LG_jc.gif (3670 bytes)

ROMANCE
Duke: é o romance surpreendente

por PESSOA DE MORAES*

O romance de Domício Coutinho, Duke, o cachorro padre, que li, com minuciosas anotações - como o faço, em todos os ramos do conhecimento, com os livros que me pareceram profícuos - mostra-se realmente inusitado. Nele, o autor, que vive desde ainda jovem, em Nova Iorque e viaja sempre pelos EUA e pela Europa, sem deixar de vir ao Recife, teve, ainda na juventude, convivência em seminários católicos daqui, na Várzea e em Olinda, e cursos de teologia no Rio Grande do Sul e em Roma. Associa, porém, antes de mais nada, de modo simultâneo, uma linguagem surpreendentemente espontânea, mas poeticamente bem urdida e trabalhada.

Tudo isso, porém, servindo de espressão a um conteúdo isntitucional - o catolicismo judaico-romano e cristão do Ocidente, ao qual ele empresta dimensões vivenciais superiormente críticas, que só podem ser captadas por quem as viveu, na intimidade, através de perscrutações incomuns. Forma e conteúdo, em Domício Coutinho, se acasalam numa integração muito singular, quando o normal é encontrar, em literatura, ou o artificialismo mesmo pretensamente poético da forma, mas tornando artificial por se circunscrever a ela. Ou o contrário: os conteúdos sendo inexpressivos e os autores, não raro, sem terem o que dizer e como dizer.

Trata-se, porém, Duke, o cachorro padre, de instigantes fabulação romanesca, sempre, ressalta-se, carregada de um erudição que, pela sua leveza, alimenta o romance, a um só tempo, de seriedade e permanentes toques de humor. A dimensão, porém, para mim, mais surpreendente do livro de Domício Coutinho é, quando ele, dentro desses imprescindíveis critérios de harmonia integração literária, chega a perceber a distinção (que é essencial), entre a religião como misitério; ou melhor, diria eu, como apaixonada bsuca do mistério, saindo das limitadas cadeias do positivismo lógico-científico ou mesmo do mero cientificismo, distinguindo-a do símbolo ou do mito. Susceptíveis estes, alude Domício com acerto, de questionamento ou permanente discussão. Daí reabordá-los, discutí-los, remexendo e reanalisando, hermeneuticamente, inúmeros tópicos ou textos bíblicos, tentando fazer, a seu modo, uma exegese que não cai dentro da perspectiva convencional.

Domício Coutinho, em Duke, o cachorro padre, chega a discernir a camada fenomenológica do símbolo ou do mito, expressa nas Valquírias ou no sortilégio das mulhers das fábulas escandinavas; ou no fascínio do conto das mil e uma noites da cultura árabe; ou na visão simbólico-mitológica da idéia da criação e mesmo de outros tópicos da saga judaico-romana e cristã, que busca reinterpretar.

Há, assim, em Duke, o cachorro padre, de Domício Coutinho, a marca de uma sempre ávida inquietação intelectual que, destaque-se, não transborda os limites do cristianismo romano ou judaico-cristão, que influenciou intensa e profundamente toda a sua visão filosófica do mundo, à qual permanece criticamente fiel. A própria idéia do mistério se mostra, nele, bem presente, mas sempre no âmbito do catolicismo romano, desgarrando para os questionamentos teológicos ligados aos fundamentos mítico-simbólicos do cristianismo, que o arrebata e vive com grande emoção crítica.

Penetra, então, Domício, invclusive numa fascinante fabulação romanesca, perpassada de comovente humanismo, de contraditóriaq perplexidade de ambíguos sentimentos humanos e de irrefreáveis paixões contidas ou incontidas, que trazem inusitada força à fabulação, deixando o leitor ávido ao que pode acontecer nos capítulos seguintes. Saliente-se que Duke, o cachorro padre matriz ou fundamento de todo o livro, constitui a melhor síntese de todo pensamento de Domício Coutinho, sendo ele mesmo, Duke simbolicamente, o próprio Domício.

Na verdade, Duke, o cachorro padre, apira, simultaneamente, nas alturas longínquas das constelações, como personagem intangível, ou o Grande Cão, protótipo de todos os cães existente ou por existir.

Mas Duke, o cachorro padre, de Domício, simbolizando ele mesmo e suas inquietações intelectuais, existe, também, em carne e osso, no romance, em convento de padres de Nova Iorque mostrando, de maneira simultânea, nos atos, na postura, no acompanhamento da missa, postandos-se, contrito, nos rituais litúrgicos de cerimônia, com todos os reflexos preciosos e completa atenção de um clérigo empaticamente ajustado às circunstâncias. Mantém, porém, Duke, os impulsos e instintos sexuais dos cães comuns, tendo chegado, a causar estardalhaço e perplexidade quando, às vistas de todos, obedeceu aos impulsos da natureza canina normal, causando entre os padres e irmãos, calorosa polêmica e discussão.

Simultaneamente, Duke, revela dotes extremos de fidelidade, lealdade e até imensa compaixão, que o colocam, no romance, para Domício, com sentimentos e ética superiores aos próprios mortais comuns. O cachorro igualmente monologa e vira gente de verdade, com sutis reflexões que, não raro, traduzem os próprios conceitos e percepções do autor, falando através do seu principal personagem, que percorre, do começo ao fim, toda a fabulação do livro.

Quando sai, Duke, nos começos da madrugada novaiorquina, ao lado do irmão Alphonso - após controvertida discussão, ao fazer ato sexual à vista dos padres, provocando polêmicas, questionamento bíblicos divergentes e sentimentos contraditórios e exacerbados, o romance ganha maior vulto e suspense. Havia-se decoberto que Duke praticara sexo com a sua companheira Lora, constatando-se ser a mesma sua irmã. Então, do reitor do convento a todos os padres e irmãos, acirrou-se renhida polêmica, com opiniões e idéias até opostas, tendo um dos clérigos, fundado em doutrina teológica, onde aparecem, fornalhas de fogo do inferno com seus terríveis demônios, emitido conceito controverso sobre culpa e responsabilidade, chegado a indagar quanto tempo o irmão Alphonso fixara o olhar sobre o ato.

Houve defesas mas também insinuações ou indagações, sem ao menos a marca mínima do perdão ou da compreensão, o sentimento de culpa explodindo no irmão Alphonso, atordoado entre a necessidade compulsiva do ato litúrgico da confissão, ao lado de avassaladores sentimentos de culpa e o símbolo pânico das horrendas labaredas também simbólicas do inferno e seus demônios.

* Pessoa de Moraes é sociólogo

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 0
1.11.99
Segunda-feira