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A vida severina chegou às telas

por LUIZ CARLOS MERTEN
AGÊNCIA ESTADO

SÃO PAULO - Vinicius de Moraes foi o mais popular dos poetas brasileiros, mas não foi por acaso que costumava ser chamado de poetinha. Era uma maneira carinhosa de reconhecer suas qualidades, mas dizer que ele não era um dos maiores. A santíssima trindade da poesia brasileira é formada por Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Havia até laços familiares entre eles: Bandeira e João Cabral eram primos. O audiovisual brasileiro não foi imune à grandeza de João Cabral. Morte e Vida Severina foi adaptado para cinema e TV. Em ambos, Severino era interpretado pelo mesmo ator, José Dumont.

Quem, melhor do que ele, para expressar na tela dura poesia de João Cabral, a face sofredora do nordestino? João Cabral era o primeiro a reconhecer que não fazia poesia derramada em versos. "Para que perfumar a flor?", perguntava. Também não queria ser eterno como o asfalto com seus poemas. Comparava sua poesia a um chão de pedras, que vence dificuldades. Foi assim que Morte e Vida Severina surgiu no cinema e na televisão.

O filme de Zelito Viana é dos anos 70, o especial de fim de ano da Globo, realizado por Walter Avancini, do começo dos anos 80. E há também um documentário sobre João Cabral, que o acompanha do Senegal às margens do Capibaribe - Liames, o Mundo Espanhol de João Cabral do Melo Neto, dirigido por um primo do poeta, Carlos Henrique Maranhão, com paisagens e figuras de Andaluzia, da Catalunha e de Castela, intercaladas por cenas rodadas no interior de Pernambuco.

José Dumont, o Severino de João Cabral no cinema e na TV, disse que nunca foi um personagem do poema. Não era um daqueles Severinos, mas um artista, "brasileiro", fazia a ressalva, que interpretava aquela realidade. O filme começa com uma encenação no palco, num estilo mambembe de teatrinho popular, de trechos do auto de Natal de João Cabral. Daí salta para o formato de documentário sobre o percurso do Capibaribe, da nascente até Recife, tendo ao fundo trechos de outro poema, O Rio. E há um segundo documentário, todo formado por depoimentos de nordestinos que expressam diante da câmera a dificuldade, mas também a riqueza, de viver. Costurando tudo isso, José Dumont faz o Severino de Viana.

É um filme sério e honesto, mas não bom. É prejudicado por graves problemas técnicos. O som é quase inaudível, uma crítica histórica que sempre se fez ao cinema brasileiro e, aqui, é procedente. Perde-se a grandeza do texto. O especial de TV tem som perfeito e plasticidade impecável. Foi o primeiro especial que a Globo gravou em locações. Quando se fala em Avancini como o papa da TV brasileira, é em obras como essa que se deve amparar para a afirmação.

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Jornal do Commercio
Recife - 11.10.99
Segunda-feira