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"Boa viagem para o Recife"

Na sua despedida entre nós, o poeta João Cabral de Melo Neto fez questão mais uma vez de demonstrar seu profundo amor por Pernambuco. Não poderia mais fazer em versos, então o fez simbolicamente. Foi sepultado, a seu pedido, com a bandeira de Pernambuco, levando consigo no peito a medalha do Mérito Guararapes. De todos, o poeta mais intimamente ligado a sua terra, suas gentes, sua geografia, história, cidades, águas, rios, canaviais, sóis - e sem esquecer outras paisagens guardadas com carinho e saudade em sua memória. João Cabral declarou certa vez, em depoimento inédito ainda em livro, que se debatia em seus poemas com os sentimentos comuns a todos os homens, entre eles e principalmente, o pernambucano. "O homem só é amplamente homem quando é regional. Se me tirar a estrutura ideológica de Pernambuco, eu nada sou." Essa é a maior herança que João Cabral nos deixa em seus versos, nos quais pretente "fazer com que a palavra leve / pese como a coisa que diga".

por ARNALDO SARAIVA

Meu caro Mário,

um estranho impulso levou-me esta tarde a ver o correio electronico - foi assim que soube da morte do nosso João pouco depois da sua ocorrência. Pelo que eu lhe disse no intervalo fugitivo do Colóquio, poderá imaginar que não fiquei surpreendido, embora quisesse acreditar numa longevidade idêntica à de familiares próximos dele. Na realidade, nunca o vira tão triste, e frágil, e cansado, e deprimido como no sábado - há 8 dias - em que me fui despedir dele, o mesmo sábado em que viajei para o Recife. Eu só não interrompi mais cedo a conversa (que durou uns 45 minutos) na esperança de lhe levantar o moral. E ele bem quis disfarçar, com a sua habitual gentileza e cordialidade, o seu mal estar. Tanto que ainda me acompanhou à porta e esperou a chegada do elevador. Não esqueço a imagem cambaleante e a voz sumida que me trouxe estas palavras, as últimas que lhe ouvi: "Boa viagem para o Recife". Ele queixara-se-me da má memória, mas não esquecera a informação que eu lhe dera, quando também lhe disse que o Secchim falaria da sua poesia no Colóquio recifense que, suponho, valeu como a última homenagem que lhe foi prestada em vida - e logo na sua terra, que andava sempre na sua memória e no seu afecto.

O João não foi só um Poeta enorme, desses que marcam para sempre uma literatura, a literatura, fundador e fecundador; foi também um Homem íntegro, humaníssimo, modesto, que, embora amando a vida, nunca se entregou aos prazeres dela talvez por respeito e solidariedade com os muitos severinos que conheceu e que dignificou.

Ao Poeta nunca me cansarei de o ler, nem creio que, como outros, ele envelheça, pois há muito o tenho por clássico; quanto ao Homem, ele far-me-á sempre falta, pois me habituara a conversar com ele e a ver nele um modelo de humanidade, um admirável Companheiro que, morto, com ele morro também um pouco.

O abraço melhor do Arnaldo Saraiva.

* Carta do crítico literário português Arnaldo Saraiva ao escritor e jornalista Mário Hélio, pela Internet

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Jornal do Commercio
Recife - 11.10.99
Segunda-feira