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COMPANHEIROS
Muito mais que um animal de estimação

Quando a pequena Joyce chegou pela primeira vez no lar da química Cristiana Lapenda, 35, ohares curiosos e muita euforia a deixaram assustada. Sua reação imediata foi conhecer todos os ambientes da casa e seus moradores. Mas, no momento em que Cristiana e Joyce foram apresentadas, foi paixão à primeira vista. Daí por diante, a química abrigou a cadelinha poodle toy, cuidando dela com tanto afinco como se fosse um de seus próprios filhos.

O animal foi dado de presente de Natal aos filhos de Cristiana por sua sogra. "No começo foi aquela algazarra, todo mundo queria fazer carinho na Joyce, mas depois ela escolheu o seu dono. No caso, eu fui a eleita", revela, com satisfação. Desde então, as atenções vem sendo dividas entre a família - marido e dois filhos - e o tratamento da cadela. "Hoje em dia, considero-a quase como uma filha".

Fora os cuidados normais de alimentação, vacinas e banhos regulares, Joyce recebe tratamento especial, como tosas e roupinhas para passeio. Por morar em apartamento, o luxo é redobrado. Quase sempre seu lugar de dormir é o mesmo das crianças. E apesar de um de seus filhos ser alérgico, Cristiana garante que nunca teve problemas de saúde na família decorrentes do contato com o animal. "Fiz exames de alergia nos meus filhos e graças a Deus eles não são alérgicos a pêlo de cachorro. Se isso acontecesse, claro que eu e meu marido optaríamos pela saúde dos nossos filhos, mas ia ser muito difícil ter de dar a Joyce para outra família".

CUIDADOS - O alergologista Paulo Serpa chama a atenção para as pessoas que já apresentam sintomas de rinite alérgica e asma. "Essas são as mais prejudicadas com a presença de animais domésticos em suas residências, já que a sensibilidade aos pêlos que cães e gatos eliminam no ambiente ocorre com relativa freqüência", revela, condenando, principalmente, aquelas pessoas que costumam dormir com o animal ou fazer carinhos exagerados, como cheirá-lo e beijá-lo na boca. Segundo o médico, essa sensibilização muitas vezes é relativa aos produtos de degradação dos pêlos, bem como às descamações cutâneas e aos alérgenos contidos em suas salivas e urina.

Nesse caso, o dermatologista Carlos Alberto Peixoto Agra também manda um alerta: as micoses são as doenças de pele mais constantes, adquiridas, geralmente, através do contato direto com o animal. Mas, nada que alguns cuidados não resolvam. A dermatofitose, por exemplo, reconhecida pelas lesões concentradas de boros avermelhados e centro claro, causando muita coceira ao paciente, é facilmente evitada com a higienização constante do animal de estimação.

"Se o bicho convive dentro do lar, é importante mantê-lo sempre limpo e com as vacinas em dia. O máximo que puder, evite o contato dele com animais de rua, grandes proliferadores de fungos e até de doenças mais graves, como a leishmaniose, que causa feridas com difícil cicatrização", aconselha o dermatologista. Outra dermatose bastante comum é a adquirida no contato com as fezes do animal, provocando uma lesão em forma de caminho, que também incomoda bastante com as coceiras. No geral, o tratamento é simples, porém mais eficaz quando realizado com rapidez.

O alergologista, no entanto, é mais imperativo no que diz respeito à convivência debaixo do mesmo teto entre o animal e a pessoa que estiver em tratamento alérgico ou com crises de asma: "aí, realmente, o animal deve ser afastado do ambiente doméstico, não podendo entrar dentro de casa nem por curtos períodos". No caso de quem mora em apartamento, os cuidados com a higienização do bicho devem ser redobrados. Ele deve tomar banho pelo menos uma vez por semana, ser tosado e afastado definitivamente do quarto de dormir.

COMPANHIA - O velho ditado "o cão é o melhor amigo do homem" pode muito bem definir a maioria das relações entre os animais domésticos e seus donos, mas não reflete a importância, em certos casos, desta convivência para o bem estar e até mesmo para a educação de crianças e adolescentes.

Com dois esquilos e três cachorros, o estudante Danilo Costa aprendeu a ter novos amigos. Seus animais, em destaque a cadela Jade, ocupam um lugar especial no chamado quadro de amizades. "Ela dorme embaixo da minha cama e me conhece melhor do que muitas pessoas. É, com certeza, uma das melhores companhias da minha vida", afirma.

A psicoterapeuta de crianças e adolescentes Lúcia Helena Macêdo, 42, acredita que essa relação em equilíbrio, ou seja, na medida certa de intimidade, promove o crescimento das pessoas, em especial das crianças, porque acaba incutindo alguns valores, como responsabilidade e educação no dia a dia. "Uma criança que ganha um cachorrinho ou um gato, com o apoio e orientação dos pais, pode começar a desenvolver mais a responsabilidade, adquirida com o próprio cuidado ao animal".

O respeito à vida e à natureza também são destacados, já que as crianças começam a perceber as necessidades do animal e suas limitações. "Os pais podem aproveitar este contato com o animal e educar as crianças, mostrando que ele não é um brinquedo, e passando, inclusive, noções sobre biologia e ecologia. De acordo com o momento, também se trabalha as fases da vida, como nascimento, crescimento e morte", explica.

No caso de considerar o bicho como um amigo ou qualquer espécie de remédio anti-solidão, a psicoterapeuta só abre ressalvas no que diz respeito aos exageros. "Uma coisa é você gostar de um animal e de estar com ele; outra coisa é você só ter ele como amigo e por esse motivo não conseguir se relacionar com pessoas. Quando o animal passa a servir como substituição de afeto, a relação é negativa, e um contato com um profissional é aconselhável", revela.

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Jornal do Commercio
Recife - 05.09.99
Domingo