INTERCÂMBIO II
Pernambuco: onde fica
este estado?por MARCOS
GUEDES DE OLIVEIRA
A grande guerra européia do início do
século XXI será entre Londres, Paris e Berlim pelo
título de capital econômica, cultural e política da
Europa. Londres se prepara para o confronto com grandes
empreendimentos. Primeiro, depois de anos sem prefeito e
administração central (mais uma obra da senhora
Thatcher), a cidade prepara-se para escolher novamente
seu chefe político. Paralelamente, uma série de grandes
investimentos estão em fase de conclusão: a ampliação
do metrô; novos prédios para a Tate Gallery e Museu
Britânico, etc.
Uma das iniciativas mais interessantes
procura coordenar todos os setores econômicos e
culturais da cidade em torno de um projeto articulado
para seu desenvolvimento. London First é o nome desta
empresa que visa tornar Londres na capital européia
absoluta e facilitar a ação, articulação e o
investimento externo na cidade. Quem está à frente
deste empreendimento não é nenhum lorde inglês, mas um
empresário dos EUA decidido a ganhar dinheiro juntamente
com o crescimento da cidade. Neste projeto, o
empresariado, a Universidade e as comunidades
estrangeiras na cidade possuem papel central.
Imagine a Sudene com um superintendente
Alemão ou governada por um Maurício de Nassau
pós-moderno, ou mesmo privatizada e dirigida por uma
companhia norte-americana. Na Inglaterra, apesar de uma
boa dose de conservadorismo, isto não seria problema. O
fato de London First possuir capital norte-americano
anima ainda mais a comunidade cultural e de negócios de
Londres.
A festa de lançamento se deu no
recém-inaugurado Museu do Vinho (Vinópolis) na região
sul do Tâmisa. Museu do Vinho? Ora, a Inglaterra não é
um produtor de vinho importante. Estaria Londres
cometendo um erro ao criar um Museu do Vinho? Na verdade,
nada parecido existe tanto na França quanto na Itália,
os grandes produtores europeus.
O que Londres mostra com iniciativas
assim é colocar alto seu caráter cosmopolita. A cidade
parece dizer: não fazemos vinho, mas vamos ganhar
dinheiro com a historia e a degustação de vinhos de
todo o mundo. Vinópolis representa aquilo que London
First busca. Fazer da cidade o centro virtual, cultural,
comercial mesmo daquilo que os outros produzem e não é
identificado como British.
A Universidade de Middlesex foi uma das
poucas instituições convidadas para a inauguração que
começou com entusiástico discurso do primeiro-ministro
inglês Tony Blair. O Centro de Estudos Brasileiros da
Middlesex (CBS) foi a única instituição ligada ao
Brasil a ser convidada.
No almoço oferecido aos convidados
estavam muitos empresários de grandes grupos com
investimentos no Brasil. Todos muito desejosos por
ampliar suas atividades no país. Alguns queriam saber se
FHC conseguiria tirar o país da atual crise e criar um
clima semelhante ao dos anos JK. Outros queriam saber por
que a GM foi para a Bahia. Todos conheciam Rio, São
Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Bahia. Alguns
empresários ansiosos para realocar suas fábricas de
São Paulo em outro estado da federação perguntaram:
Pernambuco, onde fica este estado?
Eles dedicaram alguns dos seus
preciosos minutos a ouvir falar da importância do
nordeste brasileiro e de Pernambuco na economia
brasileira. Ficou, contudo, claro que, sem uma política
efetiva e agressiva de atrair recursos externos e
investimentos para a região e sem iniciativas como a
London First que procure unir a sociedade e
instituições como a universidade, a região nordeste
não poderá acompanhar a modesta dinâmica de
desenvolvimento nacional. Muito menos assimilar as
possibilidades potenciais existentes no contexto
internacional.
Mas nada fica para sempre. Existe uma
série de instituições na região com um potencial
enorme e que poderão servir de alicerce para um novo
ciclo de crescimento e transformação regional.
O CBS pode, modestamente, dar sua
parcela de contribuição. O papel de um centro de
estudos não pode se reduzir a dimensão meramente
acadêmica. Embora as funções primeiras da universidade
continuem a ser o ensino, a pesquisa e a extensão; sua
associação com os vários setores da sociedade onde ela
está inserida - particularmente o empresariado e o
movimento social - é fundamental para que aquilo que é
produzido, em forma de treinamento, pesquisa e
conhecimento, seja prontamente assimilado pela sociedade
produzindo riqueza e bem-estar.
Uma vez que os objetivos acadêmicos de
intercâmbio de pesquisadores e alunos e as iniciativas
culturais do CBS se consolidam, chega a hora de trabalhar
na direção de seus objetivos institucionais mais
amplos. Isto é, servir de elo facilitador de contatos
empresariais e culturais entre cidades brasileiras e
Londres; desenvolver estrutura de consultoria para
empresas inglesas e européias para investirem no Brasil.
Não falta interesse da parte européia em apoiar o
desenvolvimento desta dimensão articuladora do CBS.
Também não faltará empenho nosso para que o nordeste
(e particularmente Pernambuco) se sinta à vontade para
ocupar o espaço privilegiado que a Universidade de
Middlesex garante a UFPE e a todo o Brasil em Londres.
* Marcos Guedes de Oliveira é
diretor do Centro de Estudos Brasileiros, na Universidade
de Middlesex, Inglaterra
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