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GRÃ-BRETANHA
Quando o cenário não é mera ilusão

por FABIANA MORAES

Das descoladas e charmosas ruas do Covent Garden, em Londres, onde Audrey Hepburn realizou parte das cenas de My Fair Lady, passando pela fria e caótica Sheffield de The Full Monty (Ou Tudo ou Nada) até chegar aos imponentes castelos vistos em Hamlet, filmado na Escócia, as paisagens, esquinas e montanhas da Grã-Bretanha vêm sendo palco de dezenas de filmes realizados nos últimos anos na terra-mãe dos Sex Pistols. As produções, sejam elas clássicas, tímidas ou arrasa-quarteirões, mostram as diversas facetas de um país que conseguiu se firmar como um dos cenários mais procurados pelos grandes estúdios em todo o mundo.

A mais nova cria dessa safra é o romântico-engraçadinho Notting Hill, estrelado por Hugh Grant, inglês até o último fio de cabelo, e a norte-americana Julia Roberts. O bairro não foi escolhido para ser o ponto de partida do romance por acaso. Ali funcionam milhares de lojas e barracas (cerca de duas mil) off price, com artigos diferenciados como luvas cor-de-rosa e sapatos de cetim laranja. A grande atração local é, sem dúvida, a Portobello Road, mercado de flores (uma das principais cenas do filme), roupas, livros e bugingangas que atraem milhares de pessoas, entre moradores da região e turistas.

O mercado funciona desde 1837, e é um oasis para colecionadores de antigüidades, pinturas e jóias. A visita às barracas é válida tanto para quem vai às compras quanto por aqueles que querem conhecer uma Londres menos aristocrática, mais bagunçada e humana. "Vê-se de tudo em Portobello Road. Os alternativos de cabelo colorido, velhinhos passeando, donas de casa comprando frutas e verduras", conta a estudante Sandra Carvalho, que aproveitou suas andanças pela região para comprar roupas num dos inúmeros brechós.

O carnaval caribenho de Notting Hill, realizado anualmente durante um final de semana de agosto, também é muito famoso em todo o país. Os latinos chegaram ao bairro por volta dos anos 50 e 60, e ali formaram uma das comunidades mais alegres da região (não há dúvida que eles são grandes responsáveis pela fama de alto astral do lugar). Curiosidade: os Beatles também percorreram as ruas de Notting Hill em A Hard Day's Night, além de se espalharem pelo Gatwick Airport e o Turks Head Pub.

Outro famoso filme que utilizou os mercados londrinos como pano de fundo é o clássico My Fair Lady, de George Cukor, baseado num musical de Bernard Shaw. Nele, Audrey Hepburn é uma caipira vendedora de flores que, descoberta enquanto trabalha no Covent Garden, vira uma cantora famosa e, como de praxe, chiquérrima. O diretor não poderia ter sido mais feliz na escolha de sua locação. O antigo mercado de frutas e legumes é um dos pontos mais interessantes de Londres, sempre repleto de vendedores de batatas recheadas (as jack potatos, vendidas com diferentes tipos de recheios), artistas de rua, artistas de circo, comerciantes de artesanato.

A primeira praça londrina, a Piazza, projetada por Inigo Jones em 1630, fica na região, e costuma aglomerar centenas de visitantes durante todo o dia. Outro famoso local é o Royal Opera House, edifício vitoriano projetado em 1858 onde Wagner apresentou pela primeira vez sua ópera O Anel dos Nibelungos. Contraditoriamente, o Royal foi transformado num mero depósito durante a Primeira Guerra Mundial. A soberba casa instalada bem ao lado de um mercado (o citado Covent Garden) inspirou Bernard Shaw a escrever Pigmalião, que deu origem a My Fair Lady.

O premiado Sheakspeare in Love, de John Madden, foi rodado em diversos pontos históricos da Grã-Bretanha, incluindo o Broughton Castle, em Oxfordshire, Hatfied House, o Great Hall no Middle Temple e a famosa Marble Hill House, construída em 1729 para a amante de Jorge II. A casa está repleta de quadros de William Hogarth, e dá vista para a casa de Richard Wilson, considerado o pai da pintura de paisagens da Inglaterra.

PELADOS - Uma das comédias mais populares realizadas recentemente na Inglaterra, The Full Monty (1997) conseguiu atrair a curiosidade do mundo para a simpática Sheffield, até então conhecida apenas por produzir a maioria do aço empregado na indústria mundial (lembra do made in Sheffield gravado atrás dos talheres?). Com a ascensão do aço asiático, a cidade entrou em decadência e milhares de pessoas perderam seus empregos.

Misturando ficção à realidade, o diretor Peter Cattaneo registrou as agruras de um grupo de amigos que tentam conseguir dinheiro (e respeito) trabalhando como strippers. A produção mostra uma cidade cinza, entristecida, mas repleta de tipos curiosos e hilariantes. Apesar de não ter lugar na Sheffield de Cattaneo, a cidade guarda boas supresas para seus visitantes, tendo como estrela principal o Peak District, parque de montanhas a minutos do centro de Sheffield. Freqüentado por moradores de todo distrito de Yorkshire, o parque possui cemitérios antigos, lagos, cachoeiras e chalés de pedra, e costuma atrair alpinistas e adeptos de trekking, além de legiões de famílias com suas cestas de piquenique.

MONTANHAS - Um dos maiores trunfos geográficos bretões são as chamadas highlanders, regiões montanhosas localizadas na Escócia que, volta e meia, aparecem em cenas grandiosas na telona. Já filmaram por ali astros como Sean Connery, Mel Gibson, Richard Gere, Glen Close e, claro, Cristopher Lambert (que desgraçadamente realizou Highlander 2, um das maiores bobagens registradas numa película).

"Além das Terras Altas, a Escócia ainda abriu espaço para produções como Asterix and Obelix vs. Caesar, em Balnakeil Bay, e Local Hero, com Burt Lancaster, numa mostra da versitilidade "pano de fundo" da região. As cenas de um dos filmes mais comentados dos últimos anos, Trainspotting, foram realizadas em Edinburgh, cidade de ares sombrios, cercada por castelos e casarões antigos.

O estudante Fábio Queiroz, 22 anos, visitou a cidade há cerca de três anos, enquanto cursava uma escola de inglês. "Os escoceses são bastante simpáticos, agradáveis, ao contrário da maioria dos londrinos. Edinburgh é pequena, é possível conhecê-la em apenas dois dias", conta Fábio, lembrando que outras boas surpresas da cidade são as hospedagens baratas e as generosas porções de comida.

Apesar de não ser focada no filme de Danny Boyle, Edinburgh guarda outra característica forte: a de cidade de fantasmas, cheia de espíritos medonhos e pouco simpáticos. Existem os famosos circuitos por castelos mal assombrados, realizados sempre à noite. Num desses locais, inclusive, foi feito O Segredo de Mary Reilly, onde Julia Roberts e John Malkovich mostram uma visão diferente da história do médico e o monstro.

SER OU NÃO SER - Nas terras altas, é impossível não se impressionar com locais como o Forte William, o Castle Tioram, próximo ao Lago Moidart e as espetaculares regiões de Glen Coe e Glen Uig (que aparecem em impressionantes tomadas aéreas em Highlander, primeira versão). As montanhas também foram palco principal de Hamlet, dirigido por Franco Zeffirelli, que escolheu o Blackness Castle em Falkirk, e o Dunnotar Castle, perto de Stoneheaven, para realizar as cenas onde Mel Gibson se rende ao to be or not to be. Outra recente produção filmada na região das montanhas é Rob Roy, que mostra Liam Neeson e Jessica Lange em locais históricos.

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Jornal do Commercio
Recife - 09.09.99
Quinta-feira