafadas). Sem nenhuma cerimônia eles fazem seus diagnósticos para as mais variadas doenças. É só parar alguns minutos na frente de um destes boxes para presenciar as `consultas'. De repente chega uma senhora reclamando de cálculo na vesícula. Fala a família Tavares: "O bom é semente de carnícula. Primeiro quebra e ferve em água e depois passa na peneira. Toma o chá duas vezes ao dia". Minutos depois, outro senhor vem reclamando de prisão de ventre: Garrafada de quebra-faca é a prescrição. Se o que aflige a cabeça é assunto emocional, esqueçam os psicólogos. O melhor é dar uma chegada nos boxes de produtos de umbanda. Ou quase, pois se depender da comerciante Quitéria Maria do Nascimento, macumba, nunca mais. Ela vive um dilema. Quer se tornar envangélica, mas ao mesmo tempo não pode largar seu estabelecimento. Resolveu, então, parte da questão, substituindo aos poucos os produtos de umbanda por ervas. Mesmo "arrependida", não há melhor pessoa para conversar sobre macumba, que dona Quitéria. "Chegam pessoas querendo dar fim ao vizinho, ao marido, desatar casamentos, conquistar o homem amado. Eu oriento como elas tem de fazer o despacho. Mas não está certo", fala resignada, cercada pelas imagens dos mais variados exus e pombas-giras. "Você acredita que este pó pode fazer alguma coisa?", pergunta, mostrando os pozinhos `mágicos', chamados de chama-homem, corre-corre, chega-te a mim, etc. Na Madalena, o mercado pode ser uma grande diversão para a criançada, devido ao grande número de boxes (27 ao todo) dedicados aos animais. São dos mais variados tipos, desde os mais comuns aos mais exóticos. Mesmo assim, ainda há espaço para os itens tradicionais (carnes, temperos, frutas, artesanatos...) e também para os inesperados. O comerciante Antônio Tenório Vila Nova, trocou há dez anos o ramo do açougue por produtos eletro-eletrônicos. Em sua pequena loja, encontra-se de tudo, desde os aparelhos de som até máquinas de xerox. "Tudo 30% mais barato que o preço de mercado", assegura Vila Nova. Pechinchando o desconto pode cair para os 50%. Nada que uma boa lábia não possa resolver. Todos os comerciantes vivem ou viveram a maior parte de suas vidas nestes lugares. É comum encontrar pessoas com relacionamentos de mais de três décadas com estes mercados. É o amor em estado bruto. "Não posso ficar em casa, sem isto aqui", revela o comerciante Dario Valois da Rocha, mostrando com orgulho uma comenda do prefeito da cidade, parabenizando-o por ser o locatário mais antigo do Mercado de Casa Amarela. São 82 anos de vida, dos quais 50 dedicados à sua loja de "miudezas e perfumaria", como diz. Seja para comprar, vender, passear, beber com os amigos, os mercados estão aí, vivos e fazendo a cidade viver. |
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