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Alfeu não é otário por GUSTAVO KRAUSE* Alfeu Marques de Andrade, brasileiro, 40 anos, casado, funcionário da Sata (Serviços Auxiliares de Transportes Aéreos S/A), encontrou, quando fazia limpeza num avião da TAP (Vôo 1535), um maço de notas no valor US$ 4,8 mil equivalente a R$ 11,6 mil. O sr. Alfeu ganha R$ 330,00 por mês e, subitamente, ficou diante do que recebe em três anos de trabalho. Ele e a consciência. E o que fez Alfeu? Entregou o dinheiro ao encarregado da TAP para que devolvesse ao seu legítimo dono. Muitos dirão: "Não fez mais do que a obrigação"; outros tantos dirão "Alfeu é um otário". Machado de Assis disse: "A ocasião não faz o ladrão; faz o furto. O ladrão já nasce feito". E o que disse Alfeu? Em entrevista ao JC, edição de sábado, 6 de novembro, perguntado se estava arrependido de ter devolvido o dinheiro, Alfeu respondeu: "De maneira nenhuma, pegar aquele dinheiro seria uma ilusão. Só iria me prejudicar e mesmo que não acontecesse nada eu não ficaria sossegado. Hoje, em vez de estar aqui tranqüilo com minha consciência, teria perdido meu sono (...) Muitos amigos ficaram me recriminando, dizendo que fui "otário" devolvendo os dólares". Alfeu foi notícia e personagem de matéria jornalística. Jornal não noticia o que é comum, regra, busca corretamente o inusitado e a exceção e, no episódio, o inusitado é o contraste entre os que estão em cima e que, portanto, deviam dar exemplo, e não dão, e o que está embaixo e deu o exemplo, Mais do que exemplo, Alfeu deu uma aula de cidadania. No nosso País, infelizmente, ainda prevalece a norma proclamada pela "Revolução dos bichos", de Orwell, segundo a qual "todos os bichos são iguais perante a lei só que uns são mais iguais do que outros". Alfeu está entre os menos iguais, uma espécie de cidadão de "segunda classe", considerado sob a ótica dos direitos e das possibilidades de acesso às oportunidades da vida. Se precisar dos serviços de saúde, já viu, vai madrugar nas filas e receber um atendimento de qualidade questionável; educação para os filhos vale mais pela merenda do que pelo conhecimento precariamente ofertado nos estabelecimentos públicos; habitação, transporte, água, saneamento básico refletirão um tipo e qualidade de vida que é muito mais suportada do que vivida. E se cair na besteira de esquecer a carteira de identidade e tiver o azar de encarar um ronda policial está seriamente arriscado a bater com os costados nas masmorras dos tempos modernos, chamadas de penitenciárias. Já com o cidadão de "primeira classe", tudo é diferente. Herdeiro do famigerado autor da frase "sabe com quem está falando", ele, em geral, é branco e doutor e, portanto, tem direito à prisão especial. Prisão especial, é demais! Sabem quem é um "preso especial"? Hildebrando Paschoal. Ora se existem "presos especiais" é porque existem "impunes especiais". E com a corda toda. Uns compram mandatos populares, vivem de comissões temáticas (e metálicas), relatam projetos e sobrevivem a processos. Outros julgam quando deveriam ser julgados e prolatam $entenças. E muitos estão nem aí. Seguem flanando, empertigados, de colarinho branco e com entrada franca no paraíso...fiscal. O cidadão de "primeira classe" é o não cidadão. Porque a verdadeira cidadania se baseia na impessoalidade e está sujeita à generalidade da lei. Mais do que um conceito, cidadania é uma cultura fundada no respeito ao outro e na submissão às normas de conduta social. Cidadania não casa com as vantagens auferidas da esperteza, até porque a soma das espertezas individuais é a desgraça do interesse coletivo. No mundo dos conceitos e na vida real, Alfeu não é de "primeira" nem de "segunda classe". É um verdadeiro cidadão. Obedeceu a lei: não furtou; respeitou o outro: não tocou no patrimônio alheio; seguiu os ditames da consciência e ai preferiu estar com sua consciência contra o mundo a estar com o mundo contra sua consciência. Alfeu não é otário. É a mensagem viva de que se pode acreditar na decência e na dignidade das pessoas. PS. Agradeço sensibilizado as generosas e estimulantes referências feitas ao artigo "Malditos burocratas". * Gustavo Krause, consultor de empresas, foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente |
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