ROMANCE
Duke: é o romance
surpreendentepor PESSOA
DE MORAES*
O romance de Domício Coutinho, Duke, o
cachorro padre, que li, com minuciosas anotações - como
o faço, em todos os ramos do conhecimento, com os livros
que me pareceram profícuos - mostra-se realmente
inusitado. Nele, o autor, que vive desde ainda jovem, em
Nova Iorque e viaja sempre pelos EUA e pela Europa, sem
deixar de vir ao Recife, teve, ainda na juventude,
convivência em seminários católicos daqui, na Várzea
e em Olinda, e cursos de teologia no Rio Grande do Sul e
em Roma. Associa, porém, antes de mais nada, de modo
simultâneo, uma linguagem surpreendentemente
espontânea, mas poeticamente bem urdida e trabalhada.
Tudo isso, porém, servindo de
espressão a um conteúdo isntitucional - o catolicismo
judaico-romano e cristão do Ocidente, ao qual ele
empresta dimensões vivenciais superiormente críticas,
que só podem ser captadas por quem as viveu, na
intimidade, através de perscrutações incomuns. Forma e
conteúdo, em Domício Coutinho, se acasalam numa
integração muito singular, quando o normal é
encontrar, em literatura, ou o artificialismo mesmo
pretensamente poético da forma, mas tornando artificial
por se circunscrever a ela. Ou o contrário: os
conteúdos sendo inexpressivos e os autores, não raro,
sem terem o que dizer e como dizer.
Trata-se, porém, Duke, o cachorro
padre, de instigantes fabulação romanesca, sempre,
ressalta-se, carregada de um erudição que, pela sua
leveza, alimenta o romance, a um só tempo, de seriedade
e permanentes toques de humor. A dimensão, porém, para
mim, mais surpreendente do livro de Domício Coutinho é,
quando ele, dentro desses imprescindíveis critérios de
harmonia integração literária, chega a perceber a
distinção (que é essencial), entre a religião como
misitério; ou melhor, diria eu, como apaixonada bsuca do
mistério, saindo das limitadas cadeias do positivismo
lógico-científico ou mesmo do mero cientificismo,
distinguindo-a do símbolo ou do mito. Susceptíveis
estes, alude Domício com acerto, de questionamento ou
permanente discussão. Daí reabordá-los, discutí-los,
remexendo e reanalisando, hermeneuticamente, inúmeros
tópicos ou textos bíblicos, tentando fazer, a seu modo,
uma exegese que não cai dentro da perspectiva
convencional.
Domício Coutinho, em Duke, o cachorro
padre, chega a discernir a camada fenomenológica do
símbolo ou do mito, expressa nas Valquírias ou no
sortilégio das mulhers das fábulas escandinavas; ou no
fascínio do conto das mil e uma noites da cultura
árabe; ou na visão simbólico-mitológica da idéia da
criação e mesmo de outros tópicos da saga
judaico-romana e cristã, que busca reinterpretar.
Há, assim, em Duke, o cachorro padre,
de Domício Coutinho, a marca de uma sempre ávida
inquietação intelectual que, destaque-se, não
transborda os limites do cristianismo romano ou
judaico-cristão, que influenciou intensa e profundamente
toda a sua visão filosófica do mundo, à qual permanece
criticamente fiel. A própria idéia do mistério se
mostra, nele, bem presente, mas sempre no âmbito do
catolicismo romano, desgarrando para os questionamentos
teológicos ligados aos fundamentos mítico-simbólicos
do cristianismo, que o arrebata e vive com grande
emoção crítica.
Penetra, então, Domício, invclusive
numa fascinante fabulação romanesca, perpassada de
comovente humanismo, de contraditóriaq perplexidade de
ambíguos sentimentos humanos e de irrefreáveis paixões
contidas ou incontidas, que trazem inusitada força à
fabulação, deixando o leitor ávido ao que pode
acontecer nos capítulos seguintes. Saliente-se que Duke,
o cachorro padre matriz ou fundamento de todo o livro,
constitui a melhor síntese de todo pensamento de
Domício Coutinho, sendo ele mesmo, Duke simbolicamente,
o próprio Domício.
Na verdade, Duke, o cachorro padre,
apira, simultaneamente, nas alturas longínquas das
constelações, como personagem intangível, ou o Grande
Cão, protótipo de todos os cães existente ou por
existir.
Mas Duke, o cachorro padre, de
Domício, simbolizando ele mesmo e suas inquietações
intelectuais, existe, também, em carne e osso, no
romance, em convento de padres de Nova Iorque mostrando,
de maneira simultânea, nos atos, na postura, no
acompanhamento da missa, postandos-se, contrito, nos
rituais litúrgicos de cerimônia, com todos os reflexos
preciosos e completa atenção de um clérigo
empaticamente ajustado às circunstâncias. Mantém,
porém, Duke, os impulsos e instintos sexuais dos cães
comuns, tendo chegado, a causar estardalhaço e
perplexidade quando, às vistas de todos, obedeceu aos
impulsos da natureza canina normal, causando entre os
padres e irmãos, calorosa polêmica e discussão.
Simultaneamente, Duke, revela dotes
extremos de fidelidade, lealdade e até imensa
compaixão, que o colocam, no romance, para Domício, com
sentimentos e ética superiores aos próprios mortais
comuns. O cachorro igualmente monologa e vira gente de
verdade, com sutis reflexões que, não raro, traduzem os
próprios conceitos e percepções do autor, falando
através do seu principal personagem, que percorre, do
começo ao fim, toda a fabulação do livro.
Quando sai, Duke, nos começos da
madrugada novaiorquina, ao lado do irmão Alphonso -
após controvertida discussão, ao fazer ato sexual à
vista dos padres, provocando polêmicas, questionamento
bíblicos divergentes e sentimentos contraditórios e
exacerbados, o romance ganha maior vulto e suspense.
Havia-se decoberto que Duke praticara sexo com a sua
companheira Lora, constatando-se ser a mesma sua irmã.
Então, do reitor do convento a todos os padres e
irmãos, acirrou-se renhida polêmica, com opiniões e
idéias até opostas, tendo um dos clérigos, fundado em
doutrina teológica, onde aparecem, fornalhas de fogo do
inferno com seus terríveis demônios, emitido conceito
controverso sobre culpa e responsabilidade, chegado a
indagar quanto tempo o irmão Alphonso fixara o olhar
sobre o ato.
Houve defesas mas também insinuações
ou indagações, sem ao menos a marca mínima do perdão
ou da compreensão, o sentimento de culpa explodindo no
irmão Alphonso, atordoado entre a necessidade compulsiva
do ato litúrgico da confissão, ao lado de avassaladores
sentimentos de culpa e o símbolo pânico das horrendas
labaredas também simbólicas do inferno e seus
demônios.
* Pessoa de Moraes é sociólogo
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