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João Cabral despiu o Recife na intimidade por MÁRIO HÉLIO O Recife na poesia de João Cabral é o que se constrói a partir da realidade, através da memória, e motivado por uma tomada de consciência cada vez mais aguda dos seus problemas. O crítico José Guilherme Merquior chegou a falar que João Cabral é um exemplo de um "nobre compromisso da literatura com a realidade". No entanto, essa imersão no coletivo e na realidade social não impede que João Cabral cante o seu Recife, que é, a um tempo, social e memorioalístico. O que pretende realmente o poeta é "dar a ver o Recife", para empregar, adaptando-a, expressão de Paul Éluard mais de uma vez referida por ele. Mesmo ao narrar episódios, lugares e anedotas presenciados no âmbito, João Cabral o faz querendo ser visual e claro. O Recife de João Cabral não é um locus amoenus, ou mesmo de evasão, como o que aparece em Manuel Bandeira. É o Recife íntimo, em si, despido, despojado do que não seja ele mesmo. Geográfico, mas intrageográfico, histórico e supra-histórico. Carlos Drummond de Andrade avaliou essa contribuição dos poetas recifenses ao estudo da realidade, colocando-os muito acima do simplesmente regionalístico, ecológico ou sentimental: "Ah! Pernambucanos! Tenho por eles uma admiração estupefata. Dessa província do Nordeste nos vem a poesia menos nordestina possível. Como a de João Cabral, que ordena seus jogos sábios numa atmosfera isenta de qualquer localismo, qualquer circunstância histórica ou ecológica. Os mesmos Bandeira e Joaquim Cardozo, que por vezes se detêm amorosamente a cantar aspectos do Recife, já superam nesse canto a simples visão imediata. A terra natal fica sendo ponto de partida para uma viagem aos países da geografia interior. Assim são os pernambucanos." Assim é João Cabral, poeta recifense: atado à sua cidade por essa "geografia interior", o que faz, na reconstrução da cidade é fruto do trabalho da memória e não simplesmente do "trabalho do sonho" estudado por Freud. É sintomático que a vivência do Recife em Cabral tenha-se dado a partir da ausência, e não da presença, o que conferiu a essa ausência uma espécie de "distanciamento" calculado, fiel e crítico ao que proclama. Pensar o Recife é para o poeta abrir os olhos. Consciência e realidade fundidas a serviço de uma poesia crítico e de corte social. O poeta enfatiza isto num depoimento: "No tempo em que vivi em Pernambuco minhas poesias nada tinham de brasileiras. Pedra do Sono é desta época e está como exemplo. Foi feita entre 39 e 41, na época em que não tinha ainda descoberto a linguagem adequada para falar do Brasil. A um sujeito de minha geração, era muito difícil ter qualquer idéia social. Vivíamos numa ditadura, absolutamente indiferente à política. Já depois de abandonar o Brasil, comecei a dar a minha obra um caráter mais consciente e de acordo com a realidade. (...) Saí de lá (Recife) aos 23 anos, de forma que a memória é que é a grande reserva da poesia." Essa informação é completada com outra declaração ao crítico Antonio Carlos Secchin: "Saí do Brasil em 1947. Meu primeiro posto foi o vice-consulado em Barcelona. Nos arredores da cidade, vi paisagens áridas como as do Nordeste, era uma espécie de volta a Pernambuco." A paisagem árida é exata para a linguagem cabralina. Trata-se de uma tentativa da linguagem espelhar a realidade, re-presentificá-la. O crítico Carlos Felipe Moisés chega a ver na paisagem a "vibração exterior das palavras. Como se aquela realidade geográfica fosse apenas um prolongamento de tal linguagem, e somente no seu restrito mundo pudesse existir, sem autonomia." Antonio Carlos Secchin pensa de certo modo como Felipe Moisés, mas, distingue, entretanto, dois tipos de paisagem, um presente em Morte e Vida Severina e outro em Paisagens com figuras. "Nesta última, João Cabral freqüentemente estava com modelos do real, abstraídos a partir da sensorialidade paisagística. No auto de natal as reflexões sobre a linguagem (embora não ausentes) são menos explícitas. Daí advém um grau maior de transparência discursiva, própria da segunda água cabralina, em que o real se apresenta mais enquanto evento do que enquanto sistema." Tais paisagens, sejam elas quais forem, não são neutras, como assinala Sebastião Uchôa Leite. Inclusive na estrutura estrófica dos poemas, como se fossem feitos em blocos "pré-moldados". A paisagem em João Cabral é humanizada, espessa e não somente infensa à mera composição tipo "arte pela arte". E nesse sentido, mais uma vez João Cabral deve ao Recife a substância e essência da poesia. Fosse o Recife uma cidade rica e opulenta quem sabe seria bastante diferente a poesia de João Cabral de Melo Neto. No seu caso, a ligação com a cidade é quase icônica. A mesma pobreza e magreza que Manuel Bandeira e Gilberto Freyre notaram no Recife encontra-se na poesia de João Cabral. Dificilmente, poeta e cidade podem ser íntimos de forma como o são João Cabral de Melo Neto e o Recife, comunhão que é refletida em humanismo: "O que me interessa é o problema do homem. Quando me bato pelo regionalismo é para mostrar, numa anedota o local, os sentimentos comuns a todos os homens. O homem só é amplamente homem quando é regional. Se me tirar a estrutura ideológica de Pernambuco, eu nada sou." * Trecho do livro inédito João Cabral e a Cidade-pedra. Mário Hélio é escritor, jornalista e professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco |
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