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MÚSICA
Lembram daquele cara do Fricote? Ele está de volta

por JOSÉ TELES

"Um dos primeiros, uma p... Quem começou tudo isto fui eu!" Assim o cantor Luiz Caldas reage quando comentam ter sido ele um dos iniciadores da onda de axé music que tomou conta do país há 15 anos. O pontapé inicial da nova invasão baiana foi Fricote, uma parceria dele com Paulinho Camafeu. Esta música seria o grande sucesso do carnaval de 1985, na voz do baiano (de Feira de Santana) Luiz Caldas. Fricote teria como complemento uma dança, o Deboche. Ambos desencadeariam as dezenas de grupos de axé e coreografias sazonais. Vieram em seguida, as danças da galinha, da boquinha da garrafa, a da cordinha do carrinho de mão etc etc.

A letra de Fricote, "Nega do cabelo duro/ Que não gosta de pentear/ Quando passa na baixa do tubo/ O negão começa a gritar/ Pega ela aí/Pra quê?/ Pra passar batom/ De que cor?/ Violeta, na boca e na bochecha", provocou protestos de entidades negras e ajudou a catapultar ainda Caldas para a fama.

Ele se tornou o primeiro artista regional, com um disco independente, a conseguir romper a barreira das cem mil cópias vendidas, sem sair das fronteiras baianas, ajudando a formar um mercado consumidor não mais atrelado ao sudeste do país. "Eu não gosto deste rótulo, axé music, por que um nome em inglês? Mas isto foi vocês da mídia que inventaram", dispara ele, em entrevista, de São Paulo, por telefone.

Luiz Caldas divulga o CD 15 Anos de Axé, BMG), um disco que reúne praticamente todos os astros da música baiana atual, de Carlinhos Brown ao Tchan; de Netinho à Timbalada, sem deixar de fora a grande musa do balanço com dendê, Daniela Mercury. Com produção de Ricardo Chaves, Luiz Caldas dá nova roupagem à sucessos mais que manjados: Araketu É Bom Demais, O Bicho, O Canto da Cidade, Mila, Prefixo de Verão.

Este é o seu primeiro disco em seis anos. Em 1993, ele confessa que sentiu vontade de dar uma parada: "Tava tudo muito igual. Parei pra fazer uma reciclagem. Só porque a música baiana deu certo seria idiotice continuar com as mesmas coisas". Luiz Caldas radicalizou na reciclagem. Passou a tocar apenas música instrumental, e mais: nada que levasse as pessoas a dançarem: "Toquei Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Beethoven. Se antes eu tocava para uma platéia de cem mil, agora me apresentava para um público de cem, duzentas pessoas".

Nada de guitarras, teclados, nem atabaques. Luiz Caldas formou uma banda com piano, violão, bandolim: "A platéia ficava chocada, me vendo entrar de smoking e descalço, com um repertório completamente diferente do que estava acostumada a me ouvir fazer". Embora tenha voltado à axé neste CD, ele adverte que não abandonou o outro projeto semi-erudito. Está com dois discos na agulha. Ambos com os temas instrumentais que vinha apresentando em seus shows intimistas, e que pretende lançar por uma pequena gravadora ou independentes.

Neste disco, alguns hits da axé, recebem tratamento diferente. Com Amor, do Asa de Águia tem a parte rítmica reforçado e guitarras mais pesadas. Magia, sucesso de Luiz Caldas, em 86, mostra o quanto a axé poderia ter sido diferente do que é hoje. A música começa em ritmo de salsa, e depois pega uma levada meio country, com uma melodia bem estruturada, e sem overdose de vogais.

Ele não adiantou se reassumirá totalmente a axé. Até porque diz estar achando muito estranho o atual cenário musical brasileiro: "Estamos precisando de mais Alceu Valença, de mais Lenine. Tá tudo uma merda! Esses negões cantando tudo vestidinhos da mesma forma, de óculos escuros, uma música ruim". E aí Caldas ressalta que se não refere apenas ao pagode. "Tô falando também do rock, do rap. Tem uma ou outra coisa legal. Raimundos, J.Quest, gosto destes. Não agüento estas dancinhas que vivem inventando. E o pior é que eu me sinto culpado por tudo isto", diz Caldas, esboçando uma mea culpa.

Embora não tenha adiantado o que gravará além dos discos semi-eruditos, Luiz Caldas deve vir com um trabalho que, com certeza, irá despertar curiosidade. Seu parceiro musical mais constante hoje é o prolixo e hiperativo Carlinhos Brown. Os dois vêm encontrando-se constantemente em Salvador para compor: "Talvez faça um disco com Brown. A gente se reúne na minha casa, começa fazer música às nove da noite, e vamos até às cinco da manhã.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.10.99
Terça-feira