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BIOGRAFIA II
Conheça o perfil de Anna Gonsalves Paes de Azevedo

Filha de pais portugueses nobres e ricos, a sua notória formosura de pele alva, cabelos escuros e abundantes, enormes olhos cor de violeta, era acrescida pela altura, esbelteza e elegância de postura e gestos. Nasceu provavelmente em 1617.

Aos 18 anos era viúva de Pedro Correia da Silva e herdara o mais rico e maior engenho da Várzea do Capibaribe, fundado pelo seu avô Diogo Gonsalves Paes, quando casara com Jerônimo Paes de Azevedo, seu pai. Tinha um irmão Antônio de Freitas morando na Bahia.

Com a morte de seu pai passou a administrar o engenho Casa Forte com firmeza e determinação mantendo-o entre os dez melhores de Pernambuco. Para se atualizar nos preços do açúcar, no comercio exterior, da cabotagem e outros misteres, competia com os homens donos de engenho, mercadores e corretores, freqüentando a praça e o mercado, sem perda de sua dignidade.

Uma mulher bem avançada para a época, destemida e resoluta. Falava e escrevia além do português, o latim por ser a língua na época utilizada no mundo civilizado e culto e mais tarde o alemão aprendido nos seus sucessivos casamentos e no convívio com os flamengos.

Foi educada nos princípios e à moda portuguesa, vivendo com sua mãe no engenho e na casa da Rua Bom Jesus, uma grande e aprazível chácara. Existem duas cartas escritas por ela. Uma dirigida ao conde de Nassau, oferecendo açúcar do seu engenho, da qual existe uma cópia no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Outro, dirigida ao Conselho da Zelândia, pedindo a liberdade do marido Charles de Tourlon, em agosto de 1637.

Enamorou-se pela figura amável, inteligente e galante do príncipe de Nassau, até encontrar André Vidal de Negreiros por quem teve uma irresistível e conturbada atração. Devido a intrigas, separam-se. Ela mudou de religião e adotou o protestantismo para se casar com o comandante da guarda pessoal de Nassau, Charles de Tourlon, em Recife, no ano de 1637. Deste casamento teve uma filha, Isabel de Tourlon, que viria a se casar na Holanda com Viglio Gaspar Kroyestein, Oficial da Infantaria do exército holandês.

Casa-se pela terceira vez no final da Batalha dos Guararapes, em 1645, devido a confirmação da morte de Charles de Tourlon na Holanda, com Gilbert de With (Witt), com quem já vivia. Ele era Conselheiro de Justiça do governo holandês, conforme consta na assinatura do documento de capitulação.

Por ser casada com holandês foi considerada holandesa e conseqüentemente recebeu as regalias concedidas pelo General Francisco Barreto de Meneses, no ato da rendição, documento de capitulação dos batavos vencidos.

Tendo perdido todos os seus bens imóveis, embarca para Holanda na nau Vos (Raposa), na companhia do marido e dois filhos, Cornelius e Elizabeth, no final da invasão em 1654.

Seu engenho confiscado foi colocado em leilão e arrematado em hasta pública pela família do Padre Roma, o qual, ao tomar posse do Engenho Casa Forte, mandou destruir a Casa Grande.

Nos seus escombros foram encontradas vigas calcinadas, provocadas pelo incêndio ateado pelo exército luso-brasileiro por ocasião da Batalha de Casa Forte. Hoje, deste engenho resta apenas o antigo pátio - atual Praça de Casa Forte, agora um jardim com lago e vitórias-régia, o primeiro criado por Burle Max, nosso grande paisagista. E no lugar da antiga capela, ergue-se hoje a matriz de Casa Forte. Nesta igreja, logo na entrada, a esquerda, existe uma placa aposta em 1995, confirmando ser o engenho Casa Forte o local da batalha de 17 de agosto de 1645. Esta placa foi aí colocada em comemoração aos 350 anos do heróico feito.

No livro de batismo da igreja holandesa, consta em 1643 o nome de Izabel Tourlon; em 1647 de Cornelius de Witt e em 1650 o nome de Elizabeth de Witt. O registro dos três filhos de Anna Paes dentro da religião calvinista.

Mais tarde, em 1693, no Tratado de Transação contra o reino de Portugal os herdeiros de Anna Paes, ganham a ação de indenização movida por eles, em ressarcimento dos bens deixados no Brasil por seus pais.

Ao contrário do enfoque dado a Anna Paes por alguns historiadores que a julgaram uma mulher dissoluta, amoral e considerando que o Brasil não era ainda "A Pátria", Anna Paes foi antes de tudo uma mulher jovem, carente de amor, depois, uma mulher apaixonada, poucas vezes vingativa, inteligente e arguta por ter sabido aproveitar o momento, se colocando ao lado dos holandeses, que faziam na sua visão, progredir a terra natal, enquanto os outros que aqui antes dominaram, só fizeram tirar e usufruir desta mesma terra, sem nada lhe retribuir.

Foi sobremaneira e antes de tudo uma Mulher Forte.

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Jornal do Commercio
Recife - 11.10.99
Segunda-feira