LITERATURA II
Um sonho contado em 17
anospor MARIA TEODORA DE
BARROS OLIVEIRA
Para nós da língua portuguesa este é
o ano de James Joyce. Recentemente foi publicada no
Brasil a novela Giacomo Joyce (editora Iluminuras) e
estamos já às vésperas do lançamento da
transcriação de Finnegans Wake, considerada umas das
principais obras da literatura deste século. Este
lançamento ousado é fruto dos esforços do psicanalista
Alduísio Moreira de Souza, presidente da Casa de Cultura
Guimarães Rosa, em Porto Alegre.
Resultado de um trabalho que vem se
afirmando há quase 14 anos, a Casa de Cultura tem como
prioridade especial, pelo menos no momento, o projeto
Daimon que envolve, dentre outras atividades,
"Daimon: Revista Internacional de Cultura"
(trilingüe), e "Daimon: Finnegans Wake... Um porto
transcriativo", já aprovados pelo MEC. Através
desse projeto foi efetivado um contrato com o professor
Dr. Donaldo Schüler que, com sua equipe, ocupa-se da
tradução de Finnegans Wake.
A obra de Joyce é em grande parte
autobiográfica. Na sua trama encontram-se expressas
experiências e relações vividas com seus familiares,
sob os nomes de outras personagens, como por exemplo, em
Dublinenses e no Retrato... São retratadas, ainda,
relações análogas como as que manteve com alguns
escritores que foram seus amigos: Italo Svevo, Ezra
Pound, Samuel Beckett, entre outros.
As analogias entre sua vida e obra
foram apontadas também por escritores como Chester
Anderson, em sua biografia de Joyce, e por Richard
Elmann, quando da apresentação da edição americana de
um manuscrito que tinha permanecido inédito, denominado
Giacomo Joyce, escrito por Joyce em Trieste logo após
ter terminado de escrever Retrato do artista quando
jovem, e que se constitui como uma passagem entre o
Retrato e o Ulysses.
Considerada na literatura ocidental a
obra que mais exige do seu leitor, Finnegans Wake é
também a que mais comunica o quanto o autor se divertia
escrevendo. Mas Joyce ainda não foi suficientemente
compreendido pelo público. E isso provavelmente pela
complexidade de sua obra. Neste sentido, o próprio Joyce
se queixou logo após a publicação de Finnegans Wake,
ao indagar por que deveria escrever um outro livro já
que esse ainda não havia sido lido. Sabia, contudo, que
daria muito trabalho aos analistas literários, pelo
menos por "trezentos anos", o que revela sua
consciência crítica.
Ulysses é um romance que teve cada
capítulo situado em um ambiente diferente, no interior
da cidade de Dublin. Nele, o autor apresenta os
pensamentos de um grupo de dublinenses durante um dia de
verão, e em cada capítulo explora um momento desse dia.
Há dezoito capítulos, dezoito momentos, dezoito
procedimentos ou estilos e outros grupos de dezoito
elementos.
Já em Finnegans Wake ele explora todos
os grupos possíveis, qualquer que seja o número de seus
elementos. No seu texto, sempre que um elemento é
considerado membro de um grupo conhecido, utilizará
também todos os outros elementos. Como exemplo o
romancista Michel Butor cita que se um personagem se
chama João, sendo João o nome de um dos quatro
evangelistas e dos doze apóstolos, Joyce utilizará os
outros três evangelistas e os outros onze apóstolos, e
assim por diante.
Finnegans Wake, iniciado logo após a
conclusão de Ulysses, é uma tentativa de sua
complementação. Joyce vai dedicar dezessete anos a
elaborar e a complexificar a sua linguagem,
transformando-a assim num verdadeiro enigma, dificultando
a sua compreensão. No início de sua carreira literária
disse que uma de suas armas artísticas era a do fazedor
de labirintos. O escritor Anthony Burgess entende que as
dificuldades de Ulysses e de Finnegans Wake
"representam aqueles elementos que cercam as
simplificações imediatas da sociedade humana;
simbolizam a história, o mito e o cosmo." Temos de
aceitá-los e considerá-los como partes integrantes da
vida do homem. E Joyce não nega a chave para a sua
compreensão. Conforme Edmund Wilson observa, Joyce
publicou no mensário transatlântico parisiense
Transicion metade dessa obra, quando ainda era Work in
Progress.
O romance Finnegans Wake, esclarece
Wilson, trata da representação das fantasias de um
sonho, ou, melhor dizendo, das sensações experimentadas
por uma pessoa durante uma noite de sonho. O herói
Humphrey Chimpden Earwicker, HCE, de origem escandinava -
daí o seu nome adaptado - sentia-se estranho no ambiente
em que vivia, isolado entre os vizinhos devido ao seu
nome e às diferenças na religiosidade, pois era
protestante morando entre católicos. Ele e sua mulher
Anna tiveram três filhos, Isobel, já adolescente e dois
garotos gêmeos mais jovens, Kewin e Jerry. Casara-se
quando Anna ainda era bem jovem, guardando grande
diferença de idade. Situando-se ele entre os 50 e 60
anos, já não experimentava mais o mesmo interesse
sexual antes sentido por ela.
Após um exaustivo dia de trabalho em
um sábado qualquer na hospedaria da qual era
proprietário, fora para a cama um pouco embriagado.
Naquela noite fora acometido de inquietação, padecendo
de um pesadelo. No seu sonho confundira seu primeiro
sentimento por Anna como uma emoção erótica que sua
filha lhe havia despertado. Sua afeição por seu filho
favorito, Jerry (identificado no sonho como o gêmeo
Shemm), adquirira associações homossexuais. No começo
do sonho Earwicker figura como Tristão, e durante toda a
noite faz a corte a Isolda. A ação da sua censura
intervém, mudando o nome de Isobel em Iseult la Belle,
mudando também o nome de Ana Liffey, que figura no sonho
por Anna Livia Plurabelle. A idéia de incesto e de
homossexualismo é desenvolvida no texto.
Earwicker no sonho é Tristão roubando
Isolda, é Adão que perdeu o paraíso, é o Arcanjo
Miguel lutando contra o mal. Earwicker caiu como Adão,
como o Humpty Dumpty e como o herói Tim Finnegan da
balada irlandesa de Finnegans Wake, que caiu de um
andaime e morreu. E é dessa canção que Joyce retira
sua temática. O sonho é a celebração do ritual
fúnebre de Tim Finnegan. Segundo o artigo de Campell
& Robinson, "Introdução a um assunto
estranho", traduzido por Augusto de Campos, durante
o velório promovido pelos amigos, alguém o respinga de
uísque e Finnegan ressuscita, desperta de novo para a
vida, tomando parte da dança generalizada.
Tim representa todos os heróis - Tor,
Prometeu, Cristo, Osíris, Buda que inspiram a
humanidade. Representa também a queda simbólica: é a
de Lúcifer, de Adão, de Roma, a queda de Humpty Dumpty
e a queda da maçã de Newton, simbolizando dessa maneira
a queda diária humana com a conseqüente perda da
graça. Essas várias quedas - implicando correspondentes
ressurreições - provocam uma libertação de energia
que mantém o universo a girar como um redemoinho, e
fornecem a dinâmica que põe em movimento o ciclo
quadripartido da História Universal, numa evocação a
Giambattista Vico. No funeral Tim Finnegans é exortado a
permanecer morto, pois que um recém-chegado à baía de
Dublin, seu sucessor, acaba de aportar. É Humphrey
Chimpden Earwiker, HCE. Sua mulher, Ana Lívia
Plurabelle, ALP, simboliza o princípio do movimento
vivo, cíclico, é também o rio Liffey que corta Dublin
e todos os demais rios do mundo. Representa Eva, Ísis,
Isolda..
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