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Filme homenageia poesia por KLEBER MENDONÇA FILHO João Cabral do Melo Neto teve no curta-metragem Recife de Dentro Pra Fora (1997), de Kátia Mesel, uma das maiores homenagens à sua obra. Dois anos depois do seu lançamento, o filme já pode ser visto como um dos mais importantes curtas-metragens realizados no Brasil, nos anos 90. Foi exibido em praticamente todo o país, ganhou mais de 30 prêmios nacionais e internacionais e difundiu imagens fiéis à palavra escrita pelo poeta para públicos diversos. Apresentou também uma imagem contundente da cidade do Recife, cortada por pontes, água, lama e equilibrada precariamente sobre palafitas. Do ponto de vista documental, apresenta o último depoimento filmado de João Cabral do Melo Neto, no cinema, homem que sempre foi avesso a entrevistas. Mesel estruturou seu filme como um clipe de 15 minutos, musicado por Geraldo Azevedo e cantado por Elba Ramalho, que vociferou O Cão Sem Plumas ao longo de quase todo o filme, que tem um efeito levemente hipnótico sobre o espectador. Esse efeito vem, em grande parte, do trabalho de imagens, captadas em 35mm colorido do ponto de vista do Rio Capibaribe, com a cidade sempre ao fundo. Para o recifense, o impacto e estranheza das imagens é quase tão grande quanto o de qualquer espectador não-recifense, pois a referência que o pernambucano tem do Rio que corta a sua capital é sempre de fora, para dentro, e não como o próprio filme defende, "de dentro pra fora". Na verdade, a essência de João Cabral do Melo Neto já estaria presente no curta de Kátia Mesel mesmo se o Cão sem Plumas não estivesse gravado em música na trilha sonora. Afinal de contas, o poeta sempre disse que sua escrita deveria ser vista, e não lida. |
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