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NEGÓCIOS
Modelo da Microsoft começa a desabar

por CLÁUDIO MACHADO
Especial para o JC

Uma das notícias mais esperadas do mês passado foi a oficialização da compra da Star Division pela Sun, anunciada para o dia 31. Na realidade, o que todos gostariam de saber era qual seria a estratégia da Sun para o Star Office, principal produto da SD. Os analistas mais argutos já previam que a Sun estaria, com isso, fortalecendo sua JavaStation, estendendo seus braços para o mercado de desktops. Mas o que aconteceria com as versões do Star Office para Windows, Linux, OS/2 e Mac? Ninguém tinha certeza de nada.

O resultado foi a liberação do Star Office para uso tanto pessoal quanto comercial sem custos com licenças. Mais do que isso, o código do Star Office foi liberado para a comunidade de desenvolvedores. Isso garante que o produto continuará sendo desenvolvido.

Ao saber da decisão da Sun, Eric Harlow escreveu um artigo com um título bastante interessante: `Como o Mundo é Divertido ou Porque o Reino da Microsoft Acabou'. O título do artigo, disponível na Internet, traduz literalmente o que pensa o autor. Muitos discordam dele sem querer entender seus argumentos. Eu concordo com Harlow, mesmo sem ser futurólogo.

Gostaria de salientar nesse breve artigo porque também acredito que o reino do `tio Bill Gates' está perdendo fôlego. Na minha maneira de entender, a Microsoft não dará vez a uma outra empresa monopolista que dominará o mercado com a mesma abrangência e poderio de marketing (tem gente por aí pensando que Linux é nome de uma nova empresa...).

Sendo mais explícito, acredito que o que está ruindo é o modelo de informatização que muitas empresas oferecem. Entre elas, a Microsoft. A MS cresceu junto com o PC (desktop) e com o modelo de software proprietário. O que assistimos, diria até que participamos, é uma mudança de paradigmas, usando o conceito do historiador da ciência Thomas Kuhn no livro Estrutura das Revoluções Científicas. Do modelo de desktop isolados (PC's) para o modelo de rede (networking). Também do modelo de software proprietário para o modelo de software aberto (open source). Isso não é novo e vem se consolidando aos poucos.

A Sun é um dos principais atores (senão o principal) da defesa do paradigma da networking. Há anos tem como mote `The networking is the computer'. Para fortalecer esse modelo tem criado várias soluções, vide Java. O modelo de código aberto tem como marco fundador o Projeto GNU idealizado por Richard Stallman em 1984.

A comunidade que apóia os projetos de código aberto não é homogênea - existem diferenças e sutilezas entre projetos como o Linux e o FreeBSD, por exemplo. Mas a matriz de todos esses projetos é a idéia de que o conhecimento deve ser compartilhado e distribuído livremente, por ser um bem da humanidade. A indústria de software, ao contrário, defende que esse mesmo conhecimento deve ser protegido como segredo comercial.

Esses dois modelos estão conquistando cada vez mais espaço. Espaço antes de empresas como a Microsoft. A Internet é uma realidade, ninguém tem dúvidas disso e softwares abertos como o Linux, Apache e agora o Star Office estão atraindo cada vez mais os usuários domésticos e empresas.

Por coincidência, o dia 31 de agosto era também o último dia de trégua da ABES para os piratas. Agora eles pretendem aumentar a fiscalização nas empresas. Isso é correto e deve mesmo acontecer, principalmente porque o Brasil tem sofrido muita pressão externa para que se diminua o percentual de pirataria de software, música e vídeo.

Com a liberação do Star Office, muitos gerentes de TI devem estar soltando fogos, apesar de confusos com esse `Admirável Mundo Novo' dos softwares abertos. Os escudeiros de B. Gates estão esperando alguma resposta da Microsoft. Eu fico me perguntando: Será que a Microsoft conseguirá dar uma resposta? Talvez sim: Microsoft Linux.

SERVIÇO

www.bcpl.net/~eharlow/shift.html

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Jornal do Commercio
Recife - 08.09.99
Quarta-feira