AFLITOS II
Náutico, paixão e
renascimento (1)por
GUSTAVO KRAUSE*
A melhor definição de paixão
clubística diz o seguinte: "É uma paixão
monogâmica até que a morte os separe". De quem foi
a proeza? Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, João
Saldanha, Neném Prancha, Lula Carlos, Fernando Menezes,
Duda Guennes, Lenivaldo Aragão, Givanildo Alves? Com
certeza, qualquer um deles teria talento e arte
suficientes para subscrever a definição de paixão
clubística, filhos que são da Pátria do Futebol.
Pois bem, quem disse, sinteticamente,
tamanha verdade nada tem a ver com o Brasil. Foi o poeta
maldito (maldito pelos xiitas do fundamentalismo
islâmico) Salman Rushdie, autor de "Versos
Satânicos", torcedor fanático do Manchester da
Inglaterra, pátria que o acolheu e o protege da ira
religiosa. Paixão clubística e, assim, sentimento
imutável, avassalador, espécie de sal da vida, como
são todas as paixões. Não se explica. Apenas,
sente-se. Sente-se na forma de inebriante prazer ou de
dor profunda. Fere a acaricia; é riso e lágrima.
Em matéria de Náutico, chegou a
oportunidade histórica de colocar a insustentável
fortaleza da paixão a serviço do renascimento do Clube.
E o momento é agora, demarcado pelas próximas
eleições em que serão escolhidos o Conselho e o
Presidente do Executivo, pelas razões que passo a
enumerar.
Nos últimos 50 anos o Náutico viveu
duas fases distintas: os anos maravilhosos que foram de
1950/76, 12 vezes campeão, portanto, hegemônico e
fazendo parte da elite do futebol brasileiro; os anos
miseráveis de 1975/2000 quando ganhou apenas três
campeonatos e viveu um período de decadência
generalizada, chegando à infame condição de integrante
da Terceira Divisão do futebol brasileiro.
Ora, se o quase centenário Clube de
Rosa e Silva está seriamente ferido nos seus brios
esportivos e enfraquecido na sua dimensão patrimonial,
como se falar em renascimento?
Primeiro, porque nenhuma organização
de tamanha tradição e vigor social perde sua capacidade
de resistir às adversidades. É como se uma força
mágica se antepusesse aos fatores da destruição;
segundo, porque esta `força mágica', notavelmente, fez
emergir uma consciência positiva em cada torcedor, um
clima solidário na família alvirrubra, e mais do que
isto, pôs em marcha a construção de ativos
fundamentais para o renascimento do Náutico.
A consciência está expressa em
decisões individuais e numa vontade coletiva que
perpassa todas as gerações alvirrubras, notadamente, a
geração cinqüentona e hexacampeã, de reverter um
processo e legar ao futuro um clube capaz de reeditar os
saudosos anos maravilhosos.
O clima e a atmosfera de uma virada
são vistos e sentidos em cada jogo da Terceirona.
Estádio cheio (contra o Feira, o Itabaiana etc..),
vibrante, vestido de vermelho e branco (curiosamente com
muitos jovens e crianças), constituindo-se, e
literalmente, num jogador a mais do que os onze que
formam um time modestíssimo.
Paralelamente a este ativo imaterial,
surge um estádio ampliado, tijolo por tijolo, e hoje
viável economicamente, por conta do idealismo de meia
dúzia de abnegados, trabalho que se realizou
independentemente dos poderes formais do Clube.
Por outro lado, o abandonado terreno da
Macaxeira começa a ganhar vida numa aposta de outra
dezena de abnegados de que o futuro somente é possível
se o Náutico dispuser de um centro de treinamento. Ali
estão, liderando o esforço coletivo, pessoas que deram
sangue, suor e lágrimas pelo clube e que estão
dispostas a repetir a dose. Movimento que também surgiu
e segue à margem dos poderes do Clube.
Finalmente, emerge, dentro do Clube, um
vigoroso movimento, chamado de Confraria do Timbu de
Ouro, cuja capacidade de mobilização, fez entrar nos
cofres da atual gestão algo como hum milhão de reais.
Trata-se de um movimento cujo peso não pode ser ignorado
no processo sucessório, inclusive porque é
imprescindível para uma gestão respeitável e
restauradora do Náutico.
Estes bons sinais de vitalidade estão
ratificados por um fato que se tornou pouco usual na
recente história do Náutico: um grande e positivo
interesse em dirigir o Náutico, através do lançamento
de duas chapas em contraste com as últimas eleições
onde prevaleceram as escolhas por falso consenso ou no
`sacrifício' de abnegados, convocados, por exclusão,
para presidir o Náutico.
Para o renascimento do Clube - é
pertinente indagar - qual a melhor solução: a disputa
eleitoral ou a aliança entre as duas chapas? Tratarei
deste assunto na segunda parte deste artigo.
* Gustavo Krause é conselheiro e
ex-presidente do Conselho Deliberativo do Clube Náutico
Capibaribe
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