LG_jc.gif (3670 bytes)

LITERATURA IV
Beirando "aBahia" do Finnegans

por DONALDO SCHÜLER*

Os quatro primeiros parágrafos de Finnegans Wake lembram o proêmio das epopéias. A interpretação viconiana da história, reelaborada, opera já nas primeiras linhas. A idade dos deuses está longe e próxima.

Soterrar não é aniquilar. O que já foi vibra na planta dos pés. Quem visita Dublim anda sobre o corpo de um gigante adormecido. Os embriões de Finnegans Wake estão guardados aí: a cidade, o gigante, o rio, o monte, o primeiro casal, o jardim, a queda, os filhos, a filha, a Europa, o mundo, o caos, a paixão, a morte, a vida... A cidade, um espaço artificial, soterrou natureza e mito em Ulisses e aqui. Estamos no primeiro parágrafo.

A descida ao mundo dos mortos começa no segundo parágrafo. Com Tristão (ou Tristrão) e sua paixão dilacerante, saltamos aos alvores dos tempos modernos. Vem a cristianização da Irlanda. Ascendemos ao século XVIII com Jonathan Swift. Esaú e Jacó nos chamam aos tempos bíblicos. A idade dos deuses, a dos heróis e a dos homens se embaralham. O conflito atravessa todas as idades. Homens combatem e combateram feridos, ontem e hoje. Os tempos mudam; o conflito, não: fluir das águas, dos tempos, do sangue, dos períodos. O sim e não, a vida e a morte, o que é e o que foi, a civilização e a barbárie, a guerra e a paz, o caos e o cosmo convivem. Esta é a lei do universo. Há predominância, elisão não há.

Mais um passo e caímos. Entramos no terceiro parágrafo. O estrondo repercute no alfabeto, na Babel das línguas. O estrondo provoca estrondos, vibra nos ruídos, mesmo nos bem tênues. A queda é, na verdade um avanço. Caímos... mas para dentro da história.

Assombrados despertamos numa idade desenfreada, sem lei, bárbara. Chegamos ao quarto parágrafo. Estamos no princípio ou no fim da história? Qual é a diferença? Na desordem, a ordem se regenera.

As palavras são espessas, feitas de camadas sobrepostas. Como nas frutas, a casca recobre outros estratos. Tocamos em corpo onírico. A pele do sonho abafa a voz das profundidades, censurada, perseguida, originária, criativa, a de Shem.

A linguagem dos tempos heróicos vem à tona. Revivemos idades de antepassados nossos. Recuperamos o sabor dos que proferem e ouvem palavras pela primeira vez. De assombro em assombro avançamos pelos caminhos intrincados do texto.

Como na sinfonia, os primeiros acordes anunciam o desenvolvimento futuro. Acompanhemos algumas das repercussões. Só algumas. Se déssemos atenção a todas, não sairíamos do primeiro parágrafo.

riverrun past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castie and Environs.

É hora de conhecer o gigante. O monte Howth - o nome deriva de hoved, cabeça em dinamarquês, note-se a semelhança com head - arredonda-se na extremidade superior, o núcleo inaugural da cidade ao norte do rio Liffey constitui o ventre enquanto os pés repousam rio Phoenix Park. O corpo do legendário guerreiro irlandês Finn MacCool se fez geografia e se fez história. MaCCool é o que vem, é que se vê. MacCool e Finnegan se contandem. Definidos estão os protagonistas: a líquida corrente e o gigante adormecido, prestes a despertar. As aventuras e as desventuras (amores e dores, vida e morte, acertos e erros) do casal constituem a coluna vertebral do romance.

riverrun em minúscula evoca a última sentença do livro. A way a lone a Iast a Ioved a Iong the, numa de suas possibilidades de leitura: "longe solitário um último amado continuamente o rio (corrente)". riverrun é o fluir do livro (run- inscrição, rune - escrita misteriosa), um rio em contínua transformação, o fluir de corpo feminino a regenerar o universo. As águas, velhas no fim, remoçam no princípio. A ação se passa em Dublim e no mundo. Em riverrun desembocam outros rios - todos. Entre o Éden e Dublim, concentra-se a história da humanidade. Já na literatura grega, a cidade refletia o mundo. Ao se falar da cidade, falava-se do universo. Dublim (do gaélico Dubh-linn) transfigurada pelo sonho, pela arte, chama-se Novo Nilbud, páginas depois (24, 1). O topônimo lido ao avesso acentua nil (nada) na primeira sílaba. O adjetivo Novo a matricula no espaço da língua portuguesa. Eva e Adão evocam a igreja Adam and Eve às margens do rio Liffey, o primeiro casal de homnes, o princípio masculino e feminino, o paraíso. Eva antecede Adão. A história começa com ela: ela caiu primeiro. Embora ela tenha sido feita da costela de Adão, ela lhe deu origem. Sem ela Adão não existiria, não como existiu a partir dela. O Adão solitário, o andrógino, ficou na pré-história.

O rio nos devolve (brings us...back) - todos os que navegamos, vivemos lemos -ao Howth Castie and Environs. Destacam-se na região mencionada as iniciais HCE que se derramam pelo texto em conjuntos como Hush! Causion! Echoland!, How charmingly exquisite, Heare Comes Eveybody, Hircus Civis Eblanensis, Havetti Childers Everywhere, Heiz Cans Everywhere, Haroun Childeric Eggebert, Humme the Cheapner Esc, Humphrey Chimpden Earwicker... impera urbi et orbi, em Dublim, nos homens, nas coisas, em todos, em tudo. Age em quem age. Ele é razão, espaço construído. Opõe-se à natureza, que o alimenta, ALP, sua mulher, o, o rio, o tempo , o o líquido, o feminino em geral. Ele é o actante masculino que age nos atores, actante ativo no interior da natureza.

Vemos que Finnegan não é um gigante que vem do passado. Finnegan, como geografia e como história, acontece aqui e agora, ele se mexe em cada linha, em cada palavra do romance. Finnegan é o romance que desperta a cada leitura sem que se renda de todo. Todos vimos e vemos partes. Ninguém o conhece o gigante inteiro.

O sono é comparável à morte. O gigante adormecido não se distingue de outros adormecidos. O romance nasce do sono, da morte. A leitura a todo instante nos devolve ao castelo (à cabeça onde se formam os sonhos) e arredores.

Quem fala? Em outros tempos o autor era o maestro. Entre autor e leitor havia um pacto. O leitor sabia que o autor não o trairia. Adivinhava expectativas e empenhava-se em satisfazê-las. O pacto se rompeu. Abandonado, o leitor anda em floresta escura. Ameaçam-no silêncios, ausências, mistérios, interrupções. O autor conta com leitores adultos, independentes, responsáveis, cidadãos da viconiana idade dos homens.

Philipe Lavergne traduz past Eve and Adam's com pass'notre Adam. Ouve-se em notre Adam o nome da catedral parisiense Notre Dame, ligada ao pai da humanidade, Adam. A tradução é feliz. Tira, entretanto, a ação da Irlanda e a leva para Paris o que, aliás, não contradiz a intenção universalizadora de Joyce.

Os topônimos modificados perdem rigor denotativo. Se estamos interessados em fazer com que o rio universal atravesse o Brasil, podemos substituir a igreja dublinense por uma igreja brasileira, Nossa Senhora do Ó, por exemplo. Se quisermos incorporar nela o princípio masculino, a exemplo do que fizeram Joyce e Lavergne, poderemos dizer Nossenhora d'Ohmem. Recriemos o parágrafo todo:

rolarrioana e passa por Nossenhora d' Ohmem's, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos de Vico ao de Howth Castelo Earredores.

Atento aos propósitos de Joyce, unimos o nome de Ana Lívia Plurabelle ao rio, corrente universal mítica, devolvendo-a a Dublim, fim e reinício do curso. Preservamos na tradução da cabeça do gigante irlandês a sigla HCE, mil vezes repetida. Para Here Comes Everybody propomos o Homem a Caminho Está.

* Donaldo Schüller é professor e tradutor

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 0
1.11.99
Segunda-feira