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Escritor exercia a literatura como um grande sacrifício voluntário

por ALBERTO CUNHA MELO*

Domingo, 10/out/99, dia seguinte da morte do poeta João Cabral. São 8h44 e o amigo poeta Mário Hélio me telefona, pedindo umas palavras para o JC, sobre o escritor morto. Quando ele me diz que o filho de Cabral considerou bonita a morte do pai, porque sem longos sofrimentos, ocorreu-me que ele merecia uma morte assim, "(à) fuzil limpo do ataque cardíaco", porque a poesia foi para ele uma espécie de cilício, um martírio, um sacrifício voluntário, desde o seu primeiro livro, Pedra do Sono. Em Poesia e Composição, ele falou "nessas épocas felizes em que é possível circular 'poéticas' e 'retóricas'". Por não estar vivendo numa época assim, ele criou com a sua poesia didática e dramática a única poética válida da poesia moderna brasileira. Isso lhe custou uma vida de sofrimento com o problema formal, num meio em que predominava a facilidade anárquica.

João Cabral de Melo Neto foi o mais puro touro reprodutor da poesia brasileira. Ele fez um bem extraordinário a toda a expressão poética em língua portuguesa, e, não fosse as limitações deste idioma, a poesia mundial muito teria aprendido com ele.

* Alberto da Cunha Melo é autor de Yacala e Poemas Anteriores

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Jornal do Commercio
Recife - 11.10.99
Segunda-feira