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ARTIGO

A construção de utopias

por EMANUEL DIAS*

Homens e mulheres que construíram o melhor patrimônio da humanidade com freqüência viveram grandes sonhos. Mesmo os que passaram a maior parte da vida em laboratórios perseguindo curas ou construindo as máquinas que fizeram do século XX o período histórico de mais profundas e radicais transformações, o fizeram debruçados sobre esperanças. Alguns revelaram seus sonhos e fizeram História, como Martin Luther King, outros estenderam os braços aos excluídos e clamaram pelo céu na Terra, como Dom Hélder Câmara, e até houve quem transformou sua existência em materialização da utopia pela alegria e pela dor, como Charles Chaplin. De todos fica-nos a lição de que sonhar é preciso.

A utopia leva-nos a delimitar horizontes que nos parecem impossíveis de atingir. Horizontes não são fixos, mas móveis. Quanto mais nos aproximamos mais distantes e maiores eles se tornam. É fundamental perceber que os pequenos e decisivos momentos da existência de cada um de nós se fazem a partir dessa combinação de sonhos que permanecem expectativas como os que foram revelados por um Luther King ou um Dom Hélder Câmara, e com a cristalização da utopia nos pequenos passos do astronauta na Lua, grandes passos para a humanidade. A percepção desse elo entre sonhos e realidade é que nos impulsiona à idéia de construir, de avançar, de transformar. Porque - na lição conhecida de Marx - não basta interpretar a realidade, mas cuidar de transformá-la.

Trazendo essas reflexões para nosso plano, entendemos que a Universidade do Estado de Pernambuco não é uma instituição estática e acabada, como pensavam os metafísicos em relação ao mundo. Ao contrário, tendo como fim o homem, e sendo uma organização formada de pessoas, ela é altamente dinâmica, em permanente construção, seja na formação de gerações sucessivas de jovens, seja na produção do conhecimento através da pesquisa ou na articulação com a sociedade através da extensão. Esse intenso dinamismo faz surgir novos sonhos, novas utopias que constituem a força sinérgica para uma permanente construção da Universidade, para recriar e repensar, para ver além do horizonte, sem perder de vista as lições do passado, por exemplo, a advertência de Charles Chaplin: "Lutemos por um mundo novo! Um mundo que assegure a todos o ensejo do trabalho, que dê futuro à sociedade e segurança à velhice".

A história de nossa Universidade do Estado de Pernambuco foi construída para concretizar sonhos que pareciam inatingíveis. Podemos lembrar o seu reconhecimento como Universidade e ninguém pode esquecer a sua democratização. Antes mesmo que a legislação impusesse a gestão democrática nas instituições públicas, nossa UPE fez-se modelo mais avançado de todas as universidades públicas estaduais. Essa é uma dimensão dos sonhos que pode ser apreendida na convicção com que cada membro da comunidade universitária.

A utopia que se vislumbra para a UPE implica em entender a relação entre educação e trabalho na sociedade brasileira, que tem representado um desafio histórico para todas as comunidades acadêmicas. Na prática, a questão essencial é compreender que ao longo do tempo se foi incorporando uma multiplicidade de enfoques e noções a respeito da profissionalização e das formas de fazê-la. Temos que conviver com essa diversidade de visões, mas precisamos optar por um modelo que nos direcione para o futuro. Não podemos ter muitos modelos, sob pena de perder a direção do futuro.

Essa precisão de objetivo está incorporada hoje à urgência com que buscamos respostas. Não mais resposta pela resposta, mas para atender ao mundo real, para perseguir qualidade de vida que contemple horizontalmente justiça e bem-estar para todos. Essa é uma das nossas utopias. A Universidade do Estado de Pernambuco está e estará sempre buscando formas de transformar a sociedade no que ela entender que deva ser transformado. Essa é a crença que embala nossa postura hoje não apenas como educador mas, principalmente, como cidadão. Acima de tudo porque nosso compromisso não é com o que se entenda por corporação. Longe disso, abraçamo-nos ao dever de solidariedade, que se faz na busca do melhor atendimento médico, da excelência no ensino em sala de aula, na interiorização da atividade acadêmica até na alfabetização, estendendo o campus aos excluídos, dizendo-lhes que é preciso clamar, lutar e sonhar o sonho que se transformará em realidade.

* Emanuel Dias é reitor da Universidade do Estado de Pernambuco


Jornal do Commercio
Recife - 12.10.99
Terça-feira

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