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RAPPER
A voz de Bill é a voz da Cidade de Deus

Seja bem vindo ao meu mundo sinistro saiba como entrar/ droga, polícia, revólver não pode, saiba como evitar/ se não acredita no que eu falo então venha aqui/pra ver a morte de pertinho, para conferir". Os versos diretos, sem maiores cuidados com a prosódia, são de Traficando Informação, música que dá título ao CD do carioca MV Bill, a nova sensação do rap nacional, uma das surpresas na escalação do Free Jazz este ano.

Traficando Informação é o disco de estréia de MV Bill, lançado em 98, pelo selo Zâmbia, dos Racionais MC, com o nome de CDD Mandando Fechado. O CD sai agora pela Natasha/BMG, com o acréscimo de três raps inéditos e um remix de Marquinho Cabeção, uma das faixas mais conhecidas do álbum.

MV Bill nasceu e ainda mora na Cidade de Deus, um conjunto habitacional, construído nos tempos do Brasil Grande, encravado em Jacarepaguá, confins da periferia do Rio. Paradoxalmente, é em Jacarapaguá onde está instaladada a maior fábrica de sonhos do país: o Projac, complexo de estúdios da TV Globo. A Cidade de Deus foi centro do noticiário policial em meados dos anos 70, com a eclosão de uma guerra particular entre as gangues de Mané Galinha e Zé Pequeno. MV Bill tinha quatro anos, mas continuam vivos em sua memória o medo que pairava sobre a CDD, nomes de pessoas que morreram de balas perdidas, o sangue nas ruas.

"Rio das Pedras, Vila Vintém, Padre Miguel, Chácara do Céu/ Portão Vermelho, Tatuí, Borel/ Estadão, Chumbada, Chacrinha, Lixão/ Casa Branca, Gogó da Ema, Cesarão, Favela da Maré/ Formiga/ Favela do Pira, Querozene, Acari, Morro do Macaco, Santa Marta/ A Lei da favela é a lei do cão/ Se liga na fita bando, pra não cair em contradição/ Sangue bom, ladrão não dá dois papos igual de vacilão"

MV Bill traça no rap Sem Esquecer As Favelas o roteiro nada romântico, e muito menos sentimental, da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Cita bairros que jamais serão focalizados em cartões postais. Ali impera a lei do cão, que o rapper conhece muito bem, na pele inclusive. O pai é encanador, a mãe trabalhou algum tempo em casas de madame na zona sul (se conheceram num baile na CDD, ao som da banda Black Rio). MV Bill foi flanelinha, fez carreto em feira livre. Descobriu sua vocação, em 88, depois de assistir a Colors, com Denis Hopper. O filme tem como cenário a favela Liberty City, em Miami. Cidade da Liberdade, que tem embutida no nome a mesma dose de ironia que a Cidade de Deus.

"Violência pessoalmente comigo? Rolou uma vez. Eu vinha de um baile quando a polícia me parou. Acharam que eu tava drogado. Bateram na minha cara, jogaram meus CDs no chão. Não reagi. Eles são gente da gente que não entende a gente. Acaba que a tarefa da polícia fica sendo a de manter o favelado na favela." testemunha o rapper.

"Em poucos minutos a casa estava cercada/A metralhadora pronta para a gargalhada/Armas em punho para atirar/Mais de vinte PMs cercando a casa", versos de Um Crioulo Com Uma Arma, que conta a história de um justiceiro da periferia.

Para escapar da perifa são poucas as saídas. Uma delas é tornar-se astro do pagode. "Independente da qualidade, o pagode tem livrado muita gente da marginalidade", defende MV Bill o samba mauricinho, com as devidas resalvas. "Sou contra a postura dos caras. Depois que ganham dinheiro, desfilam de carrão importado, com uma loura do lado. Acabam tornando-se má influência para as crianças pretas", critica MV Bill.

"O sol se põe a noite vem/ Tem muita gente na pista/ Eu sei que tem. (A Noite)

Nem tudo na música dele é apenas denúncia social. A Noite é cadenciada, dançante, um charm melódico. A música poderia ser sucesso caso tocasse nas FMs. Com exceção dos Racionais MC, que bateram a casa do milhão em vendas, com um CD independente, o rap nacional não decolou. Nos EUA ele vem sendo há uns cinco anos o carro-chefe da indústria fonográfica, o equivalente ao que o pagode se tornou para as gravadoras brasileiras. "É difícil, sendo uma cena underground, que não toca no rádio. Mas o rap tá acontecendo pelo Brasil inteiro. Antes ele era uma coisa mais da peferiferia de São Paulo. Hoje tem grupos em Brasília, no Recife, é uma tendência que tende a aumentar", acredita MV Bill.

"Apenas um garoto quinze anos de idade, seu grande sonho era ser jogador de futebol, mas como sempre acontece no Rio de Janeiro/ a ilusão pela TV veio primeiro/ Queria ter carro, muita mulher, acabou entrando para a vida do crime (Marquinho Cabeção)

"Do pequenos clubes do subúrbio do Rio para o ambiente chique do MAM, onde acontece o Free Jazz. MV Bill é o primeiro rapper da periferia a ser escalado para um evento que reúne a fina flor da burguesia, tanto na platéia quanto no palco. "Nunca fui fazer show pensando no comportamente da platéia. O pessoal do Free Jazz pode até não gostar do som, mas vai encarar uma realidade, que tá perto dela e é ignorada. Políticos feito Collor, FHC estão criando um monstro chamando revolução, alerta. O MV substituiu o MC (Mestre de Cerimônia), adotado pelos DJs: "MC ficou meio vulgarizado, qualquer um hoje usa. Preferi MV, que significa Mensageiro da Verdade", esclarece MV Bill, mensageiro de verdades nuas e crudelíssimas.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.10.99
Terça-feira