MÚSICA II
O diabo não é tão
feio quanto o pintam15 anos
de Axé mostra que o diabo não é tão feio como o
pintam. Com arranjos menos padronizados, e sem o excesso
dos encontros vocálicos (oi oi / ai ai ai/ iô iô iô),
de serventia meramente funcional em cima de um trio, há
qualidade neste lúdica música baiana nascida nos anos
80. Com efeito, no princípio, ela prometia arejar a
pesada MPB de então, dominada por um pop/rock, em sua
maioria, de letras infanto-juvenis e melodias de pouca
originalidade.
A axé, ainda sem este rótulo, tinha
duas vertentes. Uma pop, despretensiosa, originada dos
trios (Luiz Caldas, por exemplo, foi do Tapajós), e
amparada em guitarras e teclados. A outra, dos blocos
afros, impregnada de religiosidade e orgulho da raça, em
que os tambores eram os principais instrumentos. Surgia
um dado novo na música nacional. No entanto ela começou
a deturpar-se a partir do sucesso no rádio (sim,
pessoal, as emissoras baianas tocavam a música local). A
axé atraiu a atenção das grandes gravadoras, que a
transformou num negócio milionário, e como tal sem
direitos a riscos. Poucos, feito Luiz Caldas, tiveram a
coragem de dar um tempo. Todos vestiram o figurino
imposto pelas multinacionais do disco. E a nova música
baiana passou a ser apenas mais um produto, e chato, pela
repetividade, pela superexposição.
Neste disco, alguns hits da axé,
recebem levam tratamento diferente. Com Amor, do Asa de
Águia tem a parte rítmica reforçado e guitarras mais
pesadas. Magia, sucesso de Luiz Caldas, em 86, mostra o
quanto a axé poderia ter sido diferente do que é hoje.
A música começa em ritmo de salsa, e depois pega uma
levada meio country, com uma melodia bem estruturada, e
sem overdose de vogais.
A axé quase chegou a ser a primeira
música pop original brasileira, e inflar ídolos
paroquiais a astros internacionais, feito Youssour
N'dour, Salif Keita, o falecido Fela Kuti, que mesclaram
guitarras, jazz, rock, com a células rítmicas de seus
países. Infelizmente a axé acabou como mais um fator de
embotamento do gosto popular. Este disco de Luiz Caldas e
convidados pelo menos lembra que a coisa poderia ter sido
diferente. (JT)
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