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Um leitor que encontra seu poeta ideal por ANTONIO CARLOS SECCHIN Descobri Cabral fora do Brasil. Eu, recém-formado em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, fui dar aula em Bourdeaux, em 1977. Ali, pela primeira vez, encarreguei-me de dar curso específico sobre a obra dele, ficando fascinado com a sua complexidade. Cada vez mais ela se oferecia ao leitor como algo que se desafia possibilidade de interpretação. Uma lição de nitidez e clareza, que tinha uma sintonia muito grande da sensibilidade dele como poeta e a mim como leitor. Leitor que acabara de encontrar o seu poeta ideal, e que passou a mergulhar cada vez mais na obra dele. Ainda na França, escrevi a minha tese de mestrado e em seguida a de doutorado sobre ele. Completei a leitura com a obra inteira até então publicada. Escrevi vários artigos a respeito, e também organizei para a editora Global a antologia Os Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto. E também organizei o volume Primeiros Poemas, feito com poemas da juventude que ele me entregou com extrema confiança. O meu contato pessoal com ele era constante. O prolongamento de uma intimidade com a obra que venho estudando há mais de vinte anos. Uma certa vez cheguei a brincar, dizendo a ele, que iria ao INSS, em breve, requerer aposentadoria em João Cabral de Melo Neto. Seria assim a primeira pessoa a se aposentar em um poeta. Recentemente, publiquei pela Topbooks, A Poesia do Menos, uma ampliação do livro que já editara antes e reúne as minhas teses de mestrado e doutorado e quase todo o material que publiquei sobre ele. No meu próximo livro de ensaios, incluirei algumas conferências e artigos que venho escrevendo - sempre há uma seção cabralina nos meus livros de ensaios. O último contato que tive com ele foi há quatro ou cinco meses, ele já muito retraído. Quando o visitava, sempre tentava reanimá-lo um pouco, procurando levar a conversa concretamente para a poesia dele, fazendo perguntas, solicitando esclarecimentos. Muitas vezes sobre pessoas e coisas que ele cita nos últimos livros que traz um material muito rico, evocação histórica, nada sentimental. Contêm muitas informações cifradas, sobre pessoas que não são de domínio público, contextos e locais que desapareceram. Procurei com ele obter esclarecimentos específicos sobre essas alusões e referências. E ele me esclareceu muito sobre esse material fundamental para interpretações futuras dessa mitologia pessoal e afetiva que é João Cabral. Para impedir que essa memória se dissolvesse, atualmente, estou orientado uma tese do professor Eucanaã Ferraz sobre Cabral, sobre a relação entre a poesia e arquitetura. Curiosamente, embora me dedique a estudá-lo há tantos anos, na minha carreira universitária ainda não tinha tido oportunidade de orientar alguém sobre a obra de João Cabral. E estou também com a co-orientação da tese da professora Lucila Nogueira sobre utopia e cerebralismo na poesia de João Cabral de Melo Neto. Ela pretende estudar O Cão sem Plumas e Morte e Vida Severina como as duas faces de um processo de criação artística, que revela a construção de uma utopia humanística, por caminhos desertos. * Antonio Carlos Secchin é professor titular em Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ. Publicou seis livros, nas áreas de poesia, ficção e ensaio |
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